4.3.16

Sight of Sea Capítulo XXIV por Kisu


Capítulo XXIV - Lemme' use, Lemme’ be used

           “Dê-me seu corpo”… Essas palavras ecoaram em minha mente como se eu tivesse ouvido errado e mesmo que um arrepio tivesse percorrido minha espinha, o senso comum que carregava comigo dizia que não, que não passava de uma loucura inapropriada, indecorosa e eu me debati com todas as minhas forças mesmo que significasse comprar briga com Kyle.
A areia nos envolvia em meio a puxões de cabelo, chutes e socos e enfim nos desvencilhamos com um tapa forte que lhe dei na face.

- Não ouse me desonrar ainda mais! - esbravejei atônito não apenas pelo pedido de Kyle, mas por não saber por mais quanto tempo continuaríamos presos nessa ilha, por não saber o que se passava comigo mesmo internamente. - É sempre assim desde nosso primeiro encontro. Ora me bate pronto para matar, ora me assedia mesmo que ambos sejamos homens. Uma hora me afugenta para que não queira saber mais sobre você, depois me conta seu passado tão facilmente. Posso estar preso a você naquela droga de navio ou nessa maldita ilha, mas não sou seu brinquedo e nem um substituto - apenas então eu percebi que gritava a plenos pulmões.
       Respirava rápido e cerrava os pulsos antes de passar a mão aberta nas madeixas de tom castanho-loiro e me levantar intrigado.
- Saqueia navios e mercadores, mas não quer dinheiro nem títulos em troca do “príncipe”, clama por vingança contra nobreza, mas cá estou vivo. O que queres de mim afinal? - meu tom já era mais baixo e fraco, mal passava de um sussurro antes de me virar e entrar correndo floresta a dentro, sem dar chances de Kyle revidar ou retrucar.
         E eu corri. Corri o mais rápido que pude. As botas deslizavam pelo musgo e pela terra levemente úmida e fofa, e as folhas e galhos ricocheteavam direto em minha face e corpo por mais que tentasse afastá-los com as mãos.
Eu não era assim antes, nunca havia perdido minha compostura tão facilmente antes de conhecer o Kyle.
         Sem saber para onde ia, acabei pisando em falso e desci escorregando enquanto tentava segurar no que via pela frente até conseguir me amparar num galho que corria rente ao solo, ação que me causou alguns arranhões pelos braços e muita dor pelos músculos doloridos de tanto carregar peso para construir a balsa.
         Algumas pedras continuaram deslizando pela encosta íngreme enquanto eu me acalmava segurando naquela espécie de raiz até que enfim me ergui para recostar ao tronco de uma árvore.
“Perguntar para um pirata o que significo para ele”, não pude evitar de rir de meu próprio pensamento ousado. Eu não devia estar em pleno juízo e tive inclusive vontade de me bater. Piratas saqueavam, matavam, estupravam. Perguntar a um deles se tinha sentimentos era o mesmo que falar com uma rocha, afinal, o próprio Kyle devia ter jogado fora seu lado humano quando Cameron faleceu.
           A culpa não era minha, era tudo por passar tempo demais longe de casa e de “civilização” normal que Kyle mexia tanto comigo e me deixava confuso e inconsistente em demasia. Por vezes esquecia que era um príncipe e como um estaria fadado ao dever de sempre suportar certas situações contra meu querer. Por mais que me desagradasse a ideia, eu sabia o que devia fazer agora. Se Kyle não iria me tratar como moeda de barganha em troca de favorecimento e tesouros, me restava usar e ser usado até conseguir minha oportunidade de fuga.
        Ouvi um barulho e me ajeitei, alerta para o caso de ser algum animal feroz. Olhei ao redor me dando conta de que não sabia onde estava, apenas da direção de onde havia vindo correndo mais cedo.
        A copa das árvores escondia o sol, mas pela pouca claridade que passava pelas folhas como feixes de luz e considerando o horário que saí da praia, devia ser quase final de tarde e só então notei que meu estômago roncava loucamente ansioso por comida, fato que me distraía de meu atual problema.

