7.9.15

Sight Of Sea Capítulo XV por Kisu


Capítulo XV - E Naquela Casinha em Urion… Tudo Começou…

- Kyle - a mama chamou. - O que você está fazendo, filho? - perguntou da porta da cozinha, enxugando a mão no avental.
- Sim, mama? - respondi saindo detrás da árvore onde me escondia do Cameron enquanto brincávamos.
         Ela ajeitou alguns fios do cabelo marrom já sem o brilho e abriu um grande sorriso para nós.
- O almoço está pronto, venham comer, meninos.
Cameron e eu nos entreolhamos e abrimos um largo sorriso antes de passarmos correndo ao lado da pequena plantação do papa enquanto gritávamos ansiosos e famintos pelo almoço.
Quando passei pela mama que nos esperava na porta, ela me segurou pelos ombros.
- Vocês dois não têm jeito, isso que dá andarem se enfiando no mato - reclamava tirando algumas folhas presas em meus cabelos ruivos bagunçados e logo após esfregando o avental em minhas bochechas.

- Ai, mãe. Você sempre faz isso - Cameron reclamou, mas ela também fez o mesmo com ele.
- Pronto? - perguntei fazendo bico. - Podemos comer, mama?
         Ela nos olhou com uma cara de poucos amigos antes de me puxar num abraço.
- Seus dois reclamões que eu amo demais - disse me apertando ainda mais.
        E dessa vez, foi Cameron a fazer bico.
- Assim nem parece que sou seu filho, às vezes acho que ama mais o Kyle do que a mim.
        Ela estendeu a mão para que ele se juntasse a nós.
- Não quero, não sou criança - tornou a argumentar envergonhado. - Já vou fazer quinze anos.
- Está vendo? Por isso esse meu caçula é um fofo, ele não reclama de receber meus abraços e beijos - disse beijando minha testa uma, duas, três vezes.
- Ei, eu vi primeiro - Cameron reclamou lutando para me puxar do abraço da mama até que ele conseguiu me ter. - O Kyle é meu - arguiu me abraçando.
     De fato, amava os abraços e beijos da mama, do papa, das irmãs, mas principalmente do Cameron. Todos na família disputavam para ver quem dava mais atenção ao “caçula”, embora eu fosse o segundo mais velho com treze anos.
- Me solta, Cam… - pedi baixinho, a voz abafada por seu abraço.
        Ele me olhou sem entender.
- Tô com fome - completei.
       Ele ficou vermelho como o tomate que provavelmente estava na sopa espalhando um cheirinho gostoso pelo ar. Meu pai entrou bem na hora. Vinha da plantação e antes que sequer beijasse nossa mãe já foi se manifestando com aquele sorriso cansado.
- De novo a discussão de quem ama mais o Kyle? - suspirou sem desfazer sua expressão alegre. - Vamos continuar depois do almoço - falou e as meninas antes quietas à mesa concordaram. - Mas… é claro que é o papai e a mamãe que mais amam - não resistiu a completar soltando uma alta gargalhada.
- Vocês são injustos, é sempre assim - Cameron inquiriu fazendo birra. - E você está pra lá de falante comparado a quando chegou aqui e ficou meses sem dizer uma palavra - retrucou para mim. Não tinha maldade, mas entendi como uma indignação da parte dele que já se dirigia para limpar as mãos antes de ir para a mesa.
      O segurei na ponta da camisa marrom antes que ele se afastasse.
- Não fica bravo - pedi.
         Ele baixou o olhar constrangido antes de pousar a mão em uma carícia desajeitada em minhas madeixas ruivas.
- Bobo, não é como se eu pudesse ficar bravo de verdade contigo - murmurou contrafeito.

