26.7.15

Mel Caramelo e Chocolate Capítulo 63 por Mel Kiryu


Capítulo 63 Não importa o abrigo, se carrego o inferno dentro de mim

     No meio do caminho a chuva desabou sobre o ônibus que percorria a estrada em seu retorno a Hajiketa.
   Podia-se ver os clarões cortando a paisagem, os rugidos dos trovões chegando pouco depois.
   Boa parte daquelas pessoas ocupando seus assentos não esperavam que aquela chuva torrencial desabasse em seus caminhos.
    As crianças estavam com medo do troar, até Kitsune acabou se agarrando ao braço de Datenshi. Não que tivesse se aproveitado do momento e feito de caso pensado, Kitsune tinha medo do som de tempestades e cada vez que via a claridade furtiva pela janela do ônibus escondia seu rosto contra o ombro e o braço de Datenshi apenas em imaginar que o som da trovoada viria logo depois.
          Mal Kitsune podia prever que esse era o menor dos percalços a ser contornado, por mais evidente que fosse essa realidade.
                                                        *********


                  Vilarejo de Hajiketa

        Não podia ouvir o temporal, não encontrava o sentido em usar a própria voz e seu coração era um antro de segredos para a maioria esmagadora das pessoas que o rodeavam.
    Kanda era assim, tinha o péssimo costume de guardar tudo dentro de si.
   Por isso, não conseguia estabelecer um diálogo decente com sua mãe.
    Nunca tivera uma boa relação com ela na verdade.
    Pensando bem, não conseguia nem dizer tudo que sentia para Datenshi, por mais que o amasse e confiasse nele.
    Devia ser por essa razão que costumava sentir-se só.
    E agora não queria ser privado da companhia de Kitsune, não suportava a ideia de voltar à Capital apenas com sua mãe, onde se sentia nos limites extremos da própria solidão.

    Não tinha superado nem de longe o vazio deixado por seu falecido pai, apenas em conceber em mente a situação um vazio frio ainda maior se apossava de seu espírito e sentia uma angústia sufocante como se as paredes a sua volta não parassem de se aproximar, de se fechar.
     Quando Kanda estava verdadeiramente encurralado em sua própria mente.
    Não suportava mais ficar sozinho no quarto, pegou sua flauta de bambu, destrancou a porta do quarto. Pretendia se refugiar na estufa de cactus feita por Datenshi, mas quando topou com sua mãe em um dos cômodos da casa a discussão de poucas horas atrás reacendeu.
   Cruzou com Mika no corredor, que segurou em seu braço e fez com que a olhasse nos olhos e lesse seus lábios.
__Espero que tenha refletido, Kanda.
    Mas, Kanda apenas devolveu os olhares... Afinal, o que tinha para refletir? Não tinha qualquer dúvida sobre seus sentimentos, ficar isolado no quarto tinha acrescentado a sua vida alguma horas a mais de solitude inalcançada.
    E era frustrante para Mika somente receber em resposta os olhares distantes, o silêncio involuntário, vislumbrar naquele segundo as feições sérias e tristonhas talhadas na face daquele rapaz que tinha se empenhado por anos a criar como filho.
    Kanda deu um puxão soltando o próprio braço, prendeu a flauta no cós da calça  que vestia e gestualizou simplesmente:
     "Não havia nada a ser refletido."

      O que prontamente atiçou a irritação de Mika que cerrou o olhar severo sobre seu filho.
__Você sem dúvida é muito jovem para perceber o erro que está cometendo, Kanda!... Kitsune não é a pessoa certa para você!
     A resposta que lhe veio em mente foi: "Você não quer saber do que eu sinto, tudo que importa é não abrir mão da sua estúpida razão!"
    Contudo, suas mãos se moveram e gesticularam aflitivas:

      "Sinto falta do meu pai..."

     O próprio Kanda não entendia porque tinha gestualizado essa mensagem, porque embora fosse verdade, seu pai possivelmente o proibiria de se envolver com Kitsune por ciúme ainda que pudesse compreender o fato de que estava fatalmente apaixonado por outro garoto.
        Em todo caso, Mika recebeu a mensagem gestual de Kanda como um golpe brutal.
    Por mais que se esforçasse, era impossível alcançar Kanda e conquistar seu afeto tal como Hicaru  havia conseguido.
    Mika somente ignorava a que preço, jamais soubera dos abusos cometidos por seu marido.
   Percebeu que Kanda tinha intenção de se retirar não somente do cômodo e depressa Mika gestualizou:
 
        "Aonde você vai? Está chovendo rios lá fora."

        Em resposta tão somente:

      "Para que se preocupar? Você nem minha mãe de verdade é..."

       E Kanda deu as costas ignorando por completo sua mãe que tentou pará-lo, fazê-lo compreender que estava proibido de sair sem qualquer sucesso, por fim Mika gritou ainda que ele não pudesse ouví-la, mas nada o impediu de sair da casa, cruzar o quintal e sair pelo portão.
      Ela correu até o meio do quintal quase chorando de raiva, tinha genuína vontade de agarrar seu filho pelos cabelos, deitá-lo sobre suas pernas e dar-lhe palmadas como nunca na vida!
     O que não passou de um devaneio enquanto se ensopava no meio daquele quintal, o vento frio que soprava ruidoso tornando tudo pior.
     Contudo, não restou outra alternativa a Mika a não ser observar Kanda caminhar entre as poças, debaixo do temporal sob os clarões furiosos que cortavam o céu...
       

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