16.6.15

Sight of Sea Capítulo XII por Kisu


Capítulo XII - Túmulo de Sonhos

           O cheiro forte de sangue que eu passei a odiar desde então, foi substituído pela fragrância única de Thomas que tornava a tomar meus sentidos, o seu corpo quente me envolvendo carinhoso me fazia desejar jamais deixar aqueles braços e fechando os olhos, me deixava levar por aquele afeto enquanto uma lágrima escorria solitária por minha face.
- Eu aceito, Thom…

        Antes que pudesse terminar de falar, Thomas se afastou súbito de mim segurando a roupa na altura do peito numa horrível expressão de dor. Ele se debatia rolando de um lado a outro do chão enquanto nosso mundo se despedaçava ao redor em milhares de fragmentos semelhantes a cacos de vidro. No minuto seguinte, senti uma dor descomunal no rosto e cambaleei apalpando o local, tornei a sentir muita dor, dessa vez na cabeça, como se fosse socado.
           Assim que voltei a mim e comecei a abrir os olhos, ouvia uma voz gritando aguda em dor ao passo que fui acertado em cheio no rosto e o impulso me atirou com tudo contra uma ampla estrutura de madeira. Nem bem me localizei recostado no mastro principal do navio, percebi meu corpo envolvido com firmeza por uma mão a me segurar pela cintura enquanto a outra me puxava pela nuca num beijo que demorei a sentir pela tontura, embora uma língua se embolasse ávida junto a minha.

         Arregalei os olhos quando vi que era Kyle que me beijava possessivo. Ousei me distanciar, mas ele não deixou e me apertando ainda mais forte acabei cedendo ao beijo e permitindo sentir a textura de sua língua junto à minha. Fechei os olhos com vagar e me deixei levar, fosse por que era bom, fosse por qualquer outro motivo ou sensação remanescente de ainda pouco.
        Não foi rápido nem demorado, mas tive uma sensação de ternura com os últimos estalinhos do beijo que terminou num filete de saliva enquanto nossos corpos permaneciam em contato um com o outro.
- Não dei permissão para que fosse enganado, cão sarnento. O único que pode fazer isso com você, sou eu! - falou bravio.
Nossos rostos ainda bem próximos e eu inconscientemente acabei por concordar num aceno, só caindo em mim bem depois.
- Haja o que houver, não ouse fugir, também não me traia ou olhe para outro que não a mim - falou segurando minha face com uma das mãos e acariciando por cima de minha camisa no local da marca de queimadura que ele mesmo me dera. Por fim, ordenou: - Cuide do timão até última ordem.
        Neguei com a cabeça já mais consciente de minhas atitudes e do que se passava ao nosso redor depois de sair do transe e Kyle estreitou os olhos sobre mim.
- Se eu não morrer aqui, sei que ainda vou continuar preso a você quando saírmos… Não pretendo ficar ligado a alguém de quem nada sei… - disse baixo. - Se afundarmos, iremos juntos.
Como uma cobra dando o bote, sua mão desceu veloz por meu rosto a agarrar meu pescoço sem pensar duas vezes e ele começou a me sufocar.
- Acabei de te salvar de virar comida de peixe e é assim que me agradece?
Minha respiração começava a falhar e estava ficando difícil de respirar.
- Não entendo sua fixação por mim - retruquei com dificuldade, mal tendo certeza se minha voz saía pela garganta ou se era impressão. - Se quer tanto que eu faça o que pede, me conte tudo sobre o Cameron!
       A pressão em meu pescoço se intensificou num instante e minha cabeça começou a girar.
- Aceita a maldita condição! - grunhi com a voz entrecortada e sem saber se olhava para a face dele ou para outra direção.
      Tive impressão de que ele levantou a espada para mim antes de dar uma estocada. Fechei os olhos e  ouvi o barulho de corte seguido daquele mesmo grito agudo só que muito próximo.
Ele cessou a força em minha garganta e me soltou contrafeito, mas não pude evitar cambalear e tossir várias vezes buscando respirar normalmente. Ele abriu espaço, mas eu não passei.
- Me dê sua palavra - exigi ainda tossindo.
Ele cerrou os dentes e o punho de posse da espada suja de um estranho líquido roxo.
- Tem minha palavra de pirata - falou me apontando o caminho a seguir com a espada erguida e ainda de cara fechada. - Se saírmos dessa vivos… - completou.
          Quando passei por ele, quase tropecei em algo caído no chão do convés. Ainda estava anestesiado e minha cabeça latejava e por isso demorei a tapar a boca escondendo um grito quando vi caído ao chão uma criatura metade peixe, metade mulher, mãos muito afiadas nas pontas e pequenas presas afiadas no lugar dos dentes. O que mais me assustou foi a expressão de dor que ela tinha no que seria o rosto enquanto um líquido roxo escorria da ferida fatal no meio da testa.

