26.5.16

O Segundo Anjo - Crônicas de Antuerpéria Parte 2 Chapter 7 por Mel Kiryu


Parte 2 Chapter 7   A malícia, essa velha conhecida

     Shou precisou de um tempo sozinho.
   Caminhou sem se distanciar muito do jovem rapaz ruivo, achou alguns arbustos frutíferos e enquanto lambia o dedo sujo pelo sumo das pequenas frutas veio-lhe a recordação do último lugar que estivera.
     O Tabernáculo de Antares.
   Sua tentativa de voltar ao planeta Terra usando o feitiço conjurado por Zessiel tinha falhado, era evidente que ainda estava preso em Antuerpéria, no mundo remoto de Finis Tempore.
    Zessiel estava morto.

    E agora, também tinha se perdido por completo de Etzel.
    Poderia manifestar suas asas e sair a sua procura, mas nem sabia por onde devia seguir.

   "Eu podia tentar perguntar às nuvens ou tentar reconhecer a paisagem durante um voo panorâmico... Mas, as chances de piorar minha situação nesse lugar apenas aumentariam..."

    Ainda mais tendo o ombro ferido... Aliás, isso o intrigava.
    Por que não conseguia curar seu ombro? Nunca precisara usar, mas ouvira a conversa entre outros anjos que alguns eram dotados com poderes curativos.
        Será que esse poder não se aplicava a sua existência tão antiga?
      Para as respostas sobre si mesmo necessitava de tempo, para outras apenas tinha aquele rapaz ruivo para contar.
                                                         ****************
                          Quando retornou na direção do casebre abandonado ao final daquela tarde, encontrou uma fogueira crepitando há alguns metros da antiga construção.
      Descobriu que o jovem ruivo havia drenado o lobo abatido, arrancado-lhe toda a pele e eviscerado o animal, pelo tempo que ficara caminhando surpreendeu-se pela rapidez, pela destreza em limpar a carne dos órgãos internos.
    A carcaça limpa do que havia sido um lobo assara lentamente sobre a fogueira.
    Somente tornaram a conversar ao cair da noite, enquanto comiam da carne de lobo temperada com ervas da mata.
    Próximos as chamas ainda a crepitar.
__Quando entrou para os arredores da mata... Achei que fosse embora sem se despedir.
__Não...__ Shou replicou voltando seu olhar para o rapaz.__ Eu não poderia, não depois de tudo que fez por mim.
     Enquanto observava o jovem iluminado pelo laranja vívido das chamas, tornou-se um tanto desconcertado quando de súbito os olhos verdes dele se prenderam aos seus e ele se inclinou num gesto seco e sem reservas a tocar suave seu ombro ferido.
__Como está o ferimento?
__Ainda incomoda... Não tirei a blusa para olhar, nem se quer lembro como fui me ferir assim.
    Shou engoliu a seco no que se deu conta que os dedos do rapaz terminavam de trançar o couro a fechar um pouco mais a abertura do tecido sobre seu peito, essa proximidade o enervava, o desprovia de qualquer ação.
__Você é sempre tão indefeso assim? Se foi se ferir desse modo, é porque baixa a guarda facilmente.
__Por que eu não confiaria em você? Cuidou de mim por dois dias mesmo sem saber nada ao meu respeito.
    O rapaz nem terminou de trançar o couro da blusa e segurou mais forte no fim da gola, havia certa severidade crítica em seu olhar semi encoberto por seu cabelo vermelho.
__Inacreditável que exista em Antuerpéria alguém como você! Não confie tão facilmente... Quando te encontrei na beira do rio, considerei deixá-lo morrer.
     Mesmo ouvindo atentamente as palavras duras, Shou continuou retribuindo o fitar, suas mãos tocaram suavemente os pulsos do rapaz.
__Primeiro porque vestia roupas de mago e eu desprezo quem depende de magia.__ Jang continuou mantendo a aspereza do olhar, embora sua voz já não soasse tão fria.__ Acabei te levando até a cabana vazia e quando troquei suas roupas molhadas... Vi a marca estranha em forma de asas que tem nas costas, isso é símbolo de alguma maldição?
     Os lábios de Shou entreabriram úmidos, queria responder, mas sua voz se negava a abandonar os confins da garganta. Nunca tinha pensado em suas asas como um signo de maldição, eram parte preciosa de sua existência, o sinônimo de sua liberdade.
    Foi após um silêncio curto e pesado que Shou replicou com uma suavidade desconcertante:
__Por que asas seriam símbolo de maldição?... E eu não sou mago, se quer mesmo saber...
    Os dedos do rapaz abandonaram o tecido de sua blusa e suas mãos soltaram no susto os pulsos, a pele dele tão quente pulsando junto aos seus dedos.
     Jang encarou as chamas, comeu um pouco mais parecendo mergulhado em seus mais profundos pensamentos. Quando em verdade seus sentidos quase nunca saíam do estado de permanente alerta e no fundo não poderia se sentir mais irritado porque havia algo que o atraía fortemente quando colocava seus olhos naquele estranho de cabelos azuis.
     E Shou estava absorto em sua tímida observação a cerca do rapaz ruivo, esfregou sem perceber a manga da blusa bege em seus lábios sem compreender porque era tão difícil conversar com quem tinha salvo sua vida, apesar de confessar suas  intenções mais obscuras.
    Desviou-se da silhueta do ruivo logo que ele se ergueu e mesmo sem fitar-lhe ou mesmo olha-lo de lado que fosse, Shou sentiu o peso metafísico daquele olhar.
__Amanhã nós seguiremos caminhos distintos... Espero que saiba o caminho para a Aldeia de Hanja.
    Mas, Shou também se ergueu impulsivo. Se voltasse para perto de Etzel nunca conseguiria deixar Antuerpéria, cada célula de seu corpo sabia disso.
__Mas, eu não pertenço a Aldeia de Hanja!
__Sei que você veio de lá.__ Jang afirmou incisivo.
__Ainda acha que sou mago? Pois eu não nasci com o signo do Algorab.__ Shou replicou tão contrariado quanto uma criança ficaria.
     O sorriso maliciosamente velado que se emoldurou nos lábios de Jang foi seguido da seguinte sentença:
__Isso eu sei... Tirei todo sua roupa, não lembra? Vi cada pedacinho do seu corpo.
     Shou cruzou frouxamente os braços sobre o peito, encarou constrangido as sandálias em seus pés.
     Se ouvisse tal sentença antes de conhecer Etzel, não sentiria vergonha alguma.
    Contudo, agora conhecia a malícia e a reconhecia no sorriso velado do rapaz, no seu olhar tão quente quanto a fogueira que ardia próxima aos dois.
      Ouviu os passos dele e estava ciente que ele estava tomando distância, indo em direção do casebre puído na beira da mata...

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