7.2.16

Sight of Sea Capítulo XXII por Kisu


Capítulo XXII - Why Are You Always There?

          Tossia golfadas de água sem parar pela boca e nariz até não ter mais do que ar saindo pela garganta que ardia dolorida.
         Mesmo com as pálpebras semi-cerradas, parecia que eu ia ficar cego a qualquer instante pela claridade. O sol tinia e sentia como se fosse derreter de calor até que senti meus pés e pernas serem tomados por uma sensação de frescor de algo molhado envolvendo-os, sensação essa que logo sumiu e ficava assim, ia e vinha.

          Nem bem começava a associar o que se passava ao meu redor, me arrastaram pela gola e ainda desorientado pude sentir algo correndo fino a atritar por sob as palmas de minhas mãos. Vi uma marca se formando logo afrente, demarcando o caminho por onde meu corpo era arrastado e percebi se tratar de uma praia. Não demorou muito e ouvi o vento assobiando por dentre as árvores cujas copas logo afastaram o sol e senti a areia fria da sombra.
         Me soltaram a gola e minha cabeça bateu no chão, mas a altura era ínfima de modo que não doeu. Olhei ao redor, mas sem forças para levantar não pude ver de onde vinha o barulho de tecido sendo sacudido nem dos passos e das folhas farfalhando no que deviam estar sendo movidas bruscamente.
       Não podia adormecer sem saber onde estava, o que havia ocorrido ou mesmo se estava seguro, mas meu organismo pedia por repouso e eu não encontrava forças para afastar o cansaço que não demorou a me tomar enquanto eu ainda ouvia as folhagens se agitando bem próximas de mim.

