12.6.16

Sight of Sea Capítulo XXVI por Kisu


Capítulo XXVI - Am I Losing You, The One Who Never Were Mine?

- Macacos me mordam - grunhi esbaforido me deixando cair de costas na areia, as roupas pesavam de tão encharcadas.
        O céu estava encoberto e não tinha noção de quanto tempo havia se passado desde que havia deixado aquela bendita ilha a nado.
        Me forcei a levantar, a cabeleira ruiva pesava tanto quanto as roupas pingando, mas pelo menos não havia trago comigo a espada e o sobretudo.
         Caminhei até algumas rochas na beira mar onde poderia descansar e pensar no que fazer sem que desse na vista de quem passasse por perto e por lá havia sombra.
       Já sentado, tirei as botas e torci a camisa antes de esconder meus cabelos num turbante feito da faixa de tecido que trazia envolta em minha cintura. Estar desarmado tinha lá suas desvantagens, mas não era como se eu quisesse criar um alvoroço no caminho para encontrar minha tripulação, se bem que…

          Peguei umas pedrinhas soltas e comecei a dispo-las como num mapa para me localizar. Considerando que aquela ilha devia estar próxima de Malvis e se eu havia realmente chegado em Malvis, Roy devia saquear um navio mercante daqui alguns dias. Na pior das hipóteses, se eu não conseguisse subir a bordo, levaria ao menos uma semana até alcançar a vila que ele atacaria em seguida.
        Minhas roupas estavam quase secas e já me sentia mais disposto quando me vesti e voltei para a praia, mas dessa vez, adentrei a mata de árvores secas até achar um caminho de chão não muito distante. A terra também estava seca e era de se esperar, o inverno estava próximo e logo que começasse a nevar, não haveria como navegar ou sair de casa por essas regiões. Ter passado tanto tempo “preso” numa ilha em que sempre fazia calor enquanto eu buscava uma forma de localizar minha posição geográfica, havia alterado meu senso quanto ao clima.
Andei por duas horas e reparei numa figura muito mal escondida por uma moita. Ignorei e prossegui caminhando. Mal dei alguns passos após passar pela moita e a pessoa se revelou portando uma espada curta em mãos que tremiam tanto quanto sua voz.
- Passe tudo o que tem se preza por sua vida - proferiu respirando pesado.
       Não pude ver sua expressão encoberta pelo capuz da capa, mas logo soube que se tratava de um bandido miserável. Devia ser sua primeira vez abordando alguém, pensei sem me compadecer e retomei meu caminho.
- Ora, seu! - resmungou.
         Os sons de passos em minha direção aumentaram, mas antes que a lâmina me atingisse, desviei, segurei no braço fino e derrubei aquele ser frágil num piscar de olhos. Dirigi a lâmina da espada que agora estava em minhas mãos para perfurá-lo, mas meu corpo parou sem aviso, o fio da espada a centímetros do peitoral do rapaz diante de mim.
      “Vamos, o que está esperando, Kyle? Mate-o” a voz da bruxa ressoou em minha cabeça.
Minhas mãos tremiam, mas meu corpo teimava em desobedecer meus comandos. A voz riu.
“Não pode, não é, meu pirata ingênuo?”
“O que fez comigo, bruxa desgraçada?!”
“Nada mais do que realizar seu desejo. Não queria esconder seu pequeno tesouro junto ao príncipe quando concordou em colocar parte de sua frieza como mercadoria de troca? Ah, se tu soubesses quão deslumbrante é a cor desse azul tão profundo e gélido” tornou a sorrir.
         Balancei a espada, de modo a expor a face do jovem. Se não podia ter seu sangue, faria de seu corpo meu.
        Cortei o tecido de sua camisa e levei minha mão à pele nua, mas não conseguia tocá-lo. Alguma parte de mim se negava a cometer tamanha atrocidade.
Mordi os lábios com imenso ódio corroendo minhas veias.
- Deixe tudo o que tem e desapareça da minha frente! - grunhi, a face queimando em fúria.
        O rapaz tremia horrivelmente enquanto esvaziava os bolsos e antes que partisse correndo com o rabo entre as pernas, ordenei que deixasse sua capa e assim o fez.
      No que ele sumiu de minhas vistas, procurei ao redor e me dei conta de uma formiga vermelha sobre meu punho e desci a mão para acertá-la, mas a formiga logo se transformou em beija-flor, depois em sapo, aranha, dentre outros animais enquanto tentava matá-la.
“Não adianta, mesmo que minha vida se esvaia, nosso acordo permanecerá intacto”.
“Achei que não pudesse deixar aquela maldita ilha em que foi aprisionada, bruxa!” rebati.
“Pois se engana, nunca estive presa, mas também jamais possuí vontade de deixar aquele lugar até encontrar alguém tão interessante e tolo quanto tu” ela brincava divertida.
“Devolva o que me pertence!” exigi trincando os dentes.
        Um vento frio me subiu num calafrio pela espinha e senti seu hálito quente em minha nuca e seus dedos me tomando a face com delicadeza.
“Assim como as trevas não pertenceram originalmente à escuridão, essa frieza nunca foi somente sua. Se não tomar cuidado, vai perder tudo mais uma vez…” e sua voz foi diminuindo, perdendo aquele tom alegre e dissimulado até findar em puro silêncio.
Cerrei os punhos em evidente raiva, mas não ousei deixar uma palavra escapar por dentre meus lábios. Não ousaria deixar aquelas provocações da bruxa me atingirem.

