22.6.16

Mel Caramelo e Chocolate Rewrite Capítulo 107 por Mel Kiryu


Capítulo 107 Everyone is empty
                     Everyone is alone

      Há muito Hanae fora proibido de se aproximar de Kanda.
     Os pais adotivos de Kanda haviam sido categóricos.
    Não queriam que a criança de quatro anos tivesse contato com seu passado traumático, com nenhum elemento de sua vida anterior até a ocasião da adoção.

     E assim transcorreu até parte dos dezessete anos de Kanda, sem que seus pais soubessem completamente que o passado vivia dentro do menino e o torturara silenciosamente por todos esses anos.
     Contudo, em suas recordações, Hanae era a parcela ínfima dos vagos momentos bons.
     Todos temos aquelas memórias etéreas como nuvens translúcidas, aquelas memórias que parecem prestes a se dissolver e se perder no azul infinito para sempre.
     E buscando dentro de si, Kanda via um antigo Hanae em suas lembranças.
     Cerca de quinze anos mais moço, sem aquelas suaves marcas de expressão em seu rosto, sobre tudo nos vincos que se formavam no cantos dos olhos quando ele arqueava o sorrir.
    Talvez ele ainda fosse monge, não tinha completa certeza. Mas, em sua mente o via adentrar e trazer a luminosidade do dia para o interior daquela cabana sombria, Kanda se recordava de ter as pernas frias e por isso tinha para si que estava sentado no chão de barro da cabana onde era prisioneiro de sua mãe, ou assim ele se considerava.
   O jovem Hanae lhe sorriu.
   O mesmo tipo de sorriso que nos dias atuais ele lhe oferecia, sendo ainda mais cálido do que se lembrava.
    O momento mais marcante foi quando ouviu a voz dele e em seguida foi acolhido por Hanae, em seus braços, contra as fibras do kimono.
      Kanda devia ter dois, três anos no máximo.
      Contudo, por mais que se esforçasse em lembrar, a voz de Hanae era um som que tinha se perdido em suas memórias, assim como tantos outros.
      Tal como as raras alegrias na vida de Kanda, o momento mais uma vez fora efêmero.
     Suas pequenas mãos se seguravam no kimono, nas fibras daquele tecido que o aconchegava no calor do abraço, quando a voz de sua mãe partiu em pedaços a calma do instante e sem fazer movimentos bruscos Hanae o colocou de volta no chão como se fosse um gatinho.
    Por que não esquecia a voz de sua mãe?
    Sabia a resposta.
    Aquela voz o preenchia de medo.
    De volta ao frio de chão compreendeu pouco, ouviu a voz furiosa e em seguida Hanae fora esfaqueado pelas costas diante de seus olhos infantis.

      Porém, retornando ao presente nada mais importava.
     Sua mãe biológica estava morta, sua mãe adotiva estava na Capital e Datenshi apenas voltaria para casa ao final daquela tarde.
    Nada, absolutamente nada naquela segunda-feira de novembro poderia lhe roubar aquele momento com Hanae.
                                                       
        Era verdade que não queria se apegar a mais ninguém.
       Por essa razão, evitava retornar a Okami.
       Os sentimentos em Kanda eram contraditórios quando se tratava de seu tio, mas tinha que admitir que além de ser a única pessoa que conhecia que tinha um laço sanguíneo consigo, era também uma das pessoas mais gentis que tinham cruzado seu caminho quando tudo a sua volta era dor, frio e morte.
    Além disso, por menos que transparecesse, permeava sob Kanda uma constante e frígida solidão.
    Seu estado de espírito era de ausência, era seu modo de não pensar em todas as pessoas que lhe faziam falta.
    Não eram muitas, em verdade.
    Mas, o vazio que sentia dentro de si era descomunal.
    A iniciativa de Hanae em vê-lo havia revogado seu querer.
    Naquela tarde, antes mesmo de entrar em sua casa com Hanae já tinha decidido.
    Queria se apegar a ele e era um querer desesperado.
    Outro anseio mudo e fulminante de Kanda.
    O mesmo que às vezes o conduzia ao desejo pela morte.
   
    Só que naquele instante, tudo que desejava era preencher, semear as lacunas intransponíveis da alma.

       Hanae desconhecia sua real missão, seu legado.
       O legado designado por Kanda, que sozinho e triste queria ser salvo.
       Queria ser liberto.

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