         O som de folhas se movendo e sendo pisoteadas de leve se aproximava e engoli em seco mais que ciente de que me encontrava desarmado, embora pelo som pudesse discernir que se tratava de um animal de pequeno porte. “Pelo menos nesse quesito serviram aquelas caçadas com Thomas”, pensei.
        O barulho cessou por um instante e estava atento ao menor movimento que fosse até que minha barriga roncou alto e corri a abraça-la para que parasse. Nisso, algo apareceu na minha frente e não pude deixar de ficar imóvel. Era um coelho preto de orelhas levemente brancas que mexiam vez ou outra conforme ele andava e farejava tranquilamente, por vezes balançando o rabinho.
          Ele chegou a me encarar antes de começar a se afastar sem dar muita atenção. Minha boca salivou com o pensamento do gosto da carne e me levantei bem devagar, caminhando sem pressa em sua direção. Quando estava prestes a pegá-lo, ele escapuliu. E de novo e de novo até que ele já corria e eu ia desengonçado a seu encalço.
        Em algum momento, tropecei por tempo suficiente para o perder de vista.
       Ótimo, tinha deixado o coelho escapar e ainda por cima estava perdido e faminto, mas talvez tenha sido isso que me salvou depois de sentir aquele cheiro de frescor, de terra molhada que vinha não muito de longe.
        Me levantei e segui na direção a que meus instintos guiavam até ouvir o barulho de água corrente que ficava mais forte a cada passada.
       Quando cheguei próximo o suficiente, toda a fadiga de meus músculos pareceu sumir de repente e fechei os olhos para sorver daquele cheiro.
       Dei mais alguns passos em direção ao caminho que levava ao sopé da cachoeira, mas logo pela metade, reparei numa figura sentada na ponta da pedra ovalada incrustada ao lado da margem da cachoeira e tal como ela, me sentei por impulso no solo de onde me encontrava.
        A cabeleira ruiva trançada escorrendo pelas costas nuas até o traseiro igualmente desprovido de qualquer peça de roupa. Cheguei a sentir falta de ar ao me dar conta do quanto eu realmente admirava a beleza do corpo de outro rapaz. Os músculos bem definidos, o contorno bem delineado de suas mãos. Porém, eu ficava ainda mais sem ar pela sensação de serenidade tão incomum para mim em sua pessoa e que eu podia sentir naquele momento ao vê-lo sentado tão relaxado.

        Não cansava de observa-lo, percorrendo com os olhos cada parte de seu ser de costas para mim.
Tão inerte e absorto naquela cena, cheguei a me assustar quando ouvi sua voz me chamando à sua maneira crua, mas tinha uma certa calmaria inusual que me atraiu para que eu me aproximasse ainda que acanhado.
       Estava a dois passos de distância e ele pediu que me aproximasse mais. Parei a seu lado ainda de pé e me senti tentado a olhar suas partes íntimas se não fosse sua expressão também tão tranquila ao contrário do habitual a me chamar a atenção. Ele virou o rosto a me olhar e senti como se fosse outra pessoa ao meu lado, alguém que eu não conhecesse.
        Sua mão segurou meu pulso e meu rosto se aqueceu de imediato, mas antes que eu proferisse qualquer palavra, ele me puxou pela mão e segundos depois eu caía cachoeira abaixo.

2 comentários:

  1. bom dia kisu eu acabei de ler sight of sea estou adorando, por favor poste o capitulo 25 ansiosa pra continuar lendo. a historia esta maravilhosa.

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    Respostas
    1. Dineia, já coloquei nos comentários os links que você queria de Deviant.
      Sobre os capítulos de Sight of Sea, às vezes demora um pouco, porque a Kisu está fazendo faculdade e estágio.

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