25.8.15

Sight of Sea Capítulo XIV por Kisu


Capítulo XIV - Could Last Forever

       Meu corpo pesava preguiçoso quando despertei. Pela pouca claridade que atravessava as largas janelas notei que devia ser quase noite… o cansaço que se acumulava por dormir mal havia ido embora em questão de horas. Me mexi um pouco ainda deitado sobre a macia pele de leão envolta em almofadas adornadas e só então reparei que estava vestido.
Meu quadril e traseiro doíam e logo meus olhos correram a procurar por Kyle, mas nem sinal dele. Será que ele passava bem?

         Levantei devagar, sentindo a dor irradiar para a lombar e os membros inferiores, contudo, a curiosidade de saber o que estava no baú de Kyle era maior.
O cadeado da tranca estava aberto. Teria o Kyle se descuidado ou ele apenas não fazia questão de fechar?
        Retirei o pequeno acessório de ferro, bem como os livros sobre o baú e o abri com certo esforço. Descobri algumas roupas, um par de botas, saquinhos de moedas e armas conforme ia revirando o interior até que toquei em algo diferente. Puxei entre os dedos e vi que era um pequeno livro de capa preta, velho e desgastado até as folhas algo queimadas e amareladas de sangue seco. Me acomodei sentando de pernas cruzadas e abri com cuidado a capa e logo na primeira página assim dizia:

“Diário de Bordo III
Atlant Imperis V
Capitão Cameron Dias”

Ano 1717
quarta-feira: Céu claro e limpo, sem previsão de chuva. Deixamos Viers no início da manhã e rumamos à Scafer.
segunda-feira: Nublado, mas o mar continua estranhamente calmo. Haverá uma forte tempestade em questão de horas.

Estava escrito em latim, mas não era um problema para mim. Folheei um pouco e em cada página havia a previsão do tempo e as atividades da tripulação, mas… esse tipo de denominação era usada pelo Reino de Viers, então como explicar a relação entre Cameron e Kyle? E outra informação me incomodava. Scafer e Viers eram inimigos, então por que enviariam corsários para terras longínquas? O que pretendiam?
Começava a passar as páginas com mais rapidez e logo a escrita começou a mudar, não era mais bonita e delicada.

Ano 1718
quinta-feira: Parcialmente nublado, mar agitado e ondas violentas. Concluímos o tratado que irá interligar as rotas comerciais entre Scafer e Viers e agora retornamos ao nosso Reino.

Alguns meses depois… ano 1718
sábado: atracamos no porto e logo que chegamos ao castelo, nos informaram que receberemos um novo marinheiro à tripulação… é o meu irmão… Ele não deveria ter se alistado…

Continuei a folhear até o final, mas não havia mais nada a não ser relatos de clima e atividades até que logo as páginas deram lugar a folhas em branco. Retornei àquela escrita por último e em letras grandes de sangue seco se lia:
                                                             “Dead”

        Engoli em seco. Havia algo que eu não sabia sobre meu próprio Reino. Em nenhum relato da história de Viers constava sobre um tratado firmado com Scafer e muito menos sobre serem parceiros comerciais. O que havia com aquele Diário de Bordo?
        Estava tão concentrado que só reparei em passos se aproximado quando estavam deveras perto. Devolvi o livreto ao seu devido lugar e fechei o baú só tendo tempo suficiente para colocar os demais livros sobre ele e retornar ao tapete fingindo dormir.
        O ruído dos passos que se aproximavam de onde me encontrava se voltaram para o baú. Sentia uma imensa vontade de espiar, mas me esforcei em não estragar meu disfarce. Também não foi necessário, pois não demorei a sentir aquele toque tão comum para mim, mas que se mostrava suave enquanto remexia minhas madeixas seguido de um suspiro preenchido por exaustão.
- Se soubesse a vontade que tenho de te maltratar quando o vejo dormindo tão sereno enquanto há anos estou fadado a carregar essa maldição incrustada em minha lâmina e na marca em suas costas…
Senti parte de sua mágoa irradiando por seus dedos se prendendo em minhas madeixas com um pouco mais de força, mas a pressão não tardou a cessar.
- Palavra de pirata… - sussurrou soltando um fraco meio riso sarcástico. - Como podem ser tão iguais… tão inocentes? Não há justiça onde a vista alcança nem piedade perante os ignorantes.
        Ouvia atentamente e o tom do Kyle estava tão diferente, tão triste a ponto de eu querer tanto ver sua expressão nesse momento embora minha razão dissesse que era impossível. E ele se referia a quem? A mim e ao Cameron?
- Não sei o que pretendia conseguir sabendo isso, mas não deveria acreditar nas palavras fúteis desse mentiroso… Vou aceitar toda a sua raiva, mas essa será a primeira e última vez que alguém ouvirá essa história - começou. - É longa… por onde começo? - perguntou para si já que se supunha eu estivesse a dormir. - Vamos voltar para o ano 1694 numa terra constantemente cinza, fria, ou melhor, congelante e embora houvesse sol, aquele manhã parecia tão monocromática quanto muitas outras passadas. Naquela época, já havia desistido de tudo, de todos e até de mim. Minhas preces, se é que existisse mesmo algum deus, era para que a morte me buscasse em seus braços e tomasse meu sofrimento. Minhas poucas roupas eram as do corpo, sujas e rasgadas, de nada serviam naquele frio e todos ao redor me ignoravam como se eu fosse pior do que um animal.

