3.6.15

Sight of Sea Capítulo XI por Kisu


Capítulo XI - Enfeitiçante

- Will, ei, William! Acorde - uma voz me chamava.
     Abri os olhos sem saber o que se passava e me encolhi tão logo lembrei.
- Por favor, não me machuque de novo, Kyle - pedi abraçando meus ombros e fechando os olhos.
- Kyle? De quem está falando? Sou eu, Thomas - a voz riu. - Estava tendo algum pesadelo, Will? - perguntou divertido.

        Tornei a abrir os olhos e me vi deitado na grama verde ao lado da fonte jorrando água fresca no interior do palácio. Me sentei e olhei Thomas também sentado sobre um dos arbustos não muito distante, mas havia algo estranho, ele estava tão jovem.
- Quando foi que eu voltei? O que aconteceu? Onde está o Kyle e o Booty Dark Fleet? Por que você está com dezesseis anos? - indaguei aos montes, atordoado. - Eu estava no mar ainda há pouco, não tem como eu ter voltado tão rápido!
         Ele sorriu sem mostrar os dentes.
- Do que está falando, tolinho? É claro que eu tenho dezesseis anos, ontem foi meu aniversário e você disse que viria caçar comigo hoje. Como seu treino acabou, vim te procurar - argumentou. - Você nunca saiu do palácio, Will, não é por isso que está chorando escondido de novo? - disse erguendo uma das sobrancelhas complacente.
         Passei a mão na face e senti o molhado das lágrimas. O cheiro da água corrente, o cheiro de terra misturada à grama, o calor do sol e os pássaros cantando. Estaria sonhando mesmo? Tudo não teria passado de um sonho? O sonho inteiro queria voltar para casa e, agora que estava de volta, por que meu coração doía tanto?
- Vem, Will. Se você me pegar antes de chegarmos ao estábulo, te dou meu melhor cafuné - ofereceu saltando do arbusto e correndo à minha frente enquanto ria e os cabelos loiros dançavam.
      Me levantei e corri atrás dele, mas ainda não parecia o suficiente. Meu corpo parecia feito de chumbo, era cansativo demais me mexer mesmo que pouco, como se houvessem amarras tentando me prender.
      Alcancei Thomas exausto pela corrida e tive que me apoiar nos joelhos para recuperar o fôlego. Thomas deu umas últimas carícias na crina do seu cavalo branco feito neve antes de se virar para mim e se aproximar.
       Me recompus e sem prever, Thomas me envolveu em seus braços. Era quente como o sol que raiava do lado de fora e tinha cheiro de flor. Ele bagunçou meus cabelos sem jeito antes de abrir um sorriso e me estender a mão para me ajudar com os estribos. Ele subiu na sela logo atrás de mim e tocou de leve o cavalo com a espora.
Saímos pelo portão dos fundos e não demoramos a entrar na floresta. Segurava firme no pito da sela  que dividíamos e Thomas me sustentava com os braços sob os meus, fato que não lhe atrapalhava nem um pouco com as rédeas.
     Cavalgamos um pouco e num momento Thomas parou e pediu que fizesse silêncio. Ele me deu um arco e uma flecha e apontou para uma lebre marrom comendo despreocupada uma folha presa entre suas patas. Ajustei a flecha na corda e mirei.
- Mantenha a firmeza, não deixe ceder antes - orientou num sussurro próximo a minha orelha, colocando suas mãos por cima das minhas a me ajudar.
Soltei a flecha, mas ela passou longe de acertar e quanto à lebre nem sinal havia mais.
- Desculpa, porque cedi a pressão um pouco antes de soltar, ela escapou - falei cabisbaixo.
Thomas afagou minhas madeixas e eu olhei por cima dos ombros para seus olhos claros e amarronzados.
- Não se preocupe, é sua primeira tentativa - esboçou um sorriso gentil.