       Kyle me teu um tapa com vontade no traseiro e tive um sobressalto, voltando a mim quando o navio bateu em algo e sacudiu com força. Me reequilibrei envergonhado e então subi correndo em direção ao timão sem olhar para trás, embora tivesse uma certa ideia de como tinha percorrido a distância até o convés principal.
          Não eram apenas lendas, as sereias das histórias que eu ouvia quando jovem eram reais, pensei tomando o timão em mãos e mesmo sem saber como navegar, lembrava das visões que tinha de relance do timoneiro e tentava ao máximo desviar o navio das rochas.
       O navio estava sendo puxado depressa por uma correnteza voraz, haviam muitos estragos, um dos mastros secundários tinha simplesmente sido arrancado, haviam velas destroçadas, cordas rompidas, a tripulação andava enfeitiçada pelo convés e eu não via um palmo à proa com tanta névoa.

         Haviam lendas de que existiam criaturas que enfeitiçavam os homens e os levavam a morrer afogados no mar, seu canto era tão belo que nenhum deles era capaz de resistir. Todos, exceto um.
Na verdade, não conseguia ouvir som algum que me lembrasse de uma melodia, seria por que não estava mais sob o efeito? Embora eu sequer recordasse como fui pego numa alucinação da lembrança mais forte que tinha de meu passado…
        Deixei meus pensamentos de lado e com os olhos passei a acompanhar Kyle correndo feito louco de um lado a outro do convés matando as poucas sereias que ousavam subir a bordo e deixando seus próprios homens inconscientes para que não tornassem a serem tragados pelas ilusões.
         Não via medo nele, era mais como se estivesse se vingando pelo fato das sereias tentarem mexer com seu navio e com seus homens sem sua permissão. Era um olhar de ira que se somava à condição que eu o fizera aceitar, mas diria que boa parte de sua raiva era por terem mexido com suas lembranças sem permissão e eu o atiçara ainda mais.

          Voltei minha atenção para o timão no que tentou sair de meu controle e levar o navio em outra direção. A correnteza tornava-se mais destruidora e insaciável por velocidade, de forma que o navio chegava a perder o contato com a água, saltando e fazendo tudo oscilar quando havia qualquer declive na formação do fundo das águas.
        Quando Kyle deu cabo da última sereia a bordo, ele subiu correndo. Pensei que fosse apenas ficar dando mais ordens ou que iria tomar o timão para si, mas ele se colocou atrás de mim segurando por sobre minhas mãos. Meu coração palpitou e não entendi por que senti o rosto aquecer. Ia reclamar e cheguei a virar o rosto, mas não tive oportunidade de proferir sequer uma palavra.
- Se errar aqui, é o fim! - explicou convicto entredentes. -  Não temos tempo para tentativas e erros, cão sarnento.
         Isso me lembrou de Thomas, mas era diferente. Não havia maldade no que Kyle dizia e ele não pretendia me mimar com incentivos falsos que nos matariam.
          Por ora, me concentrei em seguir suas ordens e conduzir o navio conforme ele falava. Nossos movimentos estavam em ressonância como se fosse a coisa mais normal do mundo. Era quase ensaiado de tão precisa a nossa sintonia.
        A água puxava o navio e mesmo desviando da maior parte das rochas o casco ainda tinha lascas arrancadas quando se chocava em outras pedras menores ocultas pela névoa que começava a se dissipar aos poucos.
         Num ponto, as rochas de menor proporção simplesmente sumiram e pensei estarmos saindo do Túmulo da Sereia quando vi uma queda enorme adiante. Não teve jeito, segurei firme no timão junto com Kyle ao passo que o navio cortou a névoa e saiu voando. Nossos pés perderam o contato com a madeira do convés superior enquanto o navio caía até que o casco enfim se chocou com tudo contra a água. A parte superior do último mastro secundário terminou de ser arrancada e voou longe no impacto e nós caímos rolando pelo convés.

