31.7.15

Mel Caramelo e Chocolate Capítulo 64 por Mel Kiryu


Capítulo 64 Rain Like Tears

       Sentia todas aquelas inúmeras gotículas irem de encontro seu rosto, seu corpo, encharcando suas roupas e seu cabelo, era frio e aquele contato das gotas caindo no ritmo rigoroso da tempestade tornavam sua travessia mais demorada, seus pés se atolavam na terra ensopada.
    Kanda lembrava vagamente do som da chuva.

    E naquele momento odiava a chuva, odiava tudo ao seu redor, odiava principalmente a si mesmo.
    Também sentia o vento impulsionando a chuva torrencial, não tinha boas recordações do som do vento, porque lhe trazia a lembrança das tantas ocasiões em que ficara sozinho trancado na cabana e o som do vento uivando trazia o medo incompreensível que assombrava um garotinho de quatro anos.
     Suas lembranças mais vívidas e antigas eram de seus três anos até o auge de sua tragédia cerca de um ano depois.
    Enquanto caminhou açoitado pela tempestade seu coração bateu guiado pela reprise de antigos medos, somente sentiu o menor dos sossegos quando se abrigou dentro do moinho de vento desativado que usava como esconderijo.
     Não era a mesma sensação de estar isolado dentro da cabana, onde não tinha qualquer escolha. Aquele moinho era uma pequena parte de sua vida porque era o lugar que tinha escolhido, que considerava somente seu.

    A água da chuva escorria de seu corpo formando poças onde quer que parasse, até que sentou-se num canto sujo, ainda vendo os clarões por uma fresta nas paredes que ruíam lentamente.
    Puxou sua flauta antes presa no cós de sua calça e soprou sentindo que havia água dentro dela, persistiu soprando, fazendo a água sair até sentir as vibrações das notas soarem, embora não tivesse audição para percebê-las.
    Não tinha certeza se a música soava como deveria, mas precisava se esvaziar de tudo aquilo que sentia.
    E bem que podia perceber sua tristeza difusa escapando pelas notas, pouco a pouco esvaziando seu peito do peso esmagador do amargoso hábito de ficar confinado no diminuto mundo que ele mesmo tinha criado na ânsia de escapar do orbe caótico e distorcido de sua falecida mãe.
               Enquanto tocava a flauta tentava não pensar em nada.

     Sua música se fundia com o som do temporal, ao passo que não tão mais distante, debaixo daquela tarde que já havia se findado e se tornava noite, Datenshi pedalava em sua bicicleta esguichando feito um louco sobre as poças, quase derrapando as rodas na lama.
    Com todos os seus sentidos pulsando tremendamente vívidos, com seus coração rugindo mais alto que o troar.
     Datenshi soube que estava no caminho certo quando ouviu o som da flauta de bambu, ninguém mais tocava aquele instrumento como Kanda em todo vilarejo de Hajiketa.
    Encostou a bicicleta numa antiga cerca de madeira que outrora servira para delimitar um pasto e  caminhando até o moinho, seu íntimo se agitou quando a música cessou e apenas persistiu o som da chuva torrencial.
    Dentro do moinho, Kanda deixou a flauta caída no chão ao lado de seu corpo e envolveu seus joelhos trêmulos num abraço solitário, parte de sua tristeza e notória confusão haviam se dissipado, mas... Ainda se sentia desamparado.

     Do lado de fora Datenshi correu entre as poças, não importava o quanto estivesse ensopado possivelmente até a alma, seu íntimo se consumia e ardia no ímpeto e somente se aquietou por um instante quando entrou no moinho e encontrou Kanda imóvel e encolhido, inclinado sobre os joelhos como se tentasse abrigar precariamente em si mesmo.
    Um clarão violento adentrou o interior do moinho, o som do troar foi estrondoso e nesse momento a mão de Datenshi afagou o cabelo de seu irmão.
     Kanda ergueu devagarinho o rosto e seus olhares se encontraram.

        "Me perdoe por ter te deixado sozinho."__ Datenshi  gestualizou logo que os olhos de Kanda pousaram docemente nele.

       "Tudo bem..."__ As mãos de Kanda gesticularam a resposta.__ "Eu precisava ficar só..."

      Podia ser verdade, mas de súbito Kanda abraçou apertado Datenshi pelos ombros, quase o derrubou e fê-lo cair de joelhos, tornando o abraço recíproco. Sentindo Kanda esfregar de leve o rosto em seu ombro como se precisasse enxugar lágrimas imaginárias.
    E numa carícia amiga na lateral do rosto de Kanda, voltou a fitá-lo e entregou-lhe um selinho nos lábios frios.
__Vamos para casa, Kanda...__ Datenshi sussurrou com carinho incomensurável tendo os olhos de Kanda acompanhando seus lábios.

      "E Kitsune?"__ Kanda perguntou num gesto rápido, quando na verdade queria saber porque ele também não tinha vindo.

       "Kitsune espera por você, mano."__ E logo depois de gestualizar sorrindo, Datenshi se ergueu e estendeu a mão para seu irmão num gesto infinitamente cúmplice.

         Por mais que soubesse que nada era tão simples, Kanda esboçou um insignificante sorriso e se ergueu com a ajuda de Datenshi sentindo as juntas de seu corpo um tanto endurecidas e abandonaram juntos o antigo moinho, deixando sem querer a flauta de bambu abandonada no chão...
     

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