16.2.16

Sight of Sea Capítulo XXIII por Kisu


Capítulo XXIII - Once More, I’ve Found Myself Looking at You

          Me enfiei no meio da mistura de galhos, empurrando umas folhas largas que me atrapalhavam o caminho e bloqueavam a visão e dei de cara com uma pequena cachoeira. Me pus a correr, mas após o primeiro passo, tropecei e cai num baque na terra úmida e fofa.
- Que diabos se passa contigo? Finalmente temos água! - argui bravo pela rasteira que Kyle me dera. Me levantei e sacudi a terra da roupa nada limpa a essa altura.
- Vá em frente para o pós-vida, cão sarnento - grunhiu passando por mim e eu fechei a cara.
“A única coisa boa de estar preso nessa ilha com o doido varrido do Kyle é que ele não me bate pra matar” pensei relembrando os últimos dias e as vezes em que apanhei não se comparavam ao período em que passei ao lado dele em alto-mar.

           Demos a volta procurando o melhor caminho para descermos e encontramos uma pedra pela metade do caminho, alta o suficiente para um pulo em segurança, contudo, descemos até o sopé e vi Kyle concentrado em seja lá o que for, olhando a água por um tempo antes de me atirar duas carcaças de côco que trazia consigo para que eu enchesse.
- Não dê um gole sequer sem minha permissão se quiser continuar a respirar - ameaçou me dando as costas, mas ele não tomou a direção de que viemos, ia pelo caminho contrário.
       Me apressei a alcançá-lo e depois de caminharmos pelo o que pareceu metade do dia, retornamos ao acampamento. Meus pés doíam dentro das botas e meus braços estavam dormentes de carregarem peso por tanto tempo, mas o que mais me angustiava era a sede, contudo, antes que eu pensasse em beber, ele jogou algo dentro de cada carcaça que fez a água borbulhar a ponto de sair vapor.
Agora era impossível beber! Pensei irritado, mas a raiva logo desapareceu quando ele me entregou um dos côcos que tínhamos pego no dia anterior e me ocupei de beber para amenizar o cansaço.
        Limpei a boca com as costas da mão, já sentindo a fadiga sumindo aos poucos e notei que Kyle não estava mais por perto. A ausência dele me deixava inquieto, mas também me acalmava. Por um lado eu me mantinha ocupado ou irritado o suficiente para não ter oportunidade de pensar demais, mas também me sentia desconfortável com o coração quase a sair pela boca apenas de olhar para ele.
         Joguei mais gravetos secos para alimentar o fogo e fui para a praia. Assim que olhei para o lado, vi pegadas que se distanciavam. Kyle devia estar no que passei a considerar como seu espaço pessoal já que nos últimos dias ele sempre ficava lá parado, às vezes a olhar o mar, outras a desenhar na areia, porém eu nunca conseguia ver o que era, pois ele sempre apagava ao menor sinal de que eu estava por perto.
       Sentei na areia e joguei a cabeça para trás, me permitindo sentir o vento e olhar o céu em seu fim de tarde.

        Sacudi a cabeça e com o dedo desenhei sem mais nem menos cinco pauzinhos. Cinco dias e apenas hoje encontramos água. Nos últimos dias encontramos ao acaso uma bananeira e uma área de recife onde vimos alguns peixes, mas tivemos que desistir deles depois de horas sem conseguirmos pegar sequer um mesmo com uma lança improvisada. A alternativa foi caçarmos, mas tudo o que encontramos foram animais de pequeno porte, como roedores e isso ainda fazia meu estômago revirar. O lado bom é que parece que o único animal perigoso era a cobra do primeiro dia.
“Quanto tempo mais ficaríamos aqui?” pensei irado chutando um monte de areia, mas logo que o vento bateu e os grãos voaram todos em cima de mim, me arrependi cuspindo areia e passando a mão na roupa.