           Não sabia quanto tempo havia se passado desde que meu pai fora recrutado pelo exército e morrera na guerra. Naqueles tempos, guerras eram mais comuns que o ar. As pessoas ansiavam conquistar reinos, títulos e riquezas nas guerras. Apenas a palavra remetia ao vislumbre de glória e luxúria, mas para mim somente me tirou um pai.
         Não tinha casa, não tinha família. Tudo o que havia me sobrado era a roupa do corpo com que dormia no dia que minha mãe ateou fogo à própria casa com o filho dentro antes de partir.
        Aquele dia em específico era como todos os outros: pálido. Tinha muita fome, mas não tinha forças suficientes para buscar de comer. Estava preparado para deixar meu pequeno e frágil corpo cair no chão gélido do beco e não acordar mesmo depois que o ceifeiro viesse me visitar, mas tudo mudou quando um menino de cabelos loiros desgrenhados e sujos entrou às pressas e se escondeu atrás de um amontoado de caixotes de madeira. Ele respirava rápido enquanto um velho barrigudo passava correndo e praguejando pela rua sobre o pivete que roubara seu pão.

         Assim que passou algum tempo e o velho devia estar procurando por ele bem longe, vi de canto de olho que se preparava para comer e só então me notou ali. Senti o momento de indecisão que ele teve e ainda assim, ele me estendeu o pão que tivera tanto trabalho em roubar ainda que contrafeito.
- Toma.
Não sabia se ele estava irritado ou se envergonhado ou se já se arrependia de ter oferecido sua comida. O olhei sem entender, achava que meus sentidos estavam me enganando.
            Teria ouvido certo?
       Tornou a se repetir, mas nada fiz.
     Ele se deu por vencido e pegou minha mão, a abriu e colocou o pão nela. Se tivesse água suficiente, teria me desmanchado em lágrimas, mas nem isso meu corpo abatido permitia. Aquela deve ter sido a melhor refeição que fiz em toda a minha vida. Nunca um pedaço de pão me pareceu tão apetitoso. Era como se fosse um banquete dos deuses somente para mim.
        Ele abriu um sorriso grande conforme eu comia pedaços enormes de pão, mal mastigando e por vezes faltava engasgar com receio de que me tomassem aquele pão. Não soube na hora se era de alegria ou se ele estava se divertindo com meu jeito desengonçado de comer.
Talvez fosse o jeito dele ou quem sabe sentisse muita pena de mim.
       Quando terminei de comer, ele se levantou, olhou para fora do beco e remexeu inquieto nas madeixas loira-escuras. Ele tornou a se agachar próximo de mim e colocou a mão sobre minha cabeça com cuidado.
- Não quer vir para um lugar melhor comigo? É bem simples… - dizia encabulado, mas eu já não assimilava nenhuma palavra, meus olhos só viam aquele menino como se fosse um raio de sol e eu segurei fraco na manga de sua camisa.
         Ele se surpreendeu, mas no mesmo instante seu rosto se abriu numa expressão tão feliz que chegava a me aquecer os ossos gélidos. Ele se levantou e pediu que o seguisse. Tentei me levantar, colocava todas as forças em meus braços e pernas, porém de nada adiantava, meu corpo não se erguia. Devia ser um pouco maior do que eu e não estava tão longe, mas parecia tão distante que tinha medo que fosse um sonho e com toda a força de vontade que juntei, segurei em suas calças.
         O pouco peso de meu corpo foi o suficiente para suas calças descerem por suas pernas e ele faltou gritar de vergonha para acompanhar suas bochechas vermelhas e sua boca aberta, mas ele nada disse, apenas ajeitou as calças no lugar e me ofereceu suas costas vermelho de vergonha até as orelhas.
        Ele era um garoto como qualquer outro, não tinha nada de especial nele, mas o calor que ele irradiava parecia de outro mundo. Não que fosse por ser ele, tomaria sem pensar duas vezes a mão de qualquer pessoa que a estendesse para mim, mas ele fez mais do que qualquer estranho poderia ter feito, ele me levou para sua casa, me deu aquilo que pensei que o mesmo deus que os nobres gritavam quando das guerras tivesse tirado de mim. Ele me deu um lugar para chamar de lar, de família, de amor. Aquele garoto de nome Cameron me deu a luz que eu precisava para me levantar.
      Os pais dele também o eram de mais duas crianças, Ana e Lucy, e logo viraram meus pais. Naquele dia, fui acolhido com todo o carinho que havia sido roubado de mim por minha mãe de sangue e talvez nunca tivesse me sentido tão querido, tão quente interiormente.
       Por mais que passássemos necessidade, apoiávamos uns aos outros e não poderia desejar nada mais além de que aqueles dias pacatos continuassem para sempre… para todo o sempre…



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