19.9.15

Sight Of Sea Capítulo XVII por Kisu


Capítulo XVII - Me Perco e Me Encontro Na Sua Pessoa

          O aposento de Cameron ficava ao lado do que pertencia ao Comodoro John, estando ambos localizados entre o tombadilho logo acima e o quarto dos marujos abaixo.
Não queria andar de qualquer jeito e ser chamado a atenção, então me vesti normalmente com a calça branca, o colete e botas pretas e a túnica vermelha do uniforme, só deixando para trás o sabre.
Estava em vias de bater à porta do quarto, mas detive o movimento. Queria falar com ele de irmão para irmão e não como subordinado e superior, então ousei abrir a porta sem as costumeiras formalidades.

      Cameron rapidamente levantou o olhar surpreso para a porta, mas desarmou a expressão ao reparar que se tratava de mim.
- O que foi Cabo Kyle? Esqueceu os bons modos? - falou tornando a voltar a atenção para um pequeno livro de capa dura na cor preta em que fazia anotações.
Entrei mesmo sem convite e fechei a porta.
- Vim falar com você… não como oficiais, mas como família - me adiantei a explicar minhas razões ainda que houvesse insegurança em minha voz.
- Estou ocupado, Kyle… - respondeu sem se dar ao trabalho de olhar para mim.
      Fiquei zangado ainda que meus motivos não fossem dos melhores, afinal, o que custava me ceder um pouco de seu tempo sendo que eu havia me dado ao trabalho de vir até ele?
    Me aproximei e contrariando tudo o que eu havia aprendido com a mama tomei o pequeno livro preto para mim.
- O que há com você? A sua função é mais importante do que eu? Por que não olha para mim, Cameron? - perguntei exaltado. - Por que trata a mim com tamanha ignorância? Que se passa contigo?
    Minhas mãos tremiam de raiva quando joguei com força o livro sobre a mesa e me virei para sair.
- Ignorância? - ele perguntou seco se levantando da cadeira e eu acabei por me virar para ele. - Você foi o único que me tratou assim depois daquele beijo e agora quer me ter por culpado? - esbravejou espalmando a mão com força na mesa. - Ainda continua agindo com um pé atrás comigo depois de todo esse tempo!
- I… Isso não é verdade! Por que crê que lhe trato diferente dos outros? - perguntei injuriado. - Não é você que está sempre ocupado? Como quer que me aproxime?
“Que se passa? Por que ele trouxe esse assunto à tona depois de todos esses anos? Por que justo agora?” pensava comigo.
- O Roy me contou o que está havendo - me interrompeu o pensamento. - Por que teve que contar para ele e não diretamente para mim? Mesmo eu estando sempre aqui por você, só isso não basta?! - perguntou batendo a sola da bota no chão ainda sentado e virou o rosto irritado.
- Não! - respondi cerrando os punhos sem me dar conta do que havia acabado de falar e Cameron me olhou com espanto.
Desarmei minha expressão e arrependido me virei para ir embora enquanto podia.
Ouvi a cadeira se arrastando logo atrás de mim e Cameron me alcançou antes que eu pudesse chegar à porta e me segurou pelo pulso. Meu coração batia tão rápido que era difícil pensar no que fazer.
- Então me diga… O que quer de mim se só isso não basta, Kyle? - disse em tom mais calmo.
“Como se eu pudesse dizer sem você… ter vergonha de quem me tornei…” pensei abaixando a cabeça ainda de costas para o Cameron.
- Você prometeu sempre estar ao meu lado, mas me deixou sozinho sem mal dar notícias em todos esses quatro anos…
        Me soltei da mão de Cameron e deixei o aposento sem dizer nada. Ele continuou lá, não fez questão de me impedir ou seguir…

