12.4.16

Boys Out of Print Capítulo II por Mel Kiryu


Capítulo II

      Durante aquele intervalo, zanzando pela quadra da escola, mais um vez Stephen e Lysander conversaram sobre música, como se nunca um tivesse presenciado as lágrimas do outro no banheiro masculino.
    A sexualidade de Stephen parecia um detalhe sem importância perto da afinidade que tinham como amigos.
    Contudo, depois daquele dia começaram a andar mais juntos e não ocasionalmente como era antes.
    Em um desses dias, Stephen se viu enfiado na casa de Lysander.
    Não sabia que ele vivia com o pai, o avô e uma irmã mais nova e que seu quarto era pequeno, tendo uma cama de solteiro, uma cômoda de seis gavetas, alguns livros que guardava empilhados ao lado da cama e seu violão.

    Stephen carregara consigo seu violino, certa vez tinha contado que tocava um instrumento, mas nunca tinha dito qual era.
    Aquele dia no quarto de Lysander foi a primeira vez que suas vozes pouco se manisfestaram ao colocarem o violão e o violino para conversarem intimamente.
    Quando viu aquele case de veludo cor indigo pendurado no ombro de Stephen, não escondeu o quanto estava surpreendido.
__Nunca pensei que o instrumento fosse justo um violino.__ Lysander observou sentado na beira de sua cama, o violão apoiado em sua coxa.
__Ora... Toco desde os seis anos por insistência da minha mãe.__ Stephen rebateu manhoso, fazendo um pretenso biquinho com os lábios.
__Surpreendente.__ Ele riu.__ 'Bora tocar? Quero ver esse lirismo com pitadas de Rhythm blues.
    Stephen não sabia bem porque, mas abriu o case de veludo indigo tomado por certa ansiedade.
   A música por si, o ato de fazer soar as notas num conjunto harmonioso já fazia palpitar seu coração.
    No entanto, a música com Lysander o descompassava ainda mais.
    Foi num médio período de tempo que um dia Stephen se questionou, quando deu por si não pensava mais no rapaz que tinha desprezado sua declaração amorosa à viva voz. Não estava mais sofrendo, a paixão de outrora definhara simplesmente.
    E tornou-se comum que os dois tocassem um repertório juntos, às vezes na casa de Lys e n'outras no apartamento onde Stephen morava com os pais.
    Nos dias que se passaram, estava em seu quarto em meio a partituras e a desorganização comum: xícara suja com borra de café com leite na mesa de cabeceira, lápis e canetas fora da latinha de Heineken com o fundo coberto de resquícios de lápis apontados, algumas roupas usadas no puxador do guarda-roupa.
      A janela aberta, a cortina a esvoaçar.
          O case do violino aberto sobre a cama, com seu pensamento a voar vastamente.

       "Desde que chorei pensando estar sozinho no banheiro da escola, Lys e eu ficamos mais ligados... Nós éramos apenas colegas que jogavam conversa fora na hora do intervalo, mas já faz algum tempo que a gente se encontra para ensaiar, a gente se vê todo dia na escola e se encontra tipo a cada três dias... Quando ele não liga para marcar, fico ansioso... Então eu ligo e ele nunca me diz não... Isso é ruim, porque sinto falta dele e sei que não deveria!... Eu sei muito bem onde isso vai me levar e mesmo assim quero ouvir a voz dele animada querendo ensaiar algumas músicas... Só que ele está a um passo de terminar o terceiro ano, quando ele sair da escola vou ficar de novo sozinho."

      Stephen tirou o violino do case junto com o arco. Apoiou o instrumento na clavícula, a mandíbula sobre a queixeira como se fosse tocar, contudo acabou desistindo a exalar um pequeno suspiro.

       "Pensando bem... Nós não costumamos conversar sobre nós dois. Mas, eu sei... Eu sei que ele se sente pouco valorizado na casa do seu pai, reparei que a irmã menor dele é que tem o maior quarto, é quem tem todas as atenções. Ele nunca me disse, mas já surpreendi o rosto dele sério e frio quando precisa encarar o próprio pai e para o avô o Lys nem parece existir."

      Stephen se deixou cair de costas na cama a sentir a brisa penetrar no quarto através da janela, o violino sobre seu abdômen e o arco posto transversal sobre seu peito, seus olhos encaravam o teto branco.

     "Quando estamos juntos vejo o Lys sorrir... E tê-lo por perto também me fez esquecer de tudo que me deixava triste, será que ele tem essa mesma percepção do que eu? Queria saber o que ele pensa sobre mim, sobre nós dois... Ele diz que não liga se sou gay, mas o que ele diria se soubesse que ele sempre está no mesmo pensamento?... Vou estragar tudo se disser algo assim em voz alta... Se Lys risse, se dissesse também que cometi um equívoco... Mas, também não quero que ele acabe indo embora para a faculdade sem saber o que eu sinto."
 
         Sentou-se abrupto na cama, respirou fundo.
       Ergueu-se como num pulo e foi caçar o celular no bolso de uma calça pendurada no puxador por trás de uma camisa de manga longa.
      Digitou às pressas uma mensagem, releu e corrigiu as letras que faltavam e clicou em enviar.
 
   Nota da Autora: Desculpe a demora em postar a continuação, para reler o capítulo I caso precise relembrar os fatos, acesse AQUI.
 
   

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