16.4.17

Ilegítimos Capítulo 46 por Mel Kiryu


Capítulo 46

     Isso que dá sucumbir a um pedido dócil ao pé do ouvido.
     Sucumbir a uma pequena tentação.
     Certo, a culpa é minha também...
     Mas, não pude evitar de ficar com raiva de Noa.
   

     O último drink, as carícias que vieram depois deitados no futon e as palavras amorosas segredadas tão mornas, não resultou em alguma foda fantástica.
     Tudo bem, com isso eu podia lidar.
      Sei que acabamos dormindo, bom... Pelo menos, eu sei que dormi.
      E quando despertei fiquei realmente perdido quando catei meu relógio caído perto de mim e vi que passava de uma e quarenta da manhã.
     Eu estava tão confuso, sem reconhecer as paredes, aquele lugar.
     Noa não estava no quarto, eu chamei seu nome baixinho.
     Custei muito a perceber que estava naquele apartamento do sexto andar, no Edifício dos Solteiros.
     O silêncio apenas servia para sobressaltar meus sentidos e eu não achei uma peça de roupa que fosse minha para vestir, somente as roupas de Noa.
     Era tudo que eu tinha e foi o que vesti, eu já estava trajando a blusa e também vesti seu jeans escuro, saí descalço do quarto e me deparei com o apartamento inteiro mergulhado em escuridão.
     Mirei-me na garrafa vazia de Umeshu sobre o barzinho do apê, também os copos sujos e vazios ao lado de outra garrafa de saquê pela metade e corri com as mãos no meu cabelo perturbado com a ideia de estar sozinho no apartamento de um estranho.

        Mas, era muito pior.
        Eu não estava sozinho.
        Alguém se movia sorrateiro vindo pela retaguarda, sem que eu me desse conta.
        Enquanto o desespero batia na boca do meu estômago e eu sentia um faixa gelada de nervoso correr pelo meio de minhas costas, fui imprensado e imobilizado bruscamente contra a bancada onde estavam as bebidas.
__Seu vermezinho de merda! Devia estar se achando muito esperto, não é?
    Não conhecia o dono daquela voz baixa e sarcástica, seu hálito estava no meu pescoço e eu me encontrava rigorosamente imobilizado, o corpo dele contra o meu.
__Escuta...__ Eu tentei argumentar, minha voz desafinava, falhava.__ Sei que eu não devia estar aqui, só que...
__Como você entrou? Eu devia chamar a polícia, não concorda? Afinal, você é a porra de um invasor folgado.  
__Não! Eu... Eu estava com Noa!... Ele disse que conhecia você... Juro!
    Ou estava ficando louco, ou ouvi uma risada curta e irônica.
__Eu devia saber.__ O cara disse, seu braços me apertavam mais forte, feito torniquete e suas pernas se prendiam estrategicamente as minhas.__ Você tem o cheiro dele, o cheiro safado do Noa.
__Sinto muito por isso...__ Eu disse em meio a dor que me atravessava, eu sentia o suor frio minar na minha têmpora.__ Por tudo isso!... Eu preciso voltar para casa... E isso dói.
    Minha voz saiu exprimida, fraca e repleta de medo.
__Escuta aqui, garoto...__ A voz baixa, firme e ameaçadora penetrava profundamente em mim.__ Eu vou te soltar, mas se tentar alguma gracinha, se sair correndo ou qualquer merda do tipo... Eu meto uma bala em você, 'tá entendido?
     Tentei olhar por trás de meu ombro, mas meu pescoço estava enrijecido, o músculo retorcido. Por isso, limitei a responder com um aceno de cabeça, meus lábios apertados um no outro.
   Eu não duvidava do que aquele cara era capaz, ele afrouxou o toque e senti que se afastou um pouco. Meu corpo tenso custou a me obedecer a minha vontade, era como se ainda estivesse imobilizado.
    Tive que me concentrar e sentir o ar entrando e saindo de meus pulmões, passou-me de relance a ideia de agarrar a garrafa vazia de Umeshu, meu olhar bateu nela. Quem sabe se uma garrafada certeira não me daria a chance de escapar.
    Mas, não.
    Respirei fundo, apertei os olhos.
    E virei-me devagar na direção dele.
    Minhas costas contra a bancada, deixei minhas mão onde ele pudesse ver.

         Ele era mais velho, tronco largo, pernas compridas. Tipo físico forte, barba por fazer... Provavelmente de uns três dias.
   No máximo trinta anos, se tivesse.
   E apontando uma arma para mim.
   Conhecido de Noa.
   Imagine se fosse desconhecido!
       No mínimo eu já estaria morto.
     Continuei imóvel, encarando aqueles olhos frios, mesmo no escuro percebi que eram verdes.
   Um verde extremamente claro, aquoso, dono de um brilho furtivo.
   Uma espécie de luz própria, como olhos de gato se destacando na escuridão.
   O mais estranho de tudo, é que seus lábios cerrados ofereciam um sorriso indecifrável para mim.
__Garoto burro... Por que não tentou pegar a garrafa tal como pretendia?
    E a pergunta dele soou com um toque impróprio de diversão.
    Engoli a seco, sem desviar o olhar... Que merda.
__Eu não quero brigar... Só quero ir para casa.
__Não faz essa cara inocente para mim, garoto!__ Ele não parecia furioso, mas irritado, seu tom zombava nitidamente de mim.__ Acha que pode entrar no meu apartamento, tomar do meu licor e se safar assim? Chega mais.
    O cara gesticulou com a arma na mão, o cano do revolver mandava que eu me aproximasse.
   Quantos passos eu tinha que dar até ele? Encarei o piso, contei no máximo três.
    Não dava, não tinha como.
    Meus olhos só conseguiam ficar cravados nos dele.
    Trinquei meus dentes com raiva e senti uma vontade desnorteante de chorar que tratei de sufocar.
   
       

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