         Levantei a parte de cima do corpo me apoiando nos cotovelos e respirando rápido pela adrenalina ainda não acreditando que estávamos vivos e fora de perigo.
- Nós conseguimos, conseguimos! - vociferei alto e contente quase sem acreditar, mas quando olhei para Kyle ao meu lado, ele estava respirando pesado e suando muito. - Kyle?
           Me levantei de vez e me acheguei dele. Passei a mão na sua testa e pescoço, ele estava queimando.  Sua face e lábios estavam pálidos como se tivesse visto um fantasma e ele respirava rápido e não pude evitar de me sentir desesperado. O que tinha acontecido? Pensei com o coração a mil. Vasculhei seu corpo com os olhos e passando a mão com incerteza e só então vi escondido sob o sobretudo uma mancha de sangue em sua camisa rasgada na altura do quadril.
        Levantei a camisa que outrora fora branca e a pele ao redor de um pequeno ferimento estava ficando com ramificações vermelhas. Ele tinha sido envenenado, mas como?
         “Espera! O que eu estou fazendo? Por que estou tão ansioso?” pensei ainda segurando o tecido da camisa entre os dedos. Era a oportunidade perfeita para escapar, então por quê? Por que eu estava mais preocupado com Kyle do que em fugir?
       Sacudi a cabeça, tentando não pensar muito no assunto e me forcei a focar na que tinha que fazer no momento.

       Peguei uma das diversas facas que ele trazia em seu sobretudo e cortei perpendicular ao corte que já havia, formando quase um X. Me abaixei e comecei a sugar o veneno com a boca e cuspir. Fiz isso repetidas vezes, de novo, de novo e de novo, mas parecia não surtir efeito.
           Minhas mãos tremiam e minha garganta doía com vontade de chorar quando percebi que não havia mais como tirar do veneno e me rendi a enxugar a boca com as costas da mão e fazer uma bandagem improvisada com um pedaço que rasguei de sua camisa. Em seguida, caí cansado a seu lado. Meus músculos pediam por descanso, minha mente principalmente. Não sabia como Kyle tinha quebrado o encanto da sereia dele ou o meu, mas se ele tivesse demorado um pouco mais, talvez eu não estivesse aqui e agora a situação estava invertida e ele que poderia partir.
        Virei de lado e levei meus dedos aos fios ruivos espalhados no cantinho de seu rosto e ousei retirar seu tapa-olho. Ele tinha um semblante sereno ao contrário do que lhe era usual, embora a expressão de dor ainda permanecesse.
Por um minuto pensei ter visto a cor de seu rosto começar a retornar e mais cedo posso ter pensado que ele e Thomas eram semelhantes, mas era engano meu. Os dois eram muito diferentes, não tinha como comparar para início de conversa e… depois do que aconteceu com a equipe enviada para me resgatar, talvez pensassem que eu estava morto…

        Fiquei feliz de saber que Thomas estava me procurando, mas depois da sereia me mostrar o que estava no fundo do meu coração, de alguma forma soube que não podia voltar ao palácio, não era mais o meu lugar, mas ainda não queria acreditar de todo nisso.
         Não sabia quanto tempo duraria até que o meu resgate descobrisse que eu não estava morto e que conseguira sair com vida do Túmulo da Sereia, mas… Que sentimento era esse que me tomava? Tinha medo, porém queria conhecer mais desse homem que me tirava a paz e o chão dos pés, queria que ele me reconhecesse, contudo… tinha receio do que viria de agora em diante… não queria que ele morresse, não se isso significasse me ver sozinho de novo.
        Enquanto divagava em pensamentos, acabei por adormecer contra minha vontade aconchegado no ombro de Kyle.
         A partir daqui, tudo o que eu fui ou pretendia ser em meus vinte e cinco anos, sim, tudo ficaria guardado nesse meu pequeno túmulo de sonhos junto às sereias.


23 comentários:

  1. Este capitulo era o que estava precisando nem que tenha sido a unica vez mas deu para mostrar o amor um pelo outro *-*
    Nossa...o impossivel se torna possivel :p

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  2. Não sei bem se é amor, a princípio... Tem ares de uma paixão avassaladora *-* (quase tão bom quanto amor)
    Mas, eu acho que ainda tem muito para acontecer em Sight of Sea.