                                                ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

         O sol ainda raiava forte quando despertei. Via a praia de onde estava sentado sobre várias folhas largas, recostado no tronco de uma árvore. Diante de mim, havia uma pequena pilha de galhos e na direção oposta da praia uma densa floresta.
       Me levantei e algo me cobriu a visão. Me debati tentando me afastar até que percebi que era um sobretudo ao lado de várias outras peças de roupa dependuradas nos galhos mais baixos da árvore. Só então dei por mim de que estava nu e me apressei envergonhado a vestir minhas roupas estendidas ao lados das que pertenciam a ninguém menos do que Kyle.
         “Quantas vezes contando essa? Não entendo por que ele vive me salvando”, pensei terminando de ajeitar as botas já que não havia encontrado o tapa-olho que usava. Devia ter perdido quando caí do navio.
       “Mais importante, onde está o Kyle?” olhava ao redor, vasculhando a área até ver o caminho de folhas cortadas e de terra pisoteada que seguia floresta adentro. “Ótimo… e lá vou eu atrás de um maníaco assassino num lugar desconhecido sem uma arma sequer. Boa, William!” revirei os olhos, desaprovando minhas próprias ações enquanto andava pela trilha recém aberta.
         Havia momentos em que tudo parecia igual e eu já havia dado tantas voltas que tinha medo de não saber retornar para o mesmo local. Será que eu deveria ter ficado esperando? Havia a possibilidade de encontrar civilização, mas e se ao invés eu me deparasse com algum animal selvagem? - mais selvagem do que o Kyle, acrescentei em pensamento.
      Um calafrio percorreu minha espinha e esfreguei as mãos nos braços, mas logo fiquei imóvel como um jumento assim que uma faca caiu do nada diante de mim, a centímetros de me acertar e eu pulei para trás já tarde o suficiente para perder alguns fios de meus cabelos.
- E não é que é perfeito como isca, cão sarnento? - Kyle gritou em deboche acima de mim antes de descer da árvore e pegar a faca fincada numa cobra que ainda se debatia mesmo com a cabeça perfurada. - Estava procurando frutas ou outro animal, mas assado é tudo comida - disse pensativo, analisando a cobra.
        Fiz uma cara de nojo, ele não podia estar falando sério sobre comermos aquilo. Ainda olhei em volta, mas não via sinal de nada comestível e para piorar, não via água.
Não sabia se devia perguntar, mas Kyle estava tão entretido que não me daria a menor atenção.               Parecia não se importar com o fato de que poderiam haver animais mais perigosos por ali ou de que estávamos num lugar desconhecido sem água ou comida decente e ainda assim, lá estava ele esperando pacientemente que a cobra parasse de se contorcer após lhe decepar a parte superior.
Ele se levantou de costas para mim, mas assim que se virou, meu olhar correu para seu corpo bem delineado, coberto apenas por calças, deixando o tronco e braços bem definidos à mostra em meio às madeixas ruivas trançadas correndo por suas espáduas. Minha boca secou, ou talvez estivera seca por todo esse tempo e só agora me dava conta, e no que ele chegou bem próximo de mim, meu coração bateu mais forte e por um momento me arrependi de estar de camisa já que senti um calor repentino, mas ele passou direto carregando nosso jantar.
- Mexa essas varetas se não quiser virar aperitivo - falou sem fazer menção de diminuir o passo para me esperar.
Não retruquei. Uma de minhas poucas qualidades era reconhecer quando precisava de alguém e nesse momento, minha única chance de sobreviver era contar com Kyle por mais que a ideia me desagradasse. Corri a seguir logo atrás dele, mas não tão próximo, afinal, nunca se sabe o que se esperar dele.
          O dia passou rápido, mas foi bem produtivo se considerar que Kyle tirou a pele da cobra, fez fogo e ainda conseguimos encontrar alguns coqueiros, o que significava “água!”, mas a última experiência não me foi muito relaxante já que a cada côco que Kyle atirava eu estava sujeito a morrer ou no mínimo desmaiar. O único pensamento que me passou nessa hora era que ele estava irritado por ter uma boca a mais para alimentar e cuidar, mas o que ele queria que eu fizesse? Ele simplesmente estava fazendo tudo sozinho sem pedir ajuda e sem me explicar para que eu pudesse ajudar.
          Durante o dia estava quente, mas logo que anoiteceu, esfriou consideravelmente mesmo estando perto da fogueira. Kyle comeu da cobra, coisa que eu não fiz questão, então me contentei apenas com a água e aquela massinha branca de dentro do côco. No dia seguinte eu iria atrás de alguma comida normal nem que eu tivesse que passar o dia andando.
Enquanto estávamos atrás do que precisávamos, não havia problema, mas agora, aquela situação me inquietava. Não tínhamos assunto, na verdade, até tinha, mas eu não era louco o suficiente de me aventurar pela trilha do “descanse em paz por Kyle”.
Olhava para as chamas e a madeira estalava sendo consumida pelo fogo quando Kyle atirou uma faca próxima a meus pés e eu cheguei a arrepiar de susto.
- Fique de vigília, cão sarnento - ordenou puxando virando o rosto de lado já que estava sem seu chapéu. - Não ouse me acordar antes da mudança de turno - murmurou, cruzando os braços sobre o peito.
          “Provável discussão… encerrada” pensei jogando mais um graveto na fogueira.
        Alguns minutos se passaram e tudo continuava igual, Kyle nem saiu do lugar. Olhei para as ondas quebrando não muito distante e fui em direção ao mar após guardar a faca no cinto. A brisa noturna bagunçava minhas madeixas, meus pés afundavam na areia gelada e sentia aquele cheiro salgado impregnando minhas narinas.
          Fiquei anestesiado por um tempo, observando aquela calmaria incessante e sentindo a água gelada por vezes a cobrir meus pés. Por mais que olhasse, não via nada no horizonte além do mar, nem um mínimo sinal de luz a não ser o das estrelas e da lua. Fechei os olhos. “Quanto tempo ficaremos aqui? Algum dia conseguirei voltar para casa? O que há de errado comigo?” pensava.
         Voltei para o acampamento improvisado e sentei em meu lugar, recostado ao tronco de uma árvore tal como Kyle. Aquela pequena escapulida deu impressão de que estava mais quente próximo ao fogo do que antes, contudo, a sensação cálida logo se esvaiu e mesmo me encolhendo e abraçando os próprios braços, batia queixo.
Essa noite ia ser quase uma provação em meio ao frio.

