28.7.15

Enseada das Gaivotas Capítulo 20 por Mel Kiryu

     

                                                                                                          Capítulo 20
                                                                                        Cedo demais para te amar, mas     
                                                                                               não tão cedo para sofrer
         
              Estava demorando mais do que esperava.
             Olhou mais uma vez de soslaio para o carro vermelho sobre o alpendre, a chuva parecia diminuir ainda que seu som se fizesse extremamente audível no silêncio matinal.
       No instante que Kaji considerou ir embora e deixar o jornal sobre o capacho, ouviu o som da chave destrancando a porta.
    Seu coração pareceu parar sob a inércia do momento e foi então que viu o rosto de June se insinuar timidamente pela fresta, viu de imediato que ele vestia apenas o camisão azul claro tal como no dia em que se conheceram.

     Em contrapartida ao segundo anterior, recebeu uma descarga no peito quando viu os olhos de June emoldurados no rosto onde faltava o sorriso lívido que ele costumava lhe oferecer.
__Kaji...__ A voz de June soou baixinha, num breve assombro.
__Você não cancelou sua assinatura, então...
    Deu suave os ombros e seu sorriso era tímido como o olhar de June.
    Os dois se olharam calados e a porta continuou aberta apenas por uma fresta, contudo Kaji fitava June com imensa ternura sem entender de todo o receio incomum que pairava em todo seu corpo miúdo, até mesmo nas pernas bonitas escapando nuas pelo camisão.

     Seus lábios iam se entreabrindo numa fresta como a porta porque queria desesperadamente fazer parte da vida daquele rapaz, quando um homem surgiu atrás de June.
      Era mais velho, uns trinta e cinco anos talvez. Bem apessoado, vestia uma camisa branca social abotoada de um modo descuidado, as mangas dobradas no meio dos braços. Os óculos de aros finos não estavam no rosto, mas sobre o cabelo charmoso e havia o olhar.
       Ah... O olhar.
       O olhar era a parte do homem que mais metia medo em Kaji, o fazia estremecer por dentro.
        Não era apenas afiado e frio, era denso e enigmático. Pouco se conseguia ler na íris sobre o dono daquele olhar.
     E esse olhar que o assustava o olhou de cima a baixo com certa reserva, o rosto impassível.
__Não vai me apresentar seu amigo, Ishizaki-kun?
__É só o entregador de jornais... Meguri-dono.
    A goela de June estava seca, sua voz saiu sem vida.
__Mas, você o chamou pelo primeiro nome.__ Meguri observou.__ Por acaso, é esse rapaz seu novo brinquedinho? Acho que não foi claro ao avisar que já tinha se cansado dele.
__Meguri-dono! Por favor...
    June baixou o olhar e sua voz escapou em tom de censura, não podia encarar Kaji que teve seu sorriso e suas expectativas pisoteadas, destruídas, completamente esmagadas como uma insignificante guimba agonizante de cigarro.
__Eu...__ Kaji disse de súbito, desnorteado.__ Eu só vim entregar o jornal.
    Soltou o jornal enrolado na embalagem úmida na mão de June e de imediato deu as costas. Enfiou as mãos nos bolsos e não olhou para trás.
    Antes de fechar a porta, June tornou a erguer seu olhar, viu Kaji saindo às pressas por seu portão debaixo daquela chuva fina.

     Nunca tinha sentido dor assim ao observar alguém abandonar seu quintal, o portão bateu por causa da força do vento.
    A mão de Meguri exerceu uma leve pressão em seu ombro e tendo os dedos trêmulos June fechou a porta ao passo que em sua outra mão segurava o jornal deixado por Kaji.
    Os dedos, a palma que segurava o jornal era como uma carícia, um pedido de desculpas que Kaji nem de longe podia sentir.
                                                                *********
            Antes de deixar a Enseada das Gaivotas, conseguiu pegar um ônibus até o centro.
        Um dos primeiros ônibus que circulavam nas imediações naquela manhã de segunda.
        Não havia muitos passageiros, a maioria dos bancos estavam desocupados e Kaji olhava vago pela janela respingada, algo mortificado por dentro.
     O caminho percorrido pelo ônibus pareceu imensamente longo, ou era seu tempo psicológico que se arrastava. Ao tocar no vidro da janela ao lado de seu acento, achou que seus dedos estavam mais frios que o próprio vidro respingado de chuva.

    Naquela altura da manhã, sua mente triste estava entorpecida pelo cansaço das horas de trabalho e não poderia ficar mais aliviado quando enfim chegou em cada e encontrou apenas a tia Raine.
    Ouviu ela comentar com sua voz pequena e discreta que Hei tinha saído um pouco antes do amanhecer para pescar com Kageyama.
    Comeu três omusubi sozinho na cozinha, tomou um pouco de chá de sencha e foi direto para o quarto que dividia com Hei, mas que agora estava convenientemente vazio.
     Não ignorava que precisava de um banho, contudo Kaji apenas arrancou a roupa de seu corpo e jogou num canto do chão, até mesmo a roupa debaixo. Nem pensou muito e vestiu uma camisa de Hei que encontrou jogada sobre a cama, uma calça de moletinho sua que tinha deixado dobrada em cima do futon e desabou sobre ele, seu corpo de bruços, seus braços apertando forte o travesseiro enquanto afundava ali seu rosto franzido.
       Sem lágrimas.
       Não se permitia chorar, dizia a si mesmo que tinha chorado sua cota por June na  madrugada de sábado para domingo.
      Todavia, não destilar sua amargura apenas agravava o que sentia e apertava os olhos tendo seu corpo exausto, suas juntas doloridas, as solas de seus pés beirando a dormência... Sem conseguir dormir do jeito que queria.

      Estar acordado, remoendo sozinho a frustração pungente que o consumia era seu real pesadelo quando tudo que queria era dormir para poder esquecer.

3 comentários:

  1. Bom dia Mel ^^"
    A desaparecida voltou :p
    Fiquei suspirando pelo Kaji.... eu imaginei logo que aquele carro não fosse do June.... mas aquele homem foi um pouco frio ao trata-lo como se fosse um brinquedo do June.... talvez no fundo tivesse sido mesmo.
    E no fundo ainda fiquei curiosa sobre esse misterioso homem

    ResponderExcluir
  2. Bom dia Mel ^^"
    A desaparecida voltou :p
    Fiquei suspirando pelo Kaji.... eu imaginei logo que aquele carro não fosse do June.... mas aquele homem foi um pouco frio ao trata-lo como se fosse um brinquedo do June.... talvez no fundo tivesse sido mesmo.
    E no fundo ainda fiquei curiosa sobre esse misterioso homem

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  3. Oi, Rima! Boa noite.
    Hoje fiquei meio ocupada, não estava em casa de de manhã, saí para resolver algumas pendências nos Correios e também fui comprar um presente para o meu pai que faz aniversário na sexta-feira.

    Isso de fato foi um 'banho de água fria' nas esperanças do Kaji... Talvez, quem sabe agora ele decida tentar esquecer o June, porque passar por isso na porta do June foi humilhação demais.
    Vai saber um pouquinho mais sobre o Meguri, embora nessa primeira parte, não explorei todo potencial do personagem.

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