                                                        ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

         Era noite quando cheguei a uma pequena cidade. As ruas ainda estavam movimentadas e tratei de procurar uma estalagem após ter passado a última noite ao céu aberto.
        Por sinal, o dinheiro que eu havia subtraído habilmente de alguns homens bem vestidos da alta classe tinha sido mais que suficiente para comprar novas vestes com alguns feirantes e ainda cobrir  o custo da estadia juntamente com um simples jantar.
         Sentado na pequena cama que rangia com o menor movimento que fosse, terminava de limpar a lâmina da espada. Estava um pouco enferrujada e desgastada, mas seria por bem ter uma dessas até encontrar Roy já que teria sido desgastante nadar com a minha.
      Ainda estava concentrado passando o pano sobre a lâmina quando as sombras tremeram com o bruxulear da vela. Uma rajada de vento frio adentrou o quarto simples da hospedaria e tive de levantar para fechar a janela, porém, acabei sentando no peitoral a observar o movimento das ruas.
       Me perguntava qual teria sido a última vez que me permiti divagar fora de meu navio. Tantos anos haviam se passado e até o presente momento, não tinha descoberto muito sobre a Lacrimosa Solar ainda que Desaree também me prestasse seus serviços, embora teria sido melhor se ela nunca houvesse tentado roubar o que me pertencia.
        Suspirei desviando o olhar da rua e levando a cabeça para trás até encostar no batente da janela.
Mas agora isso de nada importava… Assim como havia lhe dito em nosso último encontro em Nab’ha, me livrara do ornamento onde jamais ousariam procurar, embora com a morte do Rei Christian T. Viers II, o único que deveria ter ciência do roubo do tesouro de Scafer era o Rei desse tão odiado país.
           Olhei as dobras de meus dedos e nada. Eu não estava sendo a minha própria pessoa. Em outros tempos, só o pensamento já me subia o ódio à cabeça a ponto de sentir prazer ao imaginar o sangue do Rei escorrendo quente por minhas mãos enquanto seu viciante cheiro fresco de ferro impregnava meu olfato, mas agora… Nada… Não havia nada…
           Me preparei para dormir e não tardei a deitar, afinal, os próximos dias seriam penosos tal como sempre foram para mim.

                                                                 ≈ ≈ ≈ ≈ ≈

- Kyle, está na hora de acordar - Cameron sussurrou no meu ouvido, aquele hálito fresco me dava arrepios e eu queria muito abrir os olhos, mas estavam tão pesados, como se estivessem vendados.
Me virei para o outro lado da cama e senti um frio frígido me preencher como um todo antes que Eliot segurasse com força em meu pulso, me puxando para fora da cama agitado e enfim consegui abrir os olhos.
- Cool, precisamos ir! Agora!
- Eliot, mas o que está acontecendo? - o coração batia a mil e esquadrinhava seu rosto a me olhar assustado. No que ele se virou, as costas de sua camisa estavam banhadas em sangue fresco.
Ele me puxou para fora do quarto e minha voz não saía por mais que estivesse preocupado. Quando cruzamos a porta da hospedaria, havia fogo queimando tudo ao redor.
Quando dei por mim, Eliot não estava mais me segurando e seguia em frente enquanto eu não conseguia alcança-lo por mais que gritasse por ele.
Estava quente, o suor corria abundante pelo corpo e era difícil respirar. Ainda tentei andar por dentre os destroços crepitando, mas não sabia onde estava, não encontrava a saída e só havia fogo e muita fumaça negra por todo lado.
Dei alguns passos e fui jogado contra o tronco de uma árvore antes de bater a cabeça com força e assim que abri os olhos, não pude evitar de me espantar, de sentir um calafrio percorrer a espinha.
- Ainda vai dizer que prefere seu precioso Cameron?
Aquele cão sarnento cérebro de camarão tinha meu rosto preso por suas mãos enquanto sua face que quase tocava a minha detinha um sorriso um tanto quanto sarcástico que logo deu lugar a uma distorcida expressão de fúria.
- Não vai dizer nada?! Vai me matar também e seguir a vida normalmente como se eu fosse só mais um? - gritou esbravejando enquanto tentava me sufocar com o aperto de seus dedos.
Era tão forte que se fazia difícil me desvencilhar e no que enfim o fiz, ainda que sentisse que estivesse caindo em meio ao vazio, meus olhos estavam fixos naquele príncipe que tinha mania de ladrar sem morder.
Naquele momento sua expressão já era de pena e ele igualmente me olhava ainda que o fogo estivesse prestes a consumi-lo junto à floresta em chamas logo atrás de si.
- Adeus, Kyle… - disse a voz de William mesclada à de Cameron.