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  3. Eu também acho que tem muito para acontecer, a história ainda está muito conturbada até chegar a uma parte calma acho que vai demorar

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  4. Fico me perguntando se a estória chegará a ter uma parte calma... O Kyle é muito intenso e é um personagem bem profundo.
    Hum... E sobre o seu especial? Nossa! Aquilo foi um sonho dentro de outro sonho do Shuji?... Ou é uma realidade alternativa criada pela autora? A minha principal certeza é que o Tadashi cairia de amores pelo Shuji em qualquer época ou período da história. ^^"

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    1. Outra coisa... Notou que nesse capítulo da Kisu o William fica o tempo todo fazendo comparações entre o Thomas e o Kyle?...Parece que está um pouco dividido...

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    2. Ah sim eu reparei isso.... mas eu acabei associando talvez á saudade, da vida boa que levava no castelo

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    3. Talvez seja um pouco de cada... Mas, acho que a pessoa para o William seria mesmo o Kyle. (A Mel puxa sardinha para o lado do Kyle, hehe... Ai do William se discordar!)

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    4. Eu também puxo para o lado do Kyle

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  5. É mesmo, o próprio não gostaria de calmarias

    Uma realidade alternativa, ai isso é mesmo não importa em que era se passa a história o Tadashi sempre morrerá de amores pelo Shuji, ainda que ele seja um tanto tarado

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  6. Verdade, tudo com o Kyle é muito truculento.

    Entendi! E imagino que é na segunda parte que o mestre vai tirar a virgindade do servo XD

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  7. Rsrsrsr ainda assim acho um personagem bem cativante, talvez por ter segredos que eu gostava de saber

    É isso tudo, depois disso a relação deles vai mudar com toda a certeza

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  8. A Kisu vai escrever um especial sobre o passado do Kyle.

    Em que época que se passa essa realidade alternativa no seu especial?

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  9. Eba mas que fixe! Vou ficar esperando!

    Era Meiji porque eu gosto de imaginar oShuji de Yukata :3

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    1. Eu sou mais que suspeita em falar, sabe que sou fascinada pela era Meiji.

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    2. Não é que eu vá aprofundar muito, mas gosto desse tempo...

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    3. O Shuji parece um filho de senhor feudal, rsrsrs... Se bem que não sei a idade dele no especial, se for mais velho, talvez eu o imagine com um ex-samurai (período após a queda do Shogun e a retomada do imperador ao poder).

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    4. tem a mesma idade, foi isso que eu imaginei filho de um senhor feudal, que depois tem que herdar os cargos do pai
      Não era mal pensado ser ex-samurai.... mas não lembrei dessa :p

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  10. Verdade li seu capitulo, o Kitsune está mesmo confuso, acho que conversar com o Hanae lhe vai fazer bem, talvez aliviar a confusão que vai sua cabeça

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  11. O Hanae lhe passa uma boa impressão?
    Kitsune precisava conversar com uma pessoa madura que não estivesse diretamente ligado aos seus problemas ou sua vida... Foi uma busca inconsciente a priore... Só quando ele olhou nos olhos de Hanae é que ele se deu conta que tinha se deslocado de Hajiketa por causa dele.

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  12. Passa sim uma boa impressão sim
    Eu sei que é isso é preciso sim ouvir uma pessoa mais madura muitas vezes, mas que seja meiga e compreensiva, por isso que eu gosto da Mel <3

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  13. Uma pena o Kanda não ter podido ser criado pelo tio, acho que ele seria uma pessoa muito menos atormentada.

    Ah, muito gentil... Mas, vamos combinar que uma aprende com a outra. ^^"

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  14. É também acho, não que sabia muito sobre o Hanae mas passa-me a figura de um homem bom como já disse

    Não sei se tem muito a aprender comigo
    Olha vou ter de sair.... Amanhã vou ás compras com minha mana, preciso de um vestido para um casamento, o que estava pensando levar fica-me apertado -.-" ( mais facil comprar outro que fazer dieta :p)
    Beijinhos e até amanhã

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  15. Depois os leitores vão descobrir um pouco mais sobre este ex-monge de aspecto sereno. ^^"

    Tenho sim... Com certeza.
    Com certeza, fazer dieta é muito chato :P
    É sempre bom comprar roupa nova \o
    Até amanhã, Rima!
    Boas compras para você.

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