                                                         ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

          Abri parcialmente os olhos com dificuldade. “Quando peguei no sono?” pensei desorientado.
Meu corpo estava quente e confortável como que aconchegado debaixo de um cobertor bem quentinho. Houve um movimento repentino de algo me soltando e um estalido de madeira a queimar.
         Segurei a respiração e congelei quando voltei aos meus sentidos.
Eu não só havia adormecido sendo que deveria estar vigiando, como dormia envolto no aconchego dos braços de Kyle. Estávamos tão perto e minha cabeça repousava em seu peitoral de forma que ouvia claramente o compasso suave de seu coração e nisso o meu disparou frenético a ponto de ser difícil respirar, me remetendo à vez que fizemos sexo.
           Não estávamos do lado que eu ocupava próximo à lareira, ele quem teria me carregado ou eu quem teria ido inconscientemente até ele buscando me aquecer? Achava muito improvável ele se dar ao trabalho de me carregar e enquanto tentava encaixar os fatos, meus dedos se cerraram sobre algo tarde demais para perceber que era a calça dele e nisso ele tinha certeza que eu estava desperto.
- Como devo punir minha propriedade? Não serve sequer para cumprir ordens - balbuciou mordiscando meu lóbulo com força e eu cerrei os dentes não antes de empurrar ele para me afastar, mas seus braços me impediam.
- Eu não compreendo - minha voz custou a sair num murmuro. - Por que você é sempre assim? No que me recusa, no minuto seguinte age como se eu fosse importante. Se você sempre vem me salvar é por causa do… - minha boca secou entreaberta, não saía uma palavra a mais e aquele nome não ousaria sair por meus lábios, porque se eu o fizesse, estaria admitindo para mim mesmo que eu não passava de um substituto de Cameron, então por que me doía tanto ser um secundário qualquer?
Kyle não respondeu. Não era como se não houvesse resposta, talvez ele apenas soubesse tanto quanto eu, o que era muito pouco.
         Senti um arrepio sob o toque de seus dedos esquadrinhando minha face e logo em seguida chegando ao olho que até uns dias estava roxo e inchado. Ele afastou o dedo sem interromper o toque no que levantei meu olhar de encontro ao seu.
          Não conseguia discernir sua expressão. Era uma verdadeira incógnita em que eu me prendia como um inseto atraído pela luz sem saber dos perigos que dela emanavam.
Seus lábios se aproximaram e eu desviei a face consternado, mas no que o fiz, seus dedos se agarraram em minhas madeixas sem dó e mesmo em meio a dor, meu corpo se aqueceu quando nossas bocas se encontraram.
          Minhas unhas arranhavam por sobre sua camisa em meio àquele beijo que me consumia a sanidade e me levava ao chão tendo Kyle ainda a deter meus cabelos sob seu toque firme.
Me detinha segurando em seu sobretudo ouvindo os barulhinhos que seus lábios faziam conforme desciam por meu pescoço e encontravam a pele de meu corpo sob a camisa já erguida. Cerrei a mão inutilmente em punhados de areia que joguei nele. Seu olhar bravio me fuzilou antes de desferir um soco em minha face e puxar meus cabelos em sua direção, novamente adentrando sua língua à procura da minha.
        “O que está acontecendo comigo? Por que me sinto sem forças para reagir?” meus pensamentos se irrompiam com um gemido que me escapulia pelos lábios trêmulos e minha mente se perdia em delírios inexplicáveis.
        Minhas calças desceram pelas pernas e Kyle começou a me masturbar. Seus toques eram sempre tão intensos como se em cada um, em cada gemido que eu tentava conter, ele demonstrasse que eu lhe pertencia, mas…
         “Eu nunca fui dele…” pensei triste, desviando o olhar excitado daqueles cabelos quentes como fogo para a copa das árvores levemente iluminada de vermelho, mas logo aquela visão foi trocada por seu rosto próximo ao meu a procura de meus lábios e inevitavelmente, fiz o mesmo, embriagado por aqueles olhos que nunca me veriam de verdade e por aqueles lábios que não beijavam realmente a mim.


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