                                                       ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

           Três dias a mais se foram, o que queria dizer que estávamos presos no mesmo local sem a menor possibilidade de sermos resgatados, por isso estava construindo uma balsa!
Kyle riu da ideia há alguns dias e desde então não fez questão de ajudar. A minha ideia era usar dois troncos paralelos em cada extremidade como base e por cima iriam troncos mais finos em sentido oposto aos da base, tudo unido por cipós. Pena que na ideia era mais simples do que na execução e mesmo já tendo conseguido os troncos, não estava conseguindo amarrar a ponto de deixar tudo junto e compacto como imaginava.
         Ainda brigava com os materiais quando vi Kyle deixando o acampamento em direção à floresta e me distraí a olhar ele se afastando. Desde o primeiro dia, ele não havia ousado encostar em mim mais do que o necessário. Até para evitar situações constrangedoras como dormirmos juntos devido ao frio que fiz um amontoado de folhas secas num ponto em que havia menos ventilação durante a noite. O que me intrigava, era por que meu coração batia tão forte apenas com o leve vislumbre de Kyle. Eu devia estar imaginando ou no mínimo estava adoecendo.
Ouvi o barulho de algo se chocando contra a água enquanto estava distraído.
“Não, não, não, não!” corri apressado para salvar uma das toras que tanto me deu trabalho de cortar com uma pedra improvisada de machado.
        Quando terminei de prender tudo do jeito que imaginava, horas haviam se passado e a estrutura não parecia tão firme e segura quanto esperava, mas eu faria a checagem no dia seguinte.
Joguei mais gravetos no fogo e esperei que começassem a queimar antes de entrar na floresta em direção à cachoeira. Havíamos encontrado um caminho um pouco mais distante que dava direto ao sopé e antes de chegar muito próximo, vi Kyle sentado numa pedra lisa pela metade da altura da cachoeira, local que passou a ser seu segundo cantinho.
Ao contrário da visão que eu tinha dele na praia, a visão dele sentado nu sobre a rocha, me deixava bem mais desconcertado e às vezes me pegava olhando sua figura serena banhada por poucos feixes de luz que atravessavam por entre as copas das árvores, deslumbrado por horas afins sem que ele notasse minha presença.
           Queria saber o que tanto ele pensava, estaria ele relembrando de algo ou apenas matando o tempo?
        Quase me sentei sem motivo aparente para observá-lo mais, mas antes que o fizesse, Kyle saltou para dentro da água, contudo, ele não tornou a emergir. Esperei um pouco e nem sinal dele.
Meus pés se moveram contra minha vontade e me aproximei às pressas, vasculhando a superfície da água com o olhar. Cheguei a tirar as botas e a camisa, mas assim que dei os primeiros passos na água, eu travei.
Não sabia nadar. O que estava pensando querendo fazer algo quando eu mesmo não tinha condições de fazê-lo?
Sopesava minhas opções quando meu olhar correu para um ponto em que a água se espalhou aos montes em várias direções dando espaço aos cabelos ruivos de Kyle e logo ao seu rosto.
Ia dizer algo, brigar com ele por me deixar preocupado.
        “Espera, por que eu estava preocupado?” pensei e nisso fechei a boca antes de proferir qualquer palavra e fiz de conta que não sabia que ele estava ali.
Não sei por que ainda tirei a calça sendo que ela já estava praticamente molhada antes de entrar totalmente na água numa altura boa o suficiente para me permitir ficar à vontade enquanto lavava o corpo, afinal, era por isso mesmo que eu estava ali.
Como estava ignorando Kyle, só reparei nele quando passou bem perto de mim, quase a me tocar.  
      Encolhi, mas ele também parecia me ignorar e vi sua figura nua de costas se afastando após deixar a água e seguir para a árvore onde suas roupas estavam dependuradas. Por um minuto, senti falta de ar por esquecer de respirar e por pouco não me deu um murro por estar pensando no quanto Kyle era sensual.
As maçãs de meu rosto aqueceram e senti um desconforto lá embaixo. Kyle se virou mirando em minha direção sem realmente me ver e mesmo assim meu sangue correu quente e me senti idiota por imaginar ele me tocando possessivo, sentindo meu corpo com seus dedos enquanto puxava meus cabelos…
          Não! Isso não era possível, não podia ser! Não podia estar acontecendo, não por Kyle, não por homem nenhum! O que se passou entre nós não era nada mais, nada menos que degradante, horrendo e nojento!
          “Uma atitude indigna de minha posição como príncipe e essas reações são culpa dele, sim, é tudo por causa do que ele fez comigo!” me forçava a acreditar nessas palavras e as murmurava para mim como se ouvir pudesse torná-las mais palpáveis.
Naquela noite, eu mal pisquei os olhos. Estava inquieto, atordoado e mesmo cansado não conseguia relaxar o suficiente para dormir. Não conseguia tirar aqueles pensamentos impróprios que me remetiam a um estado de contínua excitação.
Nem bem amanheceu, me pus a ficar ocupado com a balsa. Terminei de ajeitar os detalhes e fiz uma vela improvisada com folhas. Gostava de pensar que parecia o trabalho de um verdadeiro artesão.
          O sol não havia nascido de todo, mas do pouco que me recordava dos mapas que costumava estudar no castelo, devia existir civilização por perto e queria a todo custo evitar de carregar peso desnecessário, então não levaria suprimento.
          Olhei para o acampamento e vi Kyle alimentando o fogo com desinteresse aparente.
“Boa sorte para ele se pretende ficar aqui o resto da vida, eu vou é embora” pensei empurrando minha mais recente proeza para a água. Quando os pares de toras maiores estavam totalmente submersos dentro d’água, subi nela. Ela balançou, mas logo se estabilizou. Se não houvesse risco de cair no mar, pularia em comemoração, mas me contentei em apenas gritar “isso!”.
Comecei a remar com um tronco mais fino cujas pontas haviam sido customizadas para formar um remo. Olhei para trás e Kyle estava igual, não fez a menor menção de olhar para mim.
            Remei mais algumas vezes, estava perto de sair da área de ondas quando ouvi algo se rompendo, mas nada vi. Continuei a remar e ouvi mais um barulho, mas dessa vez vi água espirrando por um pequeno buraco no meio da balsa. Depois mais um e mais um até que a balsa entrou num verdadeiro início de naufrágio. Me joguei sobre as toras, tentando impedir a água com o corpo, mas de nada adiantou.
        No fim, as toras se soltaram dos cipós e se espalharam enquanto eu consegui me agarrar rapidamente a uma delas.
Fui arrastado pela correnteza até a praia, mas não demorou por que eu dei umas pernadas para acelerar.

