18.9.15

Kind of Blues – Episódio 4 Parte 6 por Mel Kiryu


Kind of Blues – Episódio 4 
Parte 6

       Sábado
    Mesmo mês de abril

        Eu podia ter me negado.
      Eu podia ter dito não para Togashi.
      Mas, eu me enchia de um misto de medo e nervosismo convulso quando eu cogitava em recuar no que tinha combinado com ele.
    Era algo mais além disso.

    De um jeito inevitável, eu me sentia atraído por ele e era algo irracional, como a necessidade febril de uma mariposa atraída pela luz destrutiva do fogo.
    No dia anterior, Togashi tinha me passado um endereço por um telefone público.
   Era o lugar onde eu devia encontrá-lo.
   Ficava num bairro dentro da minha cidade, um tanto afastado da onde eu morava. Onde se localizavam pequenos sítios e casas de veraneio, ou usadas apenas em finais de semana.
    Seria a casa dele? Era uma pergunta inelutável.
   Seria irônico se em todo esse tempo Togashi morasse mais próximo a mim do que eu supunha.
   Mas, baseado na lógica, não podia ser... O número que eu usava para manter contato tinha o prefixo de uma cidade vizinha.
    Evidente que eu poderia ter investigado quem era Togashi Yuki, visto que não seria difícil se eu usasse um dos computadores da escola. Na minha casa sempre era mais complicado porque o único computador da casa ficava no quarto de meus pais.
     Contudo, eu sentia que era melhor não saber quem era ele, onde morava, ou o que realmente fazia da vida.
       Saber mais sobre o anjo da água tônica era apenas um modo de nos tornarmos tragicamente próximos.
      Encontrei com Satomi no centro da cidade, nós dois não costumávamos andar juntos na vizinhança onde morávamos. Então, para mim eram encontros secretos.
    Quando cheguei na parada de ônibus Satomi já estava lá encostado na marquise, vestindo uma calça preta com rasgos que pareciam talhos feitos numa parede, calçando botas brutas que subiam por seus calcanhares e trajando uma blusa num preto desbotado que se alinhava quase justa a sua magreza andrógina.
    Antes de notar que eu me aproximava tinha o cigarro aceso pendurados nos lábios, os dedos seguravam na presilha da calça e como de costume suas unhas estavam tingidas de negro, assim como o entorno de seu olhar que parecia vislumbrar uma paisagem que parecia somente dele.
        Descartou o cigarro quando viu que eu estava perto, soprou a fumaça com os olhos presos em mim.
   A primeira vista nossa aproximação era desajeitada, o olhar dele, o rosto dele inteiro parecia se projetar ao meu na ânsia de trocar um beijo que fosse.
    Quando cheguei o mais perto que podia dele naquela parada de ônibus cheia de pessoas, Satomi me abraçou subitamente pelos ombros e perguntou baixinho quase dentro da minha orelha:
__Quando vai chegar o dia em que eu vou poder me atirar nos seus braços... E te beijar? Sem que isso seja da conta de ninguém...
     E não era mesmo da conta de ninguém, Satomi sabia disso e freava suas vontades por mim, porque eu pedia, porque se todo o resto soubesse sobre nós dois não tardaria que fóssemos descobertos pelos meus pais.      
    O abraço durou poucos segundos, mas eu senti meu pescoço arrepiar e no que nos afastamos apenas restou a sombra do quase sorriso de Satomi e seu olhar lânguido no meu.
                                                                 ****

                       Depois de pedir informação, descobri que a morada em questão ficava no final de uma alameda ladeada por árvores altas com copas tão frondosas que quase se encontravam e formavam um teto verde fugazmente iluminado pela luz do dia.
     A construção era antiga, a fachada era toda em branco, as telhas eram arrumadas em tons de marrom e vermelho.
     Não pude deixar de notar o carro Mazda Cosmo de cor branca estacionado sob um  alpendre ao lado da casa, estávamos no lugar certo.
     Era o carro de Yuki.
     Antes de chegarmos mais perto da casa, reparei pela primeira vez na placa do Mazda. Tinha sido uma sorte meu pai não observar esse detalhe, o fato do carro ter sido emplacado em outra cidade... Um pequeno detalhe que poderia ter posto toda farsa a perder.
      Nos colocamos sob a varanda, Satomi trocou olhares comigo e apertou a campainha.
   O som que reverberou breve era agradável como o som de sinos mensageiros tilintando com o toque da brisa.
     Eu não estava calmo, embora não me mostrasse alterado por fora. No primeiro segundo que notei o carro de Yuki, senti uma tremenda agitação e meus passos se tornaram mais tensos, mais cautelosos.
    Quase que esquecia de respirar.
    Satomi também estava calado fazia alguns minutos, eu não fazia muita ideia do que passava na mente dele naquele instante e a meu ver parecia mais calmo do que eu.
       Vi a mão dele se movendo decidida em tocar novamente a campainha, mas antes ouviu-se um som breve de chaves e a porta se abriu.
      Senti minha saliva congelar dentro da boca ao rever Togashi.
    Não, ele não alternou o olhar entre Satomi e eu.
    Aquele olhar se chocou diretamente com o meu e me examinou, se havia alguma intenção de sorriso em Togashi fora completamente estilhaçada ao lançar um olhar rápido e desgostoso na direção de Satomi.
         

2 comentários:

  1. Bom dia Mel
    Hoje só vim mesmo para dar um oizinho
    Espero que esteja bem do seu dente....
    Rima anda meia ocupada mas apartir de segunda as coisas acalmam espero eu.
    Esse capitulo foi demais!
    Estou esperando o proximo ansiosamente :)
    Togashi *-*

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  2. Bom dia, Rima!
    Bom, ontem eu tirei um raio x do dente, mas só vou saber o resultado na segunda-feira... Mas, ainda está doendo (e não tem cárie visível por fora).

    E eu fiquei também sem net, por isso que pouco postei durante a semana.
    Opa! Que bom que você gostou, sua empolgação me contagia. ^^"
    AH, sim... Vem muito Togashi por aí... :D

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