         A manhã demorou a passar mais do que eu imaginava e evitei ao máximo me encontrar com Cameron e Roy, mas não pude evitar de lançar um olhar de desaprovação para Roy quando o vi. Como ele pôde contar para o Cameron a dúvida que paira em meu coração? E mais, será que sabia ele o que estava guardado no mais fundo de meu ser e também havia dito ao Cameron?
        Na hora em que estava ajudando a segurar as cordas para folgar as velas, eu vi Cameron e ele sorriu discreto para mim como sempre o fazia e não fosse por ter outro marujo segurando a mesma corda e cuidando dos poleames, teria acontecido um acidente.
     Não… não podia continuar assim. Eu não podia permanecer me distraindo por causa de meus sentimentos duvidosos que devia ter abandonado há muitos muitos anos.
     Quando me recompus, levei uma bronca de meus colegas e superior que também estavam ajudando nos ajustes e me desculpei. Não percebi quando Cameron havia saído de minhas vistas, mas talvez fosse melhor ele se afastar para que eu evitasse de pensar demais e causasse outro desastre.
        Fizemos uma pequena pausa para o almoço e tornamos a manusear as velas. Os ventos estavam inconstantes durante toda a tarde e só trocamos de turno em vias de escurecer. No jantar comemos algumas carnes de alce defumadas e bebemos bastante cerveja preta enquanto os mais experientes que haviam terminado seu turno tal como eu, contavam histórias.
     Terminava de virar a caneca de cerveja nas últimas goladas quando vieram me intimar para que comparecesse à sala do Capitão.
      Só pude imaginar que se tratasse de um sermão pelo ocorrido durante a tarde e por mais que desejasse manter distância, me levantei e fui para o aposento de Cameron.
     Bati de leve com as dobras dos dedos à porta. A mão parecia mais pesada que de costume.
- Me chamou, capitão? - perguntei abrindo a porta, mas o cômodo estava vazio.
- Sim, vai ficar parado ou vai entrar? - a resposta veio de trás de mim e eu faltei dar um pulo pela surpresa.
       Entrei meio sem jeito e Cameron veio logo depois de fechar a porta. Ele cruzou a distância até a mesa e deixou o chapéu sobre algumas folhas antes de me oferecer uma bebida que recusei educadamente. Ele se sentou e me apontou uma das cadeiras diante da mesa para que eu fizesse o mesmo.
     Após se recostar na cadeira, fechou os olhos por um minuto e respirou profundo e calmo, quase como se eu fosse o único nervoso naquela sala.
- Kyle, por que você quis se tornar um corsário? - perguntou sem tirar os olhos de mim. - Não acha que poderia levar uma vida mais tranquila ao lado de nossos pais?
- Está dizendo que não sirvo, é isso? - rebati certamente magoado pela pergunta. - É por causa do que aconteceu mais cedo?
- Se eu pudesse, nunca teria te deixado entrar… - disse num suspiro e não pude evitar ficar triste, perder o chão sob meus pés.
     A pessoa que eu mais admirava desde jovem não me reconhecia.
      Minha garganta secou, mas uma lágrima teimou deixar meus olhos. Corri a seca-la, mas temi que outras lhe seguissem e me levantei para sair, embora não devesse.
- Até quando pretende fugir, Kyle? - Cameron indagou e eu parei no mesmo lugar.
- É tudo o que me resta, não? É a única coisa em que sou bom… Afinal, não foi você o primeiro a fugir?
- Não, Kyle… você acha que é bom em fugir, mas você só é bom em enganar a si mesmo - Cameron proferiu e ouvi a cadeira se arrastando enquanto ele se punha igualmente de pé. - E se acha que fugi, está enganado. Eu só me distanciei quando você deixou bem claro que não me queria por perto… e fiz o que fiz para que então você pudesse seguir o ofício de nosso pai como fazendeiro e herdasse a casa de Urion quando construísse sua própria família.
- Não preciso ouvir isso de você, Cam… - me virei a rebater sem contudo poder evitar que o rubor tomasse minha face. - Eu queria ser igual a você, sempre quis. Por acaso alguma vez disse que queria uma nova família? Por que nunca te alcanço se te admiro tanto? Por que não percebe que para mim só basta ter você?
        Cameron se aproximou, mas me afastei do abraço que ele pretendia me dar em consolo.
- Não preciso de sua compaixão - retruquei bravo.
   Ele levou suas mãos à minha face e não consegui me livrar de seu toque mesmo que tentasse.