         Pouco depois de almoçarmos, a mama pediu que Cameron e eu fôssemos à cidade para entregar os vegetais da colheita a um amigo do papa que sempre os vendia na feira.
        Levamos um pequeno jegue puxando a carroça com a colheita.
Eu não gostava quando tinha de ir para a cidade e a mama sabia, por isso sempre mandava que fossem os dois: Cameron e eu.
- Sei que tem más recordações, Kyle, mas não pode deixar que elas te dominem para sempre - censurou.
- Eu não gosto de voltar àquele lugar… se fosse sem você, não saberia o que fazer. Aquelas pessoas me assustam - desabafei acompanhando Cameron bem de perto assim que deixamos as muralhas da cidade já retornando para casa.
- E o que você vai fazer quando eu não estiver por perto? - suspirou pesaroso.
- Mas eu sei que você sempre vai estar ao meu lado, Cam… sempre… - tornei a repetir segurando na mão dele.
- Assim fica difícil dizer o contrário - disse contrafeito entrelaçando nossos dedos. - Droga, a vida já anda difícil e aquele imbecil do Kazaa está pagando ainda menos por nossas mercadorias. A mãe vai surtar quando ver a miséria de quatro dobrões de cobre dessa vez.
Eu não entendia de economia, mas Cameron me explicou que quando havia muito de um mesmo produto e pouco comprador, o preço diminuía para incentivar as pessoas a comprarem e isso que estava acontecendo com o mercado abarrotado de vegetais.
- Sobe na carroça, está cansado, Kyle.
- Eu aguento - retruquei. - E quero ficar perto de ti.
- Ainda vamos estar perto você esteja aqui ou lá - ele sorriu.
- Não é a mesma coisa - ressaltei desgostoso.
       Ele largou minha mão e se agachou de costas para mim. Hesitei em subir, sabia que ele devia estar cansado, mas ele insistiu até que me dei por vencido.
- Suas costas… ainda são quentes como me lembro - falei me aconchegando nelas e deitando o rosto de lado.
- Ei, não use isso como desculpa para dormir, senão vai voltar andando.
- Não é isso - disse fazendo bico. - Não entendo por que tudo que vem de você é caloroso como se fosse um sol quente de verão.
         Quando dei por mim, estávamos chegando no vilarejo de Urion e mesmo que em algum momento eu tivesse adormecido, Cameron continuou a me carregar sem reclamar.
Naquela noite, jantamos as sobras do almoço junto com pão recém assado pela mama. Nossa casa era pequena, havia apenas três cômodos sendo um quarto para meus pais, outro para as garotas e a cozinha interligada à sala onde dormíamos eu e o Cameron.
        Assim que todos se deitaram e talvez por dormir na sala, ouvi murmúrios vindos do cômodo da mama e do papa e as coisas não pareciam nada bem pelo tom da voz.
- O que foi, Kyle? Não consegue dormir? - Cameron sussurrou próximo à minha orelha.
- Tô com medo… não quero perder mais ninguém, Cameron…
Ele assoprou na minha orelha e senti um calafrio percorrer a espinha. Me virei com raiva para ele por levar na brincadeira, mas ele me puxou num abraço forte debaixo dos cobertores.
- Vai ficar tudo bem. Mesmo se a situação ficar ruim, nós vamos superar isso desde que estejamos juntos. Não vou deixar você perder ninguém, confie em mim - e suas mãos adentraram vigorosas por minhas madeixas ainda sem desfazer aquele abraço.
- Uhum - acenti. - Acredito em você - afirmei levando minha mão à sua face e mesmo no escuro procurava seus olhos como se pudesse vê-los.
Cameron segurou minha mão com sua doçura sem igual e fiquei sem reação quando senti algo quente e macio tocando minha boca. Não tardei a perceber que se tratavam de seus lábios. Algo ainda mais quente e molhado adentrou minha boca e se embolou em minha língua conforme nossas bocas se tocavam desajeitadas, uma procurando pela outra naquela carícia.
Não via nada, porém não ousei fechar os olhos como se em algum lugar de minha mente eu enxergasse cada detalhe do rosto de Cameron e daquele beijo que partilhávamos.
- Por que me beijou? - indaguei nem bem o beijo findou. - A mama e o papa nunca me deixaram beijá-los por mais que dissessem que se beijam aqueles que se gostam.
Sim… eu sempre tivera curiosidade de beijar na boca por ver meus pais fazendo isso, mas não compreendia por que eles podiam e eu não.
- E você não gosta de mim?
- É claro que gosto! - danei a responder num piscar de olhos.
- Então não tem problema já que também gosto de você - respondeu sereno, deslizando a pontinha do dedo em meus lábios. - Mas esse é o símbolo da promessa que faço a você de sempre estar ao seu lado. É o nosso segredo, ok?
- Um segredo só nosso? Só meu e do Cameron? - perguntei exaltado.
- Sim, nosso e de ninguém mais, então não faça isso com ninguém exceto eu.
Me aconcheguei em Cameron, meu coração pulava de felicidade e eu não sabia bem o porquê. Talvez fosse a emoção de ter um segredo com a pessoa que mais amava no mundo.
        Os meses se passaram e eu devia ter acabado de completar meus quatorze anos quando só então notei que os sentimentos que eu nutria para Cameron não eram apenas de um irmão como eu sempre pensava…
      Desde o beijo que trocamos, toda vez que o via me sentia estranho, queria que ele olhasse apenas para mim, queria que eu fosse apenas dele e ele meu. Éramos os únicos filhos homens e por isso fazíamos tudo juntos. Sempre foi assim.
         Claro que naquele tempo eu não sabia o que se passava comigo e com medo de perder minha família de novo comecei a me distanciar dele e não fazíamos mais nada juntos exceto levar a colheita à cidade… mesmo por que aquele beijo era somente o marco de nossa promessa, não havia nenhum significado a mais, ele me via apenas como um irmãozinho ou assim eu tinha para mim.
        Talvez por infelicidade do destino, Cameron foi para o castelo para se tornar um corsário alguns meses depois de completados seus dezoito anos. Nossos pais não queriam que ele fosse por mais que alegasse que era para ajudar nas despesas. Me senti culpado, pois acreditava que era o jeito dele se afastar de mim.
        Depois disso, longos dois anos se passaram sem que tivéssemos notícias dele. Cheguei a pensar que ele tinha morrido da mesma forma que meu outro pai e o sentimento de tristeza me tomou por alguns meses até recebermos uma carta. Era curta, mas suficiente para nós sabermos que ele passava bem e como estava sua rotina.
Nessa época, meu pai havia conseguido que eu me tornasse aprendiz do relojoeiro, mas eu não via progressos e logo que o dinheiro ameaçava ficar escasso, abandonei o ofício.
        Nossa situação não ia bem e como estava perto de fazer dezoito anos, comecei a treinar pretendendo entrar para o exército ou principalmente para a tripulação de corsa como Cameron. Queria encontrá-lo e retomar o sentido da minha vida mesmo que soubesse que meu amor nunca seria correspondido, nunca poderia ser posto em palavras.
       Quando finalmente fiz dezoito anos, me alistei e consegui entrar para o grupo de pretendentes a marinheiros da realeza. Foi árduo e os treinamentos eram ainda mais rigorosos do que imaginava. Treinei pelo menos um ano ou mais até que enfim fui promovido a Cabo e me alocaram para ser parte de uma tripulação oficial. Fiquei feliz por pensar que estava mais perto de alcançar Cameron e mais ainda quando soube que ele era o Capitão da tripulação da qual eu faria parte.


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