14.9.15

Sight Of Sea Capítulo XVI por Kisu


Capítulo XVI - One Step Closer to You

         Arrumei o uniforme mais uma vez. Olhava nervoso no espelho inspecionando para ter certeza de que havia ajeitado todos os detalhes.
- Botas… confere; calças… confere; túnica… confere; botões e pulsos… confere; luvas… confere; chapéu… confere. Ufa, parece que está tudo aqui - murmurei para mim.
      Meus cabelos haviam sido cortados recentemente e a barba também estava feita. Odiava usar barba e não sabia se teria oportunidade de fazê-la tão cedo quando subisse a bordo.
Meu coração batia tão rápido que meu rosto parecia em chamas, mas talvez meus cabelos ruivos drenassem toda a vermelhidão de meu rosto pálido pelo nervosismo.

      Ainda olhava distraído para o espelho lembrando de prender o brasão à túnica vermelha quando bateram à porta do quarto em que me encontrava alojado nas dependências do castelo.
- Entre - falei me virando e pela patente vi que era um tenente.
Não era apenas questão de patente, inclusive o ar que ele exalava parecia diferente, superior.
- Está pronto? - perguntou entrando. - Nossa, ainda está se ajeitando pequeno Kyle?
Fechei a cara constrangido pelo jeito íntimo com que me tratou sendo que era a primeira vez que nos víamos.
- Desculpe, mas creio que não temos intimidade para tanto, Tenente…
- Roy - ele completou com um sorriso.
Desarmei minha expressão nada amiga e lhe abri um sorriso em retorno. Ele se aproximou de mim e eu esperava que estendesse a mão para enfim nos cumprimentarmos, mas ele me pegou desprevenido num abraço muito forte e me suspendeu no ar com facilidade nunca vista.
- Ei, o que está fazendo? - perguntei consternado.
         Ele me colocou no chão e ainda rindo continuou:
- Agora sim estamos prontos para ir - disse indo à minha frente e eu o segui desajeitado após pegar rapidamente minha única mala de mão e o sabre embainhado.
       Minha roupa estava bagunçada, mas eu não tinha tempo para me arrumar de novo. Bem que Cameron mencionou na carta que tinha um subordinado um tanto quanto excêntrico chamado Roy. Me soava que seria bem diferente dos treinamentos duros e pesarosos por que passei até chegar o dia de hoje.
         Deixamos o castelo localizado em Viers, um pequeno Reino abrigando a realeza que controlava todo o restante do país conhecido como Myriant. Saímos para a cidade e o sol estava fraco, mas as ruas começavam a ficar movimentadas. Não demorou a chegarmos ao cais e me surpreendi com o tamanho e a beleza do navio diante de mim. O sol raiando forte no horizonte ressaltava ainda mais a grandeza do navio.
       Um homem se aproximou de nós e ambos batemos continência em cumprimento. Em seguida Roy se adiantou a nos apresentar.
- Comodoro John, este é o Cabo Kyle que se junta a nossa tripulação hoje.
O senhor apertou minha mão cortês e sorriu.
- Ora, então este é o famoso Kyle de quem nosso jovem Capitão tanto fala?
Olhei sem entender. O que Cameron andava falando de mim? Será que todos sabiam quem eu era?             Pensei envergonhado.
- Muita calma, meu jovem - ele continuou. - Não se preocupe, está em boas mãos aqui. Bem… - disse olhando para um relógio de correntinha que tirou do bolso da túnica. - Se me permitem, tenho que rever os últimos detalhes antes de zarparmos.
       Ele se despediu e tornarmos a bater continência em sinal de respeito.
- Aquele é o homem mais importante de nossa tripulação não apenas em experiência, mas também é quem dá a palavra final e é um excelente curandeiro. Às vezes me pergunto por que ele não se tornou um médico, mas no fim, todos temos uma forte e inquebrável ligação com o mar  - Roy disse com um ar apaixonado. Não paixão de amor, mas uma diferente… uma paixão de perder o fôlego.
