29.9.15

Kind of Blues – Episódio 4 Parte 10 por Mel Kiryu


Kind of Blues – Episódio 4 
Parte 10 (por Kiriya Hitaki)

     Perdi o controle.
     Franzia meu rosto lutando contra as lágrimas se rebelando, descendo mornas por meu rosto e meus dedos entraram em meu cabelo enquanto cabisbaixo eu apertava os olhos e soltava soluços desprezíveis.
     Então, Togashi Yuki tentou do seu jeito.
     É evidente que fiquei atônito e desconcertado quando ele segurou amorável minha tez franzida e dolorida, tomou-a gentilmente para si e pôs-se a secar minha maçãs do rosto esfregando seus lábios na pele.

    Eu respirei fundo e a voz de minha mente inqueriu: 'O que está fazendo?...'
    Contudo, minha garganta estava seca e apertada e as palavras, todas elas, se atravancavam ali.
    Soltei um soluço ressequido, fitando aturdido os olhos de Yuki e seus lábios colaram no meu, a ponta de sua língua abriu caminho através de meus lábios que pareciam estar costurados.
     Era um beijo terno, com sua cota sutil de sensualidade. Mantive os olhos fechados e me concentrei nos afagos que nossas bocas trocavam, os dentes dele esbarraram de leve nos meus e quando terminou num breve estalido os soluços haviam abandonado minha garganta e visualizei aquele partícula macia no sorriso maduro de Yuki.
__Trazer Satomi aqui foi seu jeito infantil de se proteger.__ Ele disse tendo as pontas dos dedos no entorno de minha face, senhor do meu rosto.__ Inspiro tanto medo assim? Pois, não acredito que de algum modo eu lhe cause repugnância.
     Mais uma vez eu sentia o carinho, a vontade de Togashi em me proteger... Mas do que? De Satomi? De mim mesmo ou das mentiras criadas por mim?
        Não.
    Pensando bem, Togashi parecia gostar de participar das ilusões criadas por minhas mentiras.
        Ou tudo podia ser um jogo sem fim, o mundo tinha se transfigurado em embuste e todas as preciosas verdades eram como inocentes crianças devoradas no café da manhã.
     Olhei demoradamente para aquele rosto, meus olhos ardiam.
__Você... Você no fim das contas, não passa de um homem estranho e gentil.__ Eu disse a vasculhar aquele rosto tão perto do meu.
__Pode perguntar quem sou eu.
__Não sei se quero saber...
     Pela primeira vez eu percebi o desejo de Yuki em me contar mais sobre si mesmo, mas a verdade é que me ocorreu que ele estava fazendo isso apenas para me manter afastado de Satomi.
   Não que eu já tivesse feito em essa mesma pergunta umas mil vezes.

              Quem era Togashi Yuki?

        Eu conhecia seus beijos, seu toque e afagos.
     Sua voz, seus estranhos fetiches por garotos de dezessete anos.
     No entanto, qualquer outro detalhe que eu soubesse era superficial.
     Preferia pensar que para mim ele sempre seria uma figura intangível, nunca poderia ser meu, era o anjo da água tônica.
       Ao menos, meu anjo.
                                              ***********

                        Saí do quarto descalço.
               Havia uma real possibilidade de Satomi ter ido embora, mas apesar disso eu esperava encontrá-lo ainda dentro daquela casa que era estranha a nós dois.
    Tinha um suspense imenso vagando em mim.
     Era como se eu estivesse me preparando para o pior.

     De modo que foi quase como levar uma bofetada quando vi que Satomi  estava sentado nos degraus da escadaria entre o primeiro e o segundo pavimento da casa.
      Eu pensava: 'Tem alguma pegadinha nisso, não é?... É estranho que seja tão fácil.'
     Guardei minha prévia desolação no bolso e desci alguns degraus devagar, meus pés desnudos fazendo barulho causavam-me um nervosismo ainda maior, como se Satomi fosse uma miragem prestes a desaparecer ou que ele fosse me jogar escada abaixo assim que eu parasse no degrau onde estava sentado.

     Enfim sentei ao seu lado, igualmente calado.
     Notei que ele estava olhando para o nada, mergulhado em seus mais obscuros pensamentos.
     Meu cotovelo esbarrou sem querer no dele, eu não sabia o que dizer... Mas, queria muito ficar perto dele.
__Hum! Já voltou?__ A voz de Satomi era de uma indiferença atroz.__ Achei que ia aproveitar para ter 'seu momento' com o Togashi.
__Ia ficar aqui esperando eu ter 'meu momento' com Togashi?__ Eu perguntei irônico debruçado em meus joelhos.
__É uma sensação terrível...__ Satomi olhava os próprios dedos que estavam emparelhados como se houvesse um cigarro entre eles.__ Você se tornou minha âncora, não consigo dar um passo a mais para longe do que representa para mim.
__Nem eu de você, Satomi.
     Nossas vozes soaram tristes, sem trocar qualquer mínima olhadela.
__Me dê um motivo real para te odiar, Hitaki.__ Satomi pediu com angústia em seu falar, tentando evitar que seu cotovelo tocasse no meu.__ Volte naquele quarto, aquele homem te deseja... Não pode negar a si mesmo que de algum modo você também o quer.
__Satomi... Eu posso suportar o desprezo de qualquer um, até de meus pais!... Mas, seria insuportável estarmos unidos pelo ódio.
    Eu queria tanto tocar em Satomi, mas mesmo nossos corpos estando lado-a-lado havia uma inércia tenebrosa agindo.
__Nós dois não devíamos ser coisa alguma.
     Ouvi aquelas palavras ditas tão duramente, ressentidas de tudo.
    Foi no instante seguinte a elas que mirei meu olhar em Satomi e apertei meus dedos vigorosamente contra a palma de minha mão.
__Para isso, Satomi... Teríamos que voltar cerca de doze ou treze anos no tempo! Se não fosse para acontecer, algo teria te impedido de se aproximar de meu quintal quando éramos duas crianças... Não foi um acaso, Satomi! Nada, absolutamente nada pode apagar tudo que nós dois vivemos.          
     Ainda se negava a olhar para mim a despeito de minha tentativa em alcança-lo com minhas palavras.
__Então... Está tudo bem se Togashi contar a verdade para seus pais? É isso que vai acontecer se não voltar para aquele quarto.
         Era impossível ignorar o tom sombrio vagando na interrogação.
       Finalmente Satomi virou devagar seu rosto e trocamos olhares, nossas expressões circunspectas eram como duas nuvens carregadas, prestes a despencar num frígido temporal.      


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