         O resto do dia foi assim, tentativa e erro. Só não retornamos antes para o palácio, porque Thomas pegou um esquilo que comemos de almoço assim que achamos uma clareira para repousar, mas depois disso não tivemos nenhum sucesso.
- Vamos, Will - chamou. - O sol está alto, mas logo vai escurecer e é perigoso andarmos a noite - lembrou terminando de amarrar a barrigueira no cavalo.
Ia lhe levar o arco com a aljava de flechas quando vi um movimento nos arbustos a alguns metros na divisória da clareira com a floresta.
- Tem algum animal aqui, deixa só eu tentar acertar mais esse - pedi já ajustando a flecha na corda e mirando.
- Esquece isso, Will. Melhor irmos logo - suspirou.
Não dei ouvidos e atirei mesmo assim. Ouvi a flecha acertando algo e me virei para Thomas comemorando.
- Viu? Eu acertei, Thomas, acertei! - gritava feliz acenando para ele.
Mas o urro de dor que se seguiu fez meu sorriso desaparecer num piscar de olhos. Thomas arregalou os olhos, mas ele estava longe e só deu tempo de gritar:
- Corre, Will!
      Olhei para trás, mas meu corpo não se mexia, não queria me obedecer e correr como Thomas ordenara. Enquanto isso, um urso pardo já estava muito próximo de mim, presas e garras à mostra e a flecha que eu atirara encravada estava em seu ombro. Tentei me afastar, mas tropecei em meus próprios pés e cai com as pernas tremendo no chão. Queria gritar por ajuda, mas de meus lábios só saía o nome de Thomas num murmúrio quase inaudível.
       Quando o urso se jogou sobre mim, foi mais por reflexo que levei o arco à sua garganta impedindo momentaneamente de ser estraçalhado por suas presas, mas ainda senti a ponta de suas garras cortando por cima a roupa e pele de meu braço esquerdo.
        Minhas forças se esvaiam, conforme o ferimento em meu braço ardia e a madeira fina do arco estava cedendo. Quando ela por fim se rompeu, senti o sangue quente banhando meu corpo.
       Respirava fundo como se o ar do mundo pudesse acabar a qualquer momento quando Thomas tirou o corpo do animal em agonia de cima de mim e deu o golpe de misericórdia.
      Não conseguia me levantar, meu corpo tremia tanto e eu só percebi que estava coberto de sangue quando levei a mão ao rosto. Esse visão não saía de minha mente pensando que podia ser meu sangue a me cobrir o corpo.
     Thomas se ajoelhou a meu lado, preocupado com meu estado e se desculpando por ter demorado. Eu o puxei para cima de mim e o abracei sem jeito afundando o rosto em seu peitoral e chorando desamparado.
- Desculpa não te obedecer. Não me abandone, Thomas, por favor fique comigo pra sempre - pedi esfregando o rosto em sua roupa.
Ele não demonstrou se importar em sujar suas vestes de sangue, pelo contrário, ele me abraçou de volta como se não fosse me deixar nem se eu quisesse e isso me acalmou um pouco.
- Will, seu tolo. Como se eu pudesse te deixar sair de minhas vistas.
- Achei que eu só causasse problemas pra você e que me odiasse quando nos conhecemos - desabafei apertando meus dedos frágeis de treze anos ao redor de sua cintura.
- Isso foi há três anos, eu não poderia me importar menos com você, Will - disse dando um beijo em minha testa.
O sol se escondia por entre as árvores e começava a escurecer, mas Thomas ainda me abraçava sem pretensão de soltar.
- Eu vou ficar com você pra sempre, então fique comigo também! - pediu correndo os dedos de uma das mãos para meu cabelo e me puxando ainda mais para perto.
- Eu… eu…
Ouvia o som descompassado de seu coração batendo tão forte pelo susto quanto o meu e isso me dava paz de espírito, mas não pude evitar hesitar em responder. Algo dentro de mim falava que não era isso que eu realmente queria, que estava errado… mas eu amava meu irmão de consideração e não poderia deixar de acreditar em suas palavras.
- Eu acei…

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