          A imagem que ele passava era forte, me lembrava um pouco do jeito de Cameron, então logo soube que teria muitas pessoas a admirar naquele lugar.
        Embarcamos e Roy me mostrou onde poderia deixar minha bagagem antes de um outro cabo vir me chamar para que eu tivesse com meu superior, o capitão Cameron.
Roy seguiu para outro local com seus afazeres e eu segui o cabo até onde seria o aposento de Cameron. Ele bateu duas vezes e abriu a porta.
- Licença, capitão Cameron - proferiu batendo continência. - Trago-lhe o cabo Kyle.
     O cabo era mais alto e eu não via nada a minha frente, só pude ouvir uma voz em resposta vinda do outro lado.
- Dispensado, cabo.
     O cabo deu meia volta volver e assim que eu entrei no aposento, ele fechou a porta.
- Cabo Kyle se apresentando - disse tirando o chapéu e batendo continência. - Queria me ver, capitão Cameron?
        Cameron me olhava sentado detrás de uma ampla mesa de mogno repleta de papéis, mapas e instrumentos cartográficos. O cômodo era preenchido por estantes com livros e mais mapas e uma cama bem simples ocupava o lado direito do quarto ao lado de um modesto guarda-roupa deixando um amplo espaço livre à esquerda, bem diante da porta e da mesa onde Cameron estava a me olhar.
Ele se levantou e se aproximou de mim. Só então reparei que tinha crescido ainda mais desde a última vez em que nos vimos, também estava mais forte e o uniforme lhe caía perfeitamente bem.
- Descansar, cabo - ordenou, mas logo abriu um sorriso que me desequilibrou mentalmente em questão de segundos.
       Abaixei o braço e ele me tomou pelos ombros num abraço que me deixou desconsertado.
- Estava com saudade, Kyle - falou baixinho me apertando ainda mais e eu retribui o abraço.
       Meu coração batia tão rápido e meus dedos começavam a suar dentro das luvas enquanto eu sentia seus próprios dedos me tomarem com força. Escondi o rosto em seu tórax e aspirei tímido aquela fragrância própria dele que há anos não sentia. Tinha tanta saudade que parecia impossível saciá-la desde logo.
       Tudo nele havia mudado, seu corpo, roupas, cabelos mais curtos e estava com uma barba bem rala que de tão loira era quase imperceptível de longe, mas seu carinho ainda era o mesmo, senão maior.
        Isso era mal, minha razão não iria aguentar dizer não para meu coração por mais uma vez e eu ainda não sabia como lidar com esse sentimento que ressurgia mais forte e indomável.
- Olhe para você, está tão grande, já é um verdadeiro homem - disse gentil levando uma das mãos ao meu rosto. - Nossos pais devem estar muito orgulhosos de você - tornou a sorrir doce.
- O único que mudou foi você, está mais musculoso e até de barba - expliquei em minha defesa.
       Ele arregalou um pouco os olhos e tampou a boca por um instante antes de agradecer encabulado.
       No que abriram a porta, nossos olhares correram rápidos em sua direção e na da pessoa que lá estava de pé.
- Ah, Cameron, perdão se interrompi algo importante, não imaginei que estivesse com seu irmão - falou receoso.
- Está tudo bem, Comodoro. O cabo já estava de saída - explicou se tornando algo frio e distante.
      Entendi a deixa e me apressei a deixar o cômodo sem esquecer das formalidades.
- Não devia tratar seu irmão com tanta frieza. Há quantos anos não se vêem? - disse em tom de desaprovação e ouvi Cameron rindo fraco e sem graça enquanto eu fechava a porta.
- Então, o que deseja, Comodoro?
- Queria discutir a rota e as coordenadas de que tratávamos mais cedo…
Assim que saí do corredor, já não consegui mais distinguir uma palavra do que diziam e o som da conversa se perdeu no barulho do mar e dos marinheiros subindo a bordo e se preparando para zarpar em seguida.