- E quem disse que é compaixão? - perguntou com uma expressão que eu nunca vira ao passo que sentia a pontinha de seus dedos alisando minhas madeixas ruivas. - Esse olhar… - suspirou suave, sua testa se encontrou com a minha. - Seus olhos que sempre me buscaram desde jovem me confundem até hoje. Afinal, segredam eles algum amor por mim ou se trata de tão inocente admiração? Você diz que não basta me ter por perto e agora diz o contrário, qual das duas opções é a verdade que você guarda com tamanho afinco?
       Minha garganta secou. Mesmo que tentasse desviar o olhar, meus olhos sempre tornavam a encontrar com os de Cameron como se fossem atraídos um pelo outro e meu coração perdia o rumo naquele delírio.
- Não precisa responder… mas há algo que preciso te contar, caso contrário não posso seguir em frente… - ele fez uma breve pausa, eu não sentia segurança em suas palavras, muito menos em seus dedos que ainda me tocavam suave o rosto. - Questionei meus pensamentos por diversas vezes, cheguei a pensar se fora errado o nosso encontro há quatorze anos, se devia ter ignorado aquele frágil garoto desamparado… se tudo seria diferente hoje caso o fizesse… mas não importava quantas vezes eu tivesse esses odiosos pensamentos, eu sentia uma dor no peito pior do que a dor de dizer que te amo e nunca tê-lo dito como amante… mas apenas como irmão… de nunca dizer que te amo… - tornou a repetir.
      As mãos de Cameron temeram me abandonar o toque, mas antes que o fizesse e sem ter tempo para raciocinar, me joguei no calor de seus braços, como se fosse o único refúgio para minha mente confusa. Havia escutado certo? Não estava preso em alguma ilusão ou quem sabe em alguma artimanha para que ele confirmasse o que quer que Roy houvesse dito?
        Não queria pensar em nada. Apenas saber que ele me amava da mesma forma que eu por tantos anos era o suficiente para as lágrimas que segurava ousassem sair. Tinha tanto medo do que aconteceria se ele soubesse como me sentia e isso me custou anos de sua ausência…
           Meu coração batia em ritmo furioso.
- Também te amo, sempre amei - falei com as palavras entrecortadas pela voz que falhava. - Te amo há tanto tempo que pensava ser impossível aguentar sem meu coração se esfacelar, mas ao mesmo tempo não queria ser um encosto para ti.
Não conseguia evitar de apertar os dedos na túnica de Cameron. Mais, mais e mais a ponto de não o deixar ir mesmo que fosse uma visão.
         Os braços de Cameron me envolveram com ânsia e fui forçado a andar alguns passos até minhas costas baterem numa das estantes. Alguns livros sacudiram em seus lugares e ouvi outros caírem ao nosso redor enquanto minha boca era envolvida rapidamente por seus lábios.
        Minha cabeça ficou vazia de tudo, de todos, mas não de Cameron quando abri os lábios para sentir melhor do beijo.
        Tinha anos que não sentia seus lábios, mas eram exatamente como a vaga lembrança que guardava com carinho. Quentes, suaves e além de carinhosos, havia desejo.
       Sua respiração vinha de encontro ao meu rosto e não pude evitar fechar os olhos conforme sua língua se embolava ávida na minha. Meus dedos ainda seguravam fortes na roupa de Cameron quando ele me levantou e me carregou por um breve momento até me deitar em algo macio.
         Não percebi quando minha túnica havia sido desabotoada, mas os beijos e mordidas de Cameron que desciam pela pele desnuda de meu tronco causavam arrepios, principalmente quando a pouca barba que ele tinha roçava deixando a pele levemente avermelhada.
      “O cabelo dele sempre foi tão macio assim?” pensava adentrando os dedos por entre suas madeixas loiras que contrastavam tão bem com seus olhos azuis oceano. “Ah, ele é mesmo o meu sol” pensei.
- Eu vou fazer amor com você - sussurrou descendo a mão por minha barriga até chegar a minha perna que ele levantou e beijou ainda dentro da calça.
       Olhei espantado para ele, minha voz falhou no mesmo instante e senti os lábios tremularem tal como a vela acesa dentro da lâmpada acomodada sobre a mesa.
- Vai dizer que nunca fez isso com alguém antes, Kyle? - soltou um meio riso.
- E… e você? Também não, certo? - indaguei consternado e envergonhado.
       Ele sorriu como só uma criança bagunceira faria.
- Quem sabe… mas ouso dizer que ninguém chega aos seus pés.
        Qualquer palavra que eu tinha para dizer em desaprovação foi levada como um sopro de vento por outro beijo que também abafava em parte os sons de meus gemidos quando Cameron começou a me tocar o membro cuja ereção palpitava.
