19.3.16

Mel Caramelo e Chocolate Rewrite Capítulo 99 por Mel Kiryu


Capítulo 99 ... Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno.*

      Terceiro fim de semana do mês de outubro

       Ao desembarcar na paragem final do ônibus no Vilarejo de Okami, estranhou o fato de Hanae estar sentado sob a marquise do ponto, trajando um kimono cinza com detalhes em azul escuro, sem o costumeiro chapéu preso à base de seu rosto. Seu cabelo preso num discreto rabo-de-cavalo e os olhos meigos-sensual mais sérios que o esperado.  
    Nunca havia acontecido de Hanae encontrá-lo, ele sempre esperava por Kitsune em seu bangalô que ficava próximo ao templo do vale.

    Hanae se ergueu logo que Kitsune desceu do ônibus, sorriu-lhe com terna discrição e saíram caminhando juntos, lado a lado.
__Aconteceu alguma coisa, Hanae?
__De fato... Aconteceu.
__Aquele cavalo que estava aos seus cuidados... Não sobreviveu?
__Aquele cavalo vai ficar bom... Vim te encontrar, porque... Nós não podemos mais ficar juntos durante os finais de semana no bangalô.
     A voz de Hanae soava tão calma, mas Kitsune o olhava inquieto, já remoendo o que de ruim estava por vir.
__Eu não sou mais aceito pelos monges para ser o guardião das terras do Templo.
__Mas... Você tem sido o guardião por tantos anos...
__Antes eu era apenas um ex-monge solitário que cumpria meu legado... Agora eu estou envolvido não apenas com uma pessoa do mesmo sexo... Mas, com um adolescente.__ Hanae comentou observando vago a paisagem que se descortinava enquanto caminhavam.__ Para os monges e um certo lavrador... Eu sou um ser humano desprezível demais para meu antigo serviço.    
     Kitsune parou de andar, encarando o chão, algo mortificado.
__Isso... Isso é tão injusto...!
__Kitsune...
__Não!... Eles não podem fazer isso contigo!...__ Kitsune esbravejou trêmulo, metendo a ponta do tênis em uma pedrinho no caminho.__ Aquela é sua casa, seu trabalho...
__Não é mais minha casa... Eu vou me mudar.
__ E a culpa é minha...__ Kitsune ergueu a face, os olhos como duas poças.__ Olha o que eu fiz por querer entrar de vez em sua vida...
__Kitsune... Está tudo bem.
__Como... Como você diz uma coisa dessas?__ Kitsune virou-se de lado, tentando limpar disfarçadamente as lágrimas que se insinuavam.__ Por que estaria tudo bem, Hanae?
__Eu consegui outro emprego... Num Haras em Hajiketa.
    A luz do dia passava por entre os galhos, iluminava a estrada de barro, a figura de Hanae.
__Hajiketa?... Hanae... Você vai se mudar para onde eu moro?
__Não dentro do Vilarejo... O Haras fica numa estrada de barro em declive que corta a região de Hajiketa e consegui alugar uma choupana.
    As lágrimas secavam devagarinho sob os olhos de Kitsune, também havia o estopor, a incerteza galopante em sua face.
__Como?... Como isso tudo foi acontecer em apenas uma semana?
__Um dos monges, que ainda me aceita como amigo... Foi ele que fez uma recomendação ao proprietário do Haras, a verdade é que sempre tive facilidade em lidar com cavalos.
    E a mão de Hanae pousou numa discreta carícia em seu ombro ao passo que se olhavam em meados da estrada de barro.
__Agora entendi...__ Kitsune suspirou, entortando de leve a boca na metade de um sorriso.__ Vamos ficar bem mais perto um do outro, né? É por isso que diz que está tudo bem...
    Kitsune desviou mais uma o olhar se sentindo bobo, o que acontecia com frequência.
__Verdade...__ Hanae assentiu baixinho, contendo a vontade de tomar Kitsune em seus braços.__ Fiquei apreensivo quando tive que assumir para o responsável do Templo que estava namorando um garoto de dezessete anos... Ainda mais sob o olhar afiado de Honoka que foi quem contou aos monges que o homem que guardava as terras do Templo... Não passa de uma bicha.
__Que merda...__ Kitsune fungou, tocando a mão de Hanae pressionando afetuosa seu ombro.__ É assim que Honoka te paga depois de ficar uma semana inteira cuidando do cavalo dele?... Isso não está certo, não mesmo... Hanae.
__Honoka não quer mais o cavalo, já que a pata que foi lesionada nunca mais será a mesma.__ Hanae replicou abraçando sutilmente os ombros de Kitsune e os dois saíram caminhando juntos pela beira da estrada.__ Então, acho que posso considerar o cavalo como meu... Nunca tive tanto que pudesse chamar de "meu" e apesar dos olhares tortos que venho recebendo... Não lembro de me sentir tão feliz.
     E andar abraçados também se tornava pouco para Hanae, mas por hora tinha que se contentar. Faltava pouco para ter o tempo que queria ao lado de quem tanto gostava.
    Mesmo Kitsune elevou seu braço timidamente segurando no kimono de Hanae, sentia o cheiro da tez dele no tecido e seus pés pareciam flutuar.    
    Num dado instante que caminhavam Kitsune se recostou contra o ombro de Hanae, mas desistiu quando uma caminhonete vinha na direção oposta, passando por eles um pouco depois.
    Por que?
    Por que os moradores de Okami não podiam compreender?
    Aquele homem mais velho vestindo um kimono e o rapaz com seu jeans não caminhavam abraçados para provocar ninguém.
    Eram apenas duas pessoas que se gostavam não importando se eram do mesmo sexo, ou mesmo se tinham idades em números tão distantes que mais pareciam pai e filho.
    Se aos olhos de terceiro os dois eram transgressão, aos olhos de Kitsune era seu modo de viver o que podia ser seu maior e mais proibido amor.


Nota da autora: *Trecho da música Cálice de Chico Buarque de Hollanda e Gilberto Gil.

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