Mel Caramelo e Chocolate Capítulo 26 por Mel Kiryu


Capítulo 26 
Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo:
                              O sol, a lua e a verdade*

      Não que fosse apenas sexo.
     Mas, era justo o que tinha feito com Datenshi quase noite a dentro, como se o mundo fosse acabar às seis da manhã do dia seguinte.
    Deixaram Kanda dormindo e foram os dois juntos encontrar com Nagoro na Estação Rodoviária.
    Era a última semana de junho e chovia.


    Contudo, quando retornaram à casa que ficava ao lado da residência de Datenshi, ele ajudou unicamente a levar a mala de Nagoro para dentro e se foi.
   Kitsune se viu sozinho com sua avó.
   Tinha levado Datenshi até a porta e quando voltou, encontrou sua avó deslizando o dedo na cômoda antiga da sala, os olhos estreitos dela analisaram minuciosamente o dedo coberto de poeira.
__Bom... Correu tudo bem, Obaasan?    
__Hum... Pode-se dizer que sim, demorei mais do que esperava porque tive que ajudar a garota que deu a luz aos gêmeos.__ Ela replicou esfregando o polegar no indicador sujo de poeira.__ Fiquei por lá até o coto umbilical das crianças caírem.
    Nagoro esfregou um lábio seco no outro e completou a olhar de soslaio seu neto:
__Suponho que tenha adorado minha ausência, não é mesmo Kitsune?
__Eh?... Por que diz isso, Obaasan?...
__Mas, como é sonso!__ Nagoro desdenhou afiando o olhar sobre Kitsune.__ Do jeito que tem pó sobre os móveis, posso afirmar com cereza que a casa está trancada desde a minha partida. Tudo está exatamente como deixei... E aposto que a dispensa na cozinha está intocada.
__Mas... A senhora não me pediu para cuidar da casa... Apenas das plantas e da horta, Obaasan.
__Eu sei! Com isso só posso chegar a conclusão que ficou enfurnado na casa de Datenshi.
    Havia qualquer coisa de sombrio no falar de sua avó.
__ Eu... Eu gosto de ficar na casa do Datenshi... A senhora não diz que ele é um ótimo rapaz?
__Sabe que o que me preocupa não é Datenshi.
__Eu sei...__ Kitsune suspirou, nunca conseguia encarar sua avó de frente.__ É Kanda...
    Nagoro cruzou os braços, moveu os ombros tensos e estalou o pescoço.
__Isso mesmo, neto-cabeça-de-vento!__ Ela retrucou acusadora.__ Ainda descobri que no dia da feira no vilarejo, teve o desplante de mentir para sua avó!... Disse que tinha se perdido, quando na verdade tinha dado uma escapada com Kanda!
     Kitsune era o oposto de Nagoro, tinha os ombros caídos, em desalinho.
     Sem coragem de negar.
__Desculpe...
__ "Desculpe"!__ Nagoro repetiu desdenhosa, deslizando a mão brava nos vincos de seu rosto antigo.__ Eu suponho que o dano já tenha sido feito, não é?
__Olha... Obaasan... Não tem como eu ser amigo de Datenshi e ignorar Kanda!... Eu... Gosto muito de ficar com Kanda, ouvi-lo tocar flauta... Ele não é como a senhora imagina...
__Eu não imagino, Kitsune!__ Nagoro elevou a voz.__ Eu sei! Kanda tem um efeito estranho sobre as pessoas.
__Do que a senhora está falando, afinal?__ Kitsune perguntou confuso, algo irritado.
     Havia uma aura assombrosa em sua avó, era como se ela não existisse mais e fosse apenas um espírito muito antigo que não tivesse abandonado a Terra.
__Quando termina o período de férias, Kanda estuda na escola dessa região e Datenshi trabalha como zelador nessa mesma escola... Ano passado duas garotas se apaixonaram por Kanda em diferentes estações e inexplicavelmente as duas cometeram suicídio.
     E depois de uma pausa enfática, assentindo com sua cabeça em sábia convicção, Nagoro completou:
__As meninas não se conheciam, nem suas famílias... Kanda é a única ligação entre elas.
__Não pode ser...__ Kitsune encostou as pontas dos dedos nos lábios, mordiscou a própria unha.__ Foi só coincidência...
__Acha mesmo?__ Nagoro tinha um tom desafiador.__ Duas garotas tiveram a mesma morte, as duas cometeram suicídio por enforcamento... Se depois disso não se afastar de Kanda, é muita tolice da sua parte!
__Eu não vou me afastar de Kanda!__ Kitsune crispou de leve a tez, pela primeira vez elevando a voz em veemente contestação.__ Não importa o que diga, Obaasan!... Eu... Eu quero ficar ao lado dele!
      Jamais havia contestado tão ferozmente sua avó, nunca tinha faltado com tanto respeito.
      Nagoro estreitou ainda mais o olhar sobre seu neto, aproximando devagar o rosto, enquanto seus dedos seguravam um escapulário pendurado em seu pescoço marcado pela idade.
     Este olhar de Nagoro enervava Kitsune, parecia um bisturi metafísico fatiando seu espírito.
__Kitsune...__ Ela pronunciou lentamente, incrédula em suas suposições.__ Está apaixonado por Kanda?
    A súbita pergunta fez Kitsune dar um passo para trás, bater com as costas numa cadeira, quase derrubá-la no chão, seus lábios tremeram, sua boca ficou insuportavelmente seca.
    Teve que desviar bruscamente sua face, sua voz era um fio constrangido.
__ Olha o que está dizendo... Nós somos dois garotos... Isso... Isso seria...
__Eu não sei o que está pensando, Kitsune...__ Foi a vez de Nagoro se afastar, algo horrorizada.__ Pode achar que estava destinado a se apaixonar, mas isso de forma alguma significa que está destinado a ficar junto dessa pessoa... A morte ronda a beleza de Kanda, nada de bom pode vir dessa paixão.
      A voz de Nagoro se extinguiu tal como chama ao vento e ela se retirou da sala.
       

Nota da autora: *Citação de Buda

7 comentários

  1. Mel vou continuar lendo mas vou para de escrever, desculpa...

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    1. Mas só isso?
      Sem se justificar?
      Você quem sabe, evidente.
      Mas, bem que eu gostaria de saber a razão.

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  2. Compreendo que todo escrito deve considerar toda critica construtiva -tive uma palestra sobre isso- , porem recebo muitas e já deu pra entender não e mesmo, eu mesmo acho que não escrevo também é que não vou evoluir ou talvez só meu "interior" esteja achando isso.
    Está me entendo né...

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    1. Amaya, minhas verdades sobre ser um escritor são as seguintes:

      1) Para ser um bom escritor, é bom que sejamos um ótimo leitor.
      2) É essencial gostar de escrever, tem que ser algo prazeroso.
      3) Críticas não são a parte mais importante da escrita e de todo processo.
      4) Quem tem que ficar satisfeito acima de tudo com o resultado da escrita é você.

      Mas, se você sente que não está mais afim de escrever, eu entendo.

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  3. Valeu. Mas é só frescura de adolescente estou em momento de frescura, e eu falei mais não consigo para de escrever eu amo minhas historias é só que na hora que me falaram isso eu não estava bem, amo escrever também nem que seja na minha cabeça, agora se sou um ótimo leitor não sei mais lê e uma das coisas mais importantes na minha vida.

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    1. Na hora que quiser voltar a postar no blog, sinta-se a vontade.
      Suas estórias serão sempre bem vindas.

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