            Me sentei num pulo na cama, poucos raios de sol começavam a adentrar as frestas da palhetas da janela. Meu coração estava descompassado e respirava rápido a ponto da garganta arder arenosa, e o suor frio era tanto a ponto de achar ter passado dias no deserto escaldante e seco.
Passei as costas da mão na testa, removendo umas gotículas de suor e fios ruivos que se embolavam. Há anos deixara de ter sonhos que não fossem uma completa e negra escuridão e agora um pesadelo…
          Só podia significar que não devia ter passado a essência do ornamento da Lacrimosa Solar de Cameron para aquele cão sarnento, muito menos esperar que ele sobrevivesse naquela ilha! Iria levar meus planos por mar adentro!
          As chances de algo acontecer naquela ilha eram ínfimas, pois não estava nos mapas e só se chegava lá por, no mínimo, pura sorte e agora tinha que voltar para esse mesmo lugar para não colocar tudo a perder depois de tantos anos!
       Estava com um mau pressentimento.
              E dos grandes!

                                                                         xXx

          No que ouvi o estalo da madeira sendo consumida, me apercebi do crepitar das chamas diante de mim e me encolhi abraçando os joelhos.
Ia para o terceiro dia que Kyle havia sumido desde que possuíra meu corpo no sopé da cachoeira.  
    Quando recuperei a consciência, estava vomitando água pura. Agora sabia por que Kyle sempre colocava aquelas pedras quentes na água.
Não lembrava de como havia chegado na praia ou de como estava vestido, mas não havia sinal de Kyle mesmo depois que eu houvesse esperado por horas. Ele podia ter se embrenhado floresta adentro, mas era evidente que não o fizera, pois sua espada e sobretudo estavam ao meu lado quando despertei e ainda tive de correr para não deixar que o pouco de chamas se esvaísse.
         Tinha para mim que ele possuía somente uma faca, mas se sua espada estava ao meu lado, só podia pensar que ele a havia escondido tão logo chegamos nessa ilha. Ainda cogitava uma explicação, uma lógica plausível, mas quanto mais pensava, mais claro ficava que Kyle havia me abandonado e com pena deixara sua espada. Ele bem havia dito que havia um modo de sairmos da ilha, mas pensei que era mais uma mentira vinda dele. Agora via que tudo não passava de um ledo engano, contudo, o que mais doía era saber que ele havia usado e abusado de mim e me largado como se não passasse de um mero objeto.
       O vento zumbiu e ouvi o farfalhar de folhas. No que caí em mim, estava viajando em pensamentos novamente e, diante de mim estava o mesmo coelho preto de antes, me olhando, o focinho remexendo e as orelhas por vezes balançando.
- Saia daqui - gritei irritado e me levantei balançando um graveto com fogo para afastá-lo. - Vá embora, me deixa em paz!
Ele vinha fazendo isso há dias e por mais que o expulsasse, ele sempre retornava.
- Droga, não preciso de sua pena - solucei.
As lágrimas ousaram abandonar meus olhos e me encolhi abraçando os joelhos a chorar desolado. Sinceramente, não sabia o que fazer, me sentia perdido, cansado, estraçalhado por dentro.
      Olhei para o sobretudo deixado por Kyle e o segurei entre as mãos. Era quente e tinha o cheiro de seu corpo. Fechei os olhos, sorvendo aquele odor gostoso, soluçando muito mais. Por mim, podia fechar os olhos e não acordar nunca mais.
     Ninguém me queria, eu nunca seria importante para ninguém… Muito menos para a pessoa que amava…

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