Joguei meu corpo cansado de costas sobre a areia e lá fiquei recuperando o fôlego. O sol estava alto quando cheguei no acampamento improvisado e parei furioso diante de Kyle.
- É tudo sua culpa! Você sabotou tudo para que eu continuasse preso nessa maldita ilha! Por isso desde o início se recusou a me ajudar - esbravejei com os nervos à flor da pele, puxando enraivecido o sobretudo dele pelo colarinho.
Ele se soltou com uma facilidade absurda de meus dedos trêmulos e me jogou de costas por sobre a areia enquanto prendia meu braço às costas com uma de suas mãos e com a outra puxava minhas madeixas castanhas quase loiras me forçando a olhar para ele.
- Quando dei permissão para elevar a voz diante da minha pessoa? - ele disse ríspido e carrancudo, apertando ainda mais minhas madeixas e eu cerrei os dentes com dor. - Há uma maneira de sairmos dessa ilha, mas o que está disposto a me oferecer para tanto?
Eu estava errado. Era claro que não havia sido culpa do Kyle, mas não havia mais ninguém em quem pudesse descontar meus próprios deslizes como forma de diminuir o desespero que vinha tomando conta de meu ser nos últimos dias.
Ademais, por um momento, me lembrei de haver passado por semelhante situação e foi pouco depois de ser recebido por Aaron, o filho do ferreiro, em Nab’ha.
- Você já tem minha obediência, o que mais poderia querer?
Sua face se aproximou da minha e pude sentir sua voz soprando atrás de minha orelha, me provocando um arrepio.
- Dê-me seu corpo - ele sussurrou com um tom atrevido e um tanto sensual.

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