                                             ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

          Poucos dias se passaram desde nossa partida do cais de Viers, ainda percorríamos ao longo da costa de Myriant, mas em alto mar e mesmo assim mal tive chances de falar com Cameron. Sempre que nos encontrávamos era quando nossas atribuições coincidiam em questão de horário ou quando ele discutia sobre a rota próximo ao timoneiro junto com o Comodoro, mas ele sempre notava a minha presença e me sorria sereno.
       Talvez fosse apenas eu que estivesse com expectativas pensando que voltaríamos a ser como antigamente… Não éramos mais dois garotos que podiam partilhar do tempo de uma tarde em brincadeiras, tínhamos nossos afazeres…
- Ei, pequeno Kyle - Roy chamou se sentando ao meu lado no castelo de proa e dispensando as formalidades com um aceno de mão para que eu não me levantasse. - Se sente enjoado?
- Oi, Roy… não é isso… - respondi sem visível ânimo.
- Então me diga, o que anda te amargurando? - perguntou compreensivo.
       A brisa soprava levantando meus cabelos conforme o navio deslizava suave pelas águas levemente iluminadas pela luz da lua. A água batia no casco do navio se juntando ao som dos tripulantes dispersos pelo convés.
- Não quero que pense que estou reclamando, na verdade, me sinto feliz de fazer parte da tripulação depois de ter me esforçado tanto, mas… - parei refletindo e Roy me incentivou a continuar. - Sei que têm anos que não vejo o Cameron e que nossa relação não é mais a mesma, contudo, em algum lugar do meu coração eu imaginava que as coisas seriam diferentes quando nos reencontrássemos. Que poderíamos voltar a como era no início, mas não quero atrapalhar… - fiz uma pausa ainda pensativo antes de prosseguir. - Tenho minhas dúvidas se tomei a escolha certa.
        Mesmo com todo o barulho de gargalhadas e bagunça vindos da tripulação, ainda discerni um suspiro de Roy em meio ao som das ondas e da brisa noturna.
Sem que eu esperasse, ele me puxou num daqueles abraços fortes quase me sufocando enquanto bagunçava meus cabelos agora com um sorriso grande como lhe era comum.
- Vocês irmãos não têm jeito… - refletiu me soltando.
     Tossi um pouco e massageei o pescoço para afastar aquela sensação de aperto que permanecia enquanto ouvia atento às palavras de Roy.
- Quando conheci o Cameron, ele falava a mesma coisa, dizia que tinha entrado para a marinha não somente para ajudar nas despesas da família, mas por que tinha medo de ser um fardo para o irmão caçula.
        Olhei perplexo para Roy como se não conseguisse assimilar as últimas palavras. Nunca que Cameron seria um peso para mim, era bem pelo contrário. Ele era a pessoa mais especial que eu poderia desejar.
- Ninguém vai te culpar por colocar para fora o que sente, afinal, vocês são uma família… é melhor deixar que saibam seus sentimentos do que nunca tê-los dito.
- Por que diz isso? - perguntei curioso e ele parou pensativo como se relembrasse de momentos de um passado remoto.
- Meu pai foi recrutado para a guerra quando eu era criança. No mesmo dia em que ele partiu, nós brigamos e eu disse para que ele morresse - desabafou. - Não que eu não o amasse, apenas falei sem pensar num surto de raiva. Alguns meses depois, um dos colegas oficiais dele apareceu na porta de nossa casa… Meu pai havia falecido em combate e eu nunca consegui me desculpar e dizer que na verdade o amava, que sentia sua falta.
         Fiz um momento de silêncio. Compreendia o que Roy dizia, porque tinha passado pela mesma situação quando criança e era algo que não conseguiria colocar para fora, de que nunca me conformaria por mais que agora tivesse uma família a quem muito amava… quem sabe fosse por isso que me sentia à vontade em falar com Roy mesmo que mal soubesse algo sobre ele.
- Sinto muito… - foi tudo o que consegui dizer depois de algum tempo.
- Não sinta, Kyle… quando você partilha desse sentimento, é o mesmo de quando se perde alguém precioso - admitiu. - Quem liga para patentes?… E ordens? Que se danem! Se tem algo a dizer para o seu irmão, diga enquanto não é tarde demais. Seja na terra, seja no mar, não existe uma segunda chance quando se erra. Apenas no céu ela existirá e até lá não há como voltar atrás.
        Ele não era tão mais velho do que eu, mas tinha mais conhecimento e experiência de vida do que aparentava.
        Ouvi tudo com o máximo de atenção e senti um aperto no peito. Ele tinha razão e eu não queria que o pouco de coragem que consegui fosse em vão.
         Naquela noite, mal dormi pensando nas palavras de Roy. Ainda estava escuro quando me levantei decidido a ir ter com Cameron sem deixar que alguém me visse sair do quarto dos marinheiros ou deduzisse falsamente que eu estava tirando vantagem de meu irmão ser Capitão.

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