7.8.15

Kind of Blues – Episódio 3 Parte 4 por Mel Kiryu



Kind of Blues – Episódio 3

Parte 4

      Eu acabei com o removedor de esmalte da minha mãe.
      Não achei algodão e fui derramando pouco a pouco sobre cada unha, borrocando tudo, tentado lavar o excesso de negro borrado na pia.
     Por causa disso demorei mais no banheiro do que devia, mas não saí de lá enquanto não tirei todo esmalte, limpei a pia dos respingos de esmalte negro diluídos com o removedor.

     Enquanto eu esfregava a pia com uma uma bucha vegetal de banho minha mãe bateu forte na porta e questionou o que eu estava fazendo para demorar tanto.
__Já vou sair, mãe!__ Gritei.
__Eu não estou gostando nada disso, Hitaki! Saia logo daí, menino!
    Terminei de me vestir, joguei o removedor na lixeira e joguei por cima um pedaço amassado de papel higiênico. Pendurei a bucha vegetal no lugar e quando abri a porta dei de cara com minha mãe.
     Eu me perguntava: 'Ela não desiste nunca de me vigiar?'
   Contudo, dissimulei a expressão mais despreocupada que pude.
__Ainda está aí, mãe? Fala sério...
__Fale sério você, Hitaki!__ Ela cruzou os braços, a testa crispada.__ O que tanto você fazia trancado nesse banheiro, hein? E nem me enrole dizendo que estava fazendo barba, ainda nem tem pêlo suficiente nessa sua cara sonsa!
__Ah... A senhora quer mesmo saber?
    Eu cocei minha cabeça fingindo ter um ar pensativo, enquanto eu segurava a toalha úmida.
__Fale de uma vez, garoto!
__Isso pode ser embaraçoso, mas...
    E me inclinei na direção da minha mãe, quase sussurrei.
__Estava me masturbando.
    Olhei um ou dois segundos na direção dela.
   Eu tinha conseguido fazê-la se calar, praticamente enrubescer e fiquei surpreso por acabar me divertindo com a situação.
    Deixei minha mãe sozinha e constrangida de fronte a porta do banheiro, cabisbaixa e chocada.
    Somente quando entrei no meu quarto é que soltei uma risada, eu tinha sido tão mal de propósito e mesmo assim... Caí sobre minha cama aos risos e tentei abafar apertando meu rosto no travesseiro no fundo sentindo uma culpa quase fugaz, uma faisquinha de nada em meio ao meu divertimento sórdido.
     Quando consegui parar de rir meu estômago doía, senti o cheiro de Satomi no camisão que era dele e estava no meu corpo.
      Abracei forte o travesseiro pensando em Satomi, sentindo realmente uma vontade louca de  me tocar...
                                                       *******

            Na manhã seguinte, uma terça feira, passei na casa de Satomi antes de ir para a escola.
      Naturalmente foi o pai de Satomi que atendeu e parecia saber que era eu, pois abriu a porta segurando meus dois cadernos.
__Bom dia... Já sabia que eu viria pegar os cadernos?
__Satomi me disse que ia precisar deles.
    A voz do pai de Satomi estava mais rouca e grave do que o costume, mas ele não me entregou os cadernos e entrou em casa.
    Na verdade passou pela porta e a trancou.
__Não se importa se eu pegar o ônibus com você?__ Ele perguntou inquieto, remexendo nos bolsos da calça como se estivesse procurando algo.__ Tenho que comparecer à escola... A Diretora pediu.
__Não... Por mim, tudo bem... Mas, e Satomi?
__O que você acha?__ Ele retrucou ríspido, puxando o maço de cigarros do bolso traseiro.__ Está trancado no quarto e ainda de castigo.
    Não conversamos durante o caminho, ele fumou um cigarro até chegar o ônibus e somente quando tomamos assento é que tornei ouvir sua voz rouca e áspera, não esperava que ele puxasse conversa.
__Você ainda tem medo de mim?
    Eu ocupava o assento que dava para o corredor e o olhei cuidadosamente de lado. Não lembrava de ter demonstrado meu medo abertamente quando era criança, mas mesmo assim ele havia percebido.
__Não, senhor.
    Minha voz soou respeitosa em tom neutro.
__Talvez não saiba...__ Ele prosseguiu espiando pela janela do ônibus.__ Já faz alguns anos que parei de beber, tenho trabalhado como mecânico... Mas, parei em casa nestes dias para vigiar Satomi.
__Perdão... Mas, parece que quando fala de Satomi se refere a uma fera difícil de conter.
    O olhar lançado pelo pai de Satomi pareceu me atravessar, me partir num golpe só em dois.
__É muita ironia. Quando Yasuko levou Satomi embora para protegê-lo do pai bêbado ela não fazia ideia que depois de tudo, só tornaria tudo mais difícil...__ Ele referiu em raso tom de lamento.__ Nem eu esperava que Satomi voltaria para casa pior do que partiu... Mas, parece que quando ele está ao seu lado, é uma pessoa diferente... Melhor.
     Era algo que eu ignorava, ou não o tinha percebido de todo. Estremeci por dentro, mas acho que o pai de Satomi não percebeu.
   Pensando bem, eu também era uma pessoa diferente quando estava em companhia de Satomi e às vezes mesmo distantes, eu sentia o efeito que ele tinha em mim se prorrogar.
    Nós dois de repente nos calamos dentro daquele ônibus, ambos refletindo, olhando para lados opostos.

  Até que o ônibus fez uma de suas paradas, pessoas desceram naquele ponto, outras subiram e a voz de Kazuo, o pai de Satomi tornou a soar.
__Ontem tive uma longa conversa com Satomi... Por um momento achei que ele estivesse zombando de mim, então quero que me responda uma coisa.
    Não gostei daquele tom grave na voz de Kazuo, nossos olhares colidiram e a saliva dentro de minha boca fugiu.
__Ele disse que vocês dois são 'namorados'... Até onde isso é verdade, Hitaki?
    Quem me dera poder fugir como minha saliva.
   Por que Kazuo o tinha que indagar dentro de um ônibus cheio de passageiros? E o mais importante! Por que Satomi tinha que dizer isso justo ao pai dele?
     Naquele instante percebi que ainda tinha medo do pai de Satomi...


5 comentários:

  1. Se o pai de Satomi tiver a oportunidade de falar para os pais de Hitaki.... Vai ser um desastre! Os pais dele parecem ser bem caretas e ainda mais com o Satomi no meio... :///

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    Respostas
    1. Acho que você já deve ter reparado que os pais do Hitaki tem uma meta traçada para a vida do filho.
      Dizer que eles são caretas é pouco, são bem tradicionais.
      O jeito é torcer que o pai do Satomi não se torne outro inimigo, mas sim aliado...

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  2. Oi Mel
    Essa até eu entalava.... pô agora o Hitaki não tem como sair á verdade. Talvez o pai de Satomi até aceite pelo facto do Hitaki fazer bem ao filho dele.... se fosse ao contrário os pais do Hitaki o esfolavam vivo na hora! Sem dar tempo para justificações

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  3. Oi, Rima! Pois sim, dessa vez foi o Satomi que contou! Aí é bem difícil de desmentir, além do que estão num ônibus com certeza sendo observados por terceiros... E o Hitaki percebeu que ainda sente medo do pai do Satomi... Neste caso, é melhor levar a verdade até as últimas consequências.

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  4. Eu fiquei esbabacada com o facto de ele ter contando ao pai!
    om certeza ser observados vai ter que tentar ser ao maximo mais discreto possivel, contar a verdade parece ser mesmo a melhor opção

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