17.6.15

Mel Caramelo e Chocolate Capítulo 56 por Mel Kiryu


Capítulo 56 Um garoto que não compreende as escolhas do coração

       Apenas contou que tinha ido ao vilarejo no outro lado do vale, mas não disse a Datenshi onde ia quando se falaram pelo celular.
    Também porque Kitsune não tinha certeza se estava indo pelo caminho certo.
     E isso em muito sentidos.

    Depois de um tempo caminhando, soube que ao menos estava na trilha certa quando avistou a escadaria que levava ao templo budista que ficava na região.
    Foi sozinho até a cabana em ruínas e pela primeira vez se aproximou do lugar onde Kanda passara sua atormentada infância.
     A porta da cabana tinha sido posta em seu lugar, Kitsune se lembrava bem que Kanda a tinha derrubado no chão com um chute raivoso... Então, logo supôs que ela pudesse estar solta.
   Se aproximou algo hesitante, o vento soprava forte e sentia de longe o cheiro dos pinheiros no ar.

     Claro que a cabana, a madeira da porta estava suja e desgastada pelo tempo, podia sentir o acúmulo de poeira, de mofo esverdeado com os dedos, mas logo percebeu que não precisava de um grande esforço para removê-la.
     Levou um susto quando viu o que parecia ser uma raposa escapando por uma fresta, por um buraco na madeira deteriorada e a parte disso tudo estava igualmente em ruínas por dentro.
   A luz do sol adentrava por pequenas fendas no telhado e tudo estava muito poeirento.
   Contudo, podia identificar alguns utensílios como uma panela de barro, tigelas cobertas de musgo e Kitsune se perguntava o que tinha acontecido naquele lugar... O que motivara Kanda a perfurar os próprios tímpanos? Uma criança de quatro anos cometer tamanha atrocidade com o próprio corpo.
     E o pior de tudo... Tinha mesmo considerado abandonar esse rapaz que tinha conquistado seu coração, que o tinha cativado com sua doçura envolta num profundo silêncio, com a melodia doce da flauta de bambu que Kanda tocava, mas ele mesmo não podia escutar.

     Como também Datenshi que ainda era seu primeiro amor.
     Sozinho naquela montanha, compreendia que era um tolo, que era covarde, que amar alguém era um ato muito maior do que tinha imaginado.
     Não deveria ser um sacrifício ficar em definitivo no vilarejo.
     Mas, Datenshi tinha causado a morte do próprio pai da modo mais frio e calculado possível.
     Entre esses pensamentos contraditórios, Kitsune sem querer esbarrou a mão numa teia de aranha e ao sentir aquela coisa grudenta aderir aos seus dedos, foi subitamente dominado por um breve asco se colocando para fora da cabana, esfregando a própria mão na calça caqui como se a aranha estivesse passeando por sua pele.

    Foi assim, devagar que se afastou da cabana. Alternando os olhares entre a cabana em ruínas e a paisagem que se descortinava oposta, as plantações distantes de algodão e um pouco mais perto o templo budista.
    Assim como a casa onde morava Hanae Satsuki, ex-monge com quem tinha estado uma vez não fazia muito tempo... O tio de Kanda.
    Com os passos igualmente tímidos, Kitsune caminhou até avistar a casa de Hanae. Não entendia bem os motivos que o levavam a caminhar naquela direção, não devia ir embora de uma vez? Voltar para o vilarejo de Hajiketa, reencontrar Kanda e Datenshi depois de tanto refletir?
    Não havia muito mais o que pensar afinal, ainda que nada estivesse resolvido no íntimo de Kitsune.
    E mesmo assim, entrou no terreno onde ficava o bangalô que parecia estar trancado, tudo em volta quieto em demasia.

     Muito embora, o silêncio apenas quebrado pelo vento, pelo canto e pio dos pássaros e pelo farfalhar da farta vegetação era uma característica mítica do vilarejo de Okami.
      Se dirigiu até a fonte algo desanimado, olhou o próprio reflexo na água.
   Não sentia apenas que aquela era uma viagem perdida, mas também toda sua vida marcada pela inércia, a ausência de decisão, seu existir firmado na apatia e agora sua angustiante indecisão.
   Colocou apenas os dedos na água clara e fria, o som da fonte parecia fazer o dia se arrastar.
   Seus dedos se uniram em concha e levou ao lábios um pouco d'água, fechou os olhos enquanto sentia a sede abandonar a goela antes ressequida, o vento brando no cabelo e quase teve um sobressalto ao abrir os olhos e deparar-se com Hanae parado do outro lado da fonte.
          Há quanto tempo ele estivera parado ali?
__Se não é o namorado de Kanda...__ Hanae sorriu com sua perturbadora doçura, tirando o chapéu de abas longas da cabeça.__ Como é mesmo?...
__Kitsune...__ Retrucou com a voz socada na garganta.
__Melhor não beber dessa fonte.__ Hanae orientou também sentindo o frescor da água com os dedos.__ Não tenho certeza se essa água é totalmente potável... Quer entrar? Tenho moringas com água boa para o consumo.
    Kitsune balançou a cabeça em concordância, mas seu olhar era sempre inseguro.
           Parecia prestes a mudar de ideia e sair correndo.
       Contudo, estava claro que algo o tinha motivado a chegar até o bangalô no vilarejo de Okami.
    De repente, Kitsune percebia que desde o instante que saíra da casa de sua avô há algumas horas atrás, era para encontrar esse ex-monge.
      Apenas para estar com Hanae.  
   



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