4.8.15

Kind of Blues – Episódio 3 Parte 3 por Mel Kiryu


Kind of Blues – Episódio 3

Parte 3

     De um instante para o outro Satomi saiu aparentemente de seu estado de desolação e mandou que eu ficasse sentado na beira da cama com as mãos paradas para não borrar o esmalte fresco nas unhas.
   Ele se ajeitou de barriga para baixo no meio da cama, as pernas para cima enquanto copiava a matéria que tinha perdido na escola de um de meus cadernos.

    Era estranho, tudo que nós dois fazíamos parecia um trato, era sempre algo em troca de outra coisa. De outro modo, eu não tinha como chegar em Satomi, entrar no mundo dele e ser aceito.
    Não costumava ser assim quando éramos crianças, vivíamos um pelo outro o tempo todo... E pensando bem, ter que me separar de Satomi foi uma dor que deixei guardada, enterrei por um tempo e me dediquei tanto aos estudos que quase esqueci de sentir falta dele.
    E agora, ainda que estivéssemos juntos na antiga cama de Satomi, eu sentia falta dele como nunca.
                                                                 **********
                    Tive que pedir um camisa de manga comprida emprestada de Satomi, eu precisava de um artifício para esconder as minhas mãos e as mangas serviam bem para ocultar as minhas unhas pintadas.
   Levei apenas um caderno de volta para casa, os outros dois deixei com Satomi para que ele terminasse de copiar a matéria perdida.
    Naquela tarde de segunda-feira fiquei aliviado porque deixei um Satomi bem mais calmo de seus demônios dentro daquele quarto.
    Eu prometi que durante o período a suspensão e do castigo eu levaria a matéria dada na escola e passaríamos parte da tarde juntos.
    O mais importante é que eu precisava equilibrar minhas ações.
    Fazer todo possível para ser aceito no mundo sem regras de Satomi ao mesmo tempo que precisava me encaixar na perspectiva dos demais que esperavam que eu continuasse sendo um aluno e filho exemplar.

    Não foi tão fácil passar pela minha mãe quanto pensei.
    Ela estava na calçada de pedras que formava o caminho que cortava o quintal até a entrada da casa, estava varrendo.
    Escondi uma mão dentro da manga da camisa xadrez clara (a única camisa em tonalidade clara que Satomi tinha no closet), a outra enfiei dentro do meu bolso da calça, eu segurava o caderno contra meu corpo tentando parecer o mais natural possível.
   Conhecendo minha mãe, já sabia que vinha um inquérito.
__Até que enfim, hein Hitaki? Saiu tão na miúda que não faço ideia onde se meteu... Posso saber onde foi e que camisa é essa, aliás?...
       O-oh... Inquérito era pouco. Minha mãe segurava a vassoura ao lado de seu corpo e a outra mão bem apoiou nas ancas a me encarar.
   Em vez de tentar contar uma mentira mirabolante, decidi usar de alguma meia verdade ao meu favor.
__Antes de mais nada, mãe... Pode ouvir o que tenho a dizer sem me interromper ou me impor algum castigo impensado?
__Ai, ai... Isso vai ser difícil! Mas... Que seja... Podemos tentar.
__Estou ajudando Satomi... Ele está tendo dificuldades com a escola, fui levar a matéria de hoje para revisarmos juntos.
    A expressão da minha mãe era de desgosto mesclado a desconfiança, ela se empertigou ainda mais segurando aquela vassoura.
__O que eu falei sobre andar com Satomi? Hitaki!...
    Eu sei o quanto ela estava se segurando para me dar uma bronca...
__Eu pedi ao pai dele...__ Eu repliquei.__ Se ele deixou, por que a senhora vai se opor? A senhora acha que não sou maduro o suficiente? O pai e você me ensinaram bem a discernir o certo e o errado.
__Hitaki... Aquela família sempre foi uma bagunça...__ Ela parecia estar escolhendo cuidadosamente as palavras.__ Sei que quando vocês eram crianças, não se largavam... E claro que eu não ia privar aquele garotinho de ter você como amigo, deve ter sido complicado para a cabeça de Satomi ter um pai bêbado se separando da mãe... Ficar aos cuidados desse pai e de repente, do nada ser levado embora pela mãe... E olha o que aconteceu, Hitaki! Depois de tudo, Satomi voltou pior do que nunca... Não pode se iludir pensando que tem de volta o mesmo amigo de infância!
__A senhora acha correto dar as costas para alguém só porque esse alguém é diferente?
    Minha mãe crispou insatisfeita os lábios, a vassoura em sua mão estremeceu por um milésimo de segundo.
__Não vou mentir, Hitaki.__ Ela disse infinitamente mais séria.__ Não me agrada nem um pouco ver você em companhia daquele rapaz de índole duvidosa. Sei muito bem que tem agido de forma estranha por causa dele... Se o seu rendimento escolar cair, não vou ser mais flexível com você no que diz respeito ao Satomi... Entendido, Hitaki?
__Será que posso entrar em casa agora?
    Minhas mãos começavam a suar e coçar e não era apenas por uma questão de calor, eu estava inquieto porque queria ajeitar o óculos em meu rosto, mas nem pensar que eu podia deixar minha mãe ver minhas unhas pintadas!
     Meu discurso perderia toda coerência.
__Espera aí, mocinho... E essa camisa que está vestindo?
__Satomi me emprestou... Amigos fazem esse tipo de coisa, a senhora tem amigos... Não é?
    Sorri só para provocar a minha mãe, a ironia escapou na minha voz mais do que deveria.
    E minha mãe me fuzilou com o olhar, pensei mesmo que ela meteria a vassoura em mim.
    Tratei de entrar em casa e deixei o caderno no meu quarto.