       Virei a cabeça de um lado a outro, tentei cerrar os dentes com força, mas quando algo quente e molhado cobriu meu pênis, não houve como conter. Ele me deixava maluco, sem ar, me deixava tão em êxtase.
       A boca dele se movendo devagar, gulosa e ainda assim cuidadosa por toda a extensão de meu pênis era sem comparação. Minha mente ficava em puro branco e tudo que eu conseguia fazer era segurar em suas madeixas loiras enquanto ficava mais e mais louco com seu cabelo roçando vez ou outro minha virilha e com aquele barulhinho preenchendo o cômodo parcialmente iluminado.
Gozei na boca dele. Me sentia inquieto, envergonhado e ansioso como se os anos em que passamos juntos não significassem nada naquele momento. Meu corpo queimava ao seu menor toque e minha razão se perdia no brilho de seu olhar.
         Ele começou a desabotoar a própria túnica vermelha de botões dourados. Segurei trêmulo em sua mão e com seu jeito suave ele foi conduzindo minhas mãos, botão por botão, até que todos estivessem abertos deixando seu tronco nu à mostra apenas para mim.
       Ele segurou meus pulsos e tornamos a nos beijar, longa e lentamente… tinha um gosto diferente, que eu nunca havia experimentado, mas não me importei.
      Em algum momento do beijo senti uma dor absurda no traseiro, como que me abrindo, me rasgando sem aviso.
     Meu corpo estremeceu na cama que rangia de leve sob nós num ritmo tão descompassado quanto meu coração. Finquei os dentes com força em seu ombro na medida da dor e acabei por sentir um leve gosto de sangue. Num momento Cameron me mandou abrir mais as pernas e somente então a dor amenizou um pouco dando lugar a um prazer desmedido a cada estocada.
      Suas mãos que antes seguravam meus pulsos agora corriam vorazes a segurar meus quadris conforme as estocadas ficavam mais fortes, me deixando soltar mais e mais gemidos que eu me controlava para manter num tom inaudível.
        Nós viemos juntos e Cameron caiu em cima de mim, exausto.
    Nossos corpos se moviam como um, procurando por ar e ainda assim continuávamos nos perdendo em beijos.
     Minha cabeça girava de cansaço e meus olhos pesavam quando senti Cameron me soltar um pouco do abraço, contudo, ele não tardou a retornar e ao mesmo tempo colocar um cordão em meu pescoço antes de voltar a me abraçar por trás, ambos nus.
- Roy mencionou que você não queria me atrapalhar… Você nunca vai ser um incômodo para mim, mas me sentiria em paz com minha alma se você levasse uma vida mais tranquila ao lado de nossos pais e irmãs.
        Nada mais me importava agora que eu sabia que meus sentimentos eram correspondidos. Ignorei o que ele havia dito e continuei analisando o pequeno objeto de metal na ponta do cordão entre meus dedos. Era um círculo circunscrito num triângulo de ponta cabeça circunscrito noutro círculo. Entre cada figura ele era vazado, só não diria que era feito por uma criança pois não se tratava de arames, mas de metal.
- O que é? - perguntei me referindo ao pequeno ornamento.
- Se chama Lacrimosa Solar.
- Que nome longo… - murmurei mais interessado por ser um presente de Cameron do que por qualquer significado que houvesse por trás do artefato.
- Guarde bem, Kyle. Caso sinta minha falta, ainda poderemos nos encontrar algum dia desde que não diga a ninguém - me deu um beijo na nuca e me abraçou forte. - Não diga por nada desse mundo.
         Me virei irritado pelo o que ele havia dito.
- Não pense que terá permissão para deixar meu lado - proferi olhando fundo em seus olhos que logo suavizaram.
        Ele me abraçou e acariciou minha cabeça apoiada em seu peitoral.
- Então até que me dê permissão, terei que ficar ao seu lado de protegendo - vi ele sorrir discreto.
Me acomodei no aconchego de seus braços e fechei os olhos sentindo seu corpo junto ao meu, me impregnando com aquele cheiro e calor de sua pele enquanto ele deslizou a mão em uma de minhas nádegas.
      Senti o metal gélido daquele pequeno ornamento entre nós se aquecendo aos poucos com o contato com a pele quente.
      Aquele simples objeto parecia tão pouco, mas para mim era o símbolo de nosso amor, de quando enfim nos tornamos um e ainda assim sentia um aperto no peito com medo do que Cameron queria dizer com nos encontrarmos algum dia… para mim nós ficaríamos juntos para sempre, porque…
O Cameron era meu.

Todo e somente meu.

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