3.7.15

Mel Caramelo e Chocolate Capítulo 59 por Mel Kiryu


Capítulo 59 Perder-se também é caminho*

    Como um homem que vivia sozinho num  bangalô no meio do nada, cercado por um tempo budista, plantações distantes de algodão e uma cabana em ruínas podia entender de amor?

      Era um pensamento estúpido e vago, não sabia quase nada a respeito de Hanae.
    Nada além do fato de que ele era irmão da mãe biológica de Kanda, que era ele quem cuidava dela, que sofria de esquizofrenia.

      Hanae era a pessoa que tinha resgatado Kanda da cabana quando não parecia haver ninguém mais por ele e apesar de ser um ex-monge fora designado a guardião das terras do templo.
    E claro, Kitsune sabia que ele era bem mais velho e que provavelmente por isso, sentia certa atração por ele.
   Depois de conversar com Hanae tinha tomado sua decisão quanto a Kanda e Datenshi.
    Sobre permanecer ou não em Hajiketa.
    Mas, quando depois de um tempo meditando sobre sua vida, entrou no bangalô e deparou-se com Hanae... Percebeu que as únicas dúvidas que tinham restado eram sobre o próprio Hanae.
   Por isso, Kitsune adentrou no bangalô um tanto tímido, tentando arrumar coragem para desvendar esse fascínio que sentia.
__Conseguiu se decidir, Kitsune?
__Creio que sim... Foi melhor do que pensei que seria ter essa conversa com você, mas...
__Mas?...
__ Eu não entendo... Até vir passar essas férias, eu não conseguia me interessar pelas pessoas... Nenhuma tinha um significado profundo para mim... Nenhuma.
__O que devia ser muito triste.
__Eu não sabia que era triste até eu me apaixonar e ter o sentimento correspondido... Só que... Tirando três pessoas... Não consigo me interessar e nem me relacionar com profundidade com mais ninguém... Por que eu sou assim, Hanae?
     Depois de fazer essa pergunta tão cheia de desencanto, sentiu-se tolo por exigir a resposta de quem o mal conhecia.
__Eu não sei, Kitsune... Acredito que a resposta para isso esteja dentro de você.__ Hanae disse pensativo, realmente se esforçando em entender.__ Quem são essas três pessoas?
__Kanda, Datenshi... E você.
    A expressão de Hanae não mudou, mas sua voz soou intrigada:
__Eu?
      Kitsune se aproximou dizendo a si mesmo que era melhor ir, seguir seu caminho... Quando uma parte sua queria ficar e olhar nos olhos cor-de-mel de Hanae.
__Nem com meus pais eu consigo dizer o que penso... Acabo escondendo tudo que eu sinto da minha avó... Fico distante do resto das pessoas... Mas, mesmo que eu tenha vergonha... Com você sinto como se estivesse conversando de igual para igual.
__Foi por isso que tentou me beijar na varanda?
    E Hanae perguntou naturalmente como se ainda estivesse tentando entender e decifrar cada palavra e gesto de Kitsune.
__É sobre isso...__ Kitsune tinha a voz a falhar, havia uma vergonha contraditória nas suas palavras despudoradas.__ Quando penso nisso... Ainda quero te beijar.
__Mas, você é namorado do meu sobrinho...__ Hanae virou seu corpo de lado, sua mão tocou o tampo da mesa de madeira sem verniz.__ Além do fato que nunca me relacionei dessa forma com alguém do mesmo sexo.
__Eu sei... Lembro que disse que olhou com desaprovação minha relação com Kanda... Eu só queria entender... Por que você desperta esse tipo de coisa em mim... Só isso.
    E Kitsune tinha os dedos trêmulos quando colocou sua mão sobre a de Hanae que estava sobre a mesa.
__Eu devo ter idade para ser seu pai...__ Hanae argumentou fitando Kitsune, quando era justo o seu olhar que o seduzia sem querer.__ E você não passa de um garoto confuso.
__Pode ser... Quando enfim eu consigo arrumar um lado da minha confusão, acabo bagunçando ainda mais o outro lado... Se me beijar... Logo depois vou embora, não atormento mais você...
__O que você quer provar com isso, Kitsune?
__Seus lábios... É isso o que eu quero provar.
    A voz de Kitsune ecoou baixa, verdadeira e despretensiosa e essa simplicidade em seus gestos não poderia ser mais atrativa. Muito embora, esse ímpeto, essa suposta coragem estava a bem dizer por um triz, bastava um gesto, uma palavra mais brusca e dura de Hanae para Kitsune fugir dali.
     Sua sinceridade era frágil e medrosa e a pouca ousadia que tinha, tinha aprendido com Datenshi.
__Isso soa muito leviano... Dá a nítida impressão que se deslocou até aqui unicamente para tentar me seduzir.
     Sem desfazer o contato visual, Kitsune se colocou de frente a Hanae, quase desistindo. Tremia tanto em seu íntimo, sem ter certeza dos próprios propósitos.
__Não foi isso...__ Kitsune replicou em tom cavo oscilando de leve sobre os próprios pés.__ É que eu confio em você...__ E deu os ombros tendo um olhar que contudo era inocente.__... E gosto dos seus olhos.
    Engoliu quase à seco, sua mão esbarrou suave na mão de Hanae e depois seus rostos como se fossem pêndulos indecisos que contudo se atraíam como se fossem imantados. Como em sua imaginação o beijo havia sido unilateral, Kitsune se colocou nas pontas dos tênis que calçava e entalhou seus lábios contra os dele tão nervoso com as possibilidades que perdeu por um instante o equilíbrio por ficar na ponta dos pés e somente quando os braços de Hanae foram seu amparo é que o gesto se aprofundou entre as duas bocas tremulantes pela expectativa.
      No instante em que os lábios de Hanae se abriram macios para os seus, segurou mais uma vez no tecido do kimono que ele trajava e as mãos dele vieram numa carícia subindo por seu pescoço tal como suas línguas também trocavam carinhos... Fazendo o beijo perdurar, se estender necessariamente.
     Naquele verão já havia se perdido e também se encontrado em inúmeros beijos, todavia sua pobre imaginação nunca pensara que se perderia indo tão longe, tão intensamente na boca ousada e quente de Hanae...
   

Nota da autora: *citação de Clarice Lispector

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