     Mais uma vez me refugiei no banho, local onde eu estava a salvo e não havia modo de ser surpreendido por minha mãe, nem por ninguém.
     Foi debaixo do chuveiro que parei para observar minhas unhas, o que me fazia pensar compulsivamente em Satomi.
     Até a aparente rebeldia dele tinha um significado profundo, quem poderia dizer que alguém carregaria o luto nas unhas?
     Satomi carregava.
     Não era somente uma evidente provocação à sociedade em que Satomi se sentia deslocado.
      Eu encarava minhas unhas negras batizadas pelas gotículas mornas, elas não mudavam em nada a pessoa que eu era.
      Apenas acrescentavam a minha existência um significado secreto.
      Contudo, seu eu fosse visto com as unhas pintadas, seria julgado num piscar de olhos  e da pior maneira.
      Estão todos errados.
      Todos sem exceção, inclusive eu.
      Mas, é difícil se manter sincero num mundo assim.
      Sinto que Satomi tenta ser desesperadamente sincero e a jornada dele nesse mundo não poderia ser mais solitária.
     

11 comentários:

  1. Olá Mel ^^"
    Esse capitulo suou um pouco triste.... acho que nunca a mãe do Hitaki vai aceitar o Satomi nem como amigo, contudo o Hitaki estava conseguindo ir remando bem para os dois lados
    Agora esconder aquelas unhas é quase impossivel

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  2. Oi, amigona.
    É porque realmente pende ao triste, a relação do Hitaki com o Satomi não é normal... Parece uma constante troca de favor e falta verdade entre eles.
    E os pais do Hitaki não vão aceitar mesmo... Nem amigo, que dirá se soubessem da relação amorosa dos dois!

    Hitaki vai dar seu jeito.

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  3. Não acho que assim seja uma relação sincera parece que não tem futuro, apesar que não quero que nenhum sofra....
    Assim o Hitaki vai andar sempre com uma guerra interior....se os pais soubessem punham-no fora de casa

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  4. Indo desse jeito não tem futuro mesmo... A não ser que sobretudo o Satomi mude seu jeito de agir e pensar.
    Nem sei bem se o colocavam para fora (De repente sim!), era bem capaz dos pais do Hitaki colocarem o filho de castigo a vida toda dentro de uma redoma de vidro...

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  5. É é nisso que eu tenho esperança
    Meu Dues! Isos seria demais apensar de tudo o Hitaki tem direito a fazer suas escolhas

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  6. Para esse tipo de mudança, haja sofrimento... Mas, os dois namorados hão de aprender juntos (ou separados).
    Não sei se deu para perceber de todo, mas os pais do Hitaki controlam tudo na vida dele.

    Ah, sobre o seu capítulo... Sempre que tenho lido os capítulos com o Shuji e o Tadashi, tenho a forte impressão que estão levando de fato uma vida de casados. <3

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  7. Se fazem vida juntos tem que aprender juntos
    Querem que ele seja um modelo de filho esse é o pior modelo para se educar um filho

    É mesmo isso que eu quero passar que eles tem vida de casal mesmo :)

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  8. Não se esqueça que o Togashi ainda existe entre eles (Hitaki que é iludido e pensa que não vai ver mais o Togashi)...
    E o Hitaki fica sobrecarregado com o fato de lavar a vida dupla de aparências... Uma hora vai acabar metendo os pés pelas mãos.

    E está se saindo muito bem mesmo nesse aspecto!!

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  9. Eu não esqueci dele eu estava pensando nele ^^" ( acho que é ingenuo mesmo...)
    Ou então se farta e aí vai ser um problema

    Um dia ainda vão ter uma casa dos dois.... essa que estão é muito ao jeito do Tadashi.... não acho que se enquadre muito no Shuji

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  10. Claro... Que ideia a minha, como s Rima iria esquecer o Togashi?
    Ingênuo acho que se enquadra bem ao Hitaki... Ele nem percebe as garotas da escola que suspiram por ele, por exemplo.

    Por que a casa não tem muito o jeito do Shuji? Os dois parecem tão harmoniosos vivendo nessa casa atual.

    Rima, eu vou ter que sair do PC para adiantar uns afazeres na cozinha.
    Não sei se você vai estar por aqui quando eu voltar.
    Então, quero registrar mais uma vez o meu agradecimento pela carta (muito bonita sua letra,tal como me lembrava), pelos desenhos e pelo o anjinho azul.
    Muito obrigada, viu? (Sinto que isso é muito pouco)

    Grande beijo!
    Até mais tarde ou amanhã. =)

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  11. Pois claro rrsrsrsrs

    Estão harmoniosos lá mas tem pouco do Shuji naquelas paredes é algo que não é dos dois

    Ok
    Eu me estava perguntando se conseguiu ler tudo, sei que ia com erros mas preferi mandar mesmo a original
    Não se precisa consumir com algo tão pequeno, se pudesse enviava presente dentro de caixinha embrulhada assim bem grande!
    Eu que agradeço por sempre estar comigo <3

    Beijinhos e até amanhã

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