16.4.17

Sight of Sea Capítulo XXXIV por Kisu


Capítulo XXXIV - I’ll Always Find The Deepest Inside You… For All My Life, I’m Yours 

         Deitado na rede sentia o meu corpo balançar ao movimento do navio levado pelas ondas do mar. As lâmpadas ao longe acompanhavam o ritmo tremeluzindo na escuridão do amplo espaço tomado por redes e piratas adormecidos. Algumas garrafas de rum rolavam perdidas no assoalho.
Minhas pálpebras pesavam com o sono e ainda que me forçasse a permanecer desperto, acabei por adormecer.

             Mesmo embalado pelo sono, de alguma forma conseguia observar a minha pessoa como se estivesse fora de meu corpo e reparei que alguém se aproximava com um olhar irado no cenho fechado e duro. Tentei gritar, queria despertar e fugir, mas a mão em minha boca não permitia. E então veio o golpe. A lâmina fria e afiada da faca trespassou a rede e perfurou minha carne enquanto o pirata segurava minha boca com mais força e meu corpo se debatia.
        Acordei aos gritos, ora segurando os cabelos, ora esfregando as mãos nos braços como que tentando retirar o sangue, mas não havia qualquer ferimento em meu corpo que prosseguia tremendo em meio à falta de ar que me abateu.
        “Com hoje… quantos dias hão se passado?” pensei em meio a escuridão, minha única amiga naquele navio que carregava a morte.
          A raiva que sentia de início não demorou a passar em alguns dias, afinal, eu era o único culpado. Havia pecado ao abandonar minha família, renunciar meu Deus e me deleitar com os prazeres mundanos entregues pelos piratas. Como pude esquecer minhas origens, esquecer quem eu era e me entregar de corpo e alma a um pecado e luxúria do qual sabia não haver retorno?
         Tal como Eva, havia comido do fruto proibido, mas era ainda pior… Enquanto ela se arrependia e chorava lamentavelmente por perdão, a culpa não me arrebatia. Por mais que a dor e a solidão me consumissem, mesmo se tivesse de refazer todos os meus passos… Infelizmente nada mudaria e isso que eu temia: voltar a matar. Foi tão fácil, tão rápido, que desde aquele fatídico dia meus sonhos me assombravam com sangue e morte.
        O navio sacolejou e meu corpo bateu levemente contra a grade enferrujada.
Mal se passaram alguns minutos e ainda estava encolhido quando olhei assustado para a porta que se abria revelando dois piratas que adentraram e abriram as grades após amarrarem meus pulsos. Reconheci um deles como o doutor do navio.
       Tinham as espadas na cintura prontas para serem sacadas enquanto subíamos os lances e mais lances de degraus até um cômodo mal iluminado por uma lâmpada ao fundo que acompanhava o balanço do navio. Nele havia uma cama simples, uma cantoneira e um baú aos pés da cama.
- A partir de hoje, dormirá aqui - o mais baixo proferiu amarrando um de meus pulsos a uma das grades da cabeceira.
       A janela era muito pequena, o que já dificultava qualquer tentativa de fuga mesmo que mal houvesse movimento no caminho até o quarto.
        O doutor fez sinal para que nos deixassem a sós antes de retirar minha camisa para melhor ver o machucado no meu braço. O início de infecção que ele havia diagnosticado há alguns dias após o ferimento se abrir já sumira por completo, mas a pele ao redor dos pontos ainda estava irritada e seria necessário esperar mais um tempo.
         O doutor examinou meus olhos e suspirou com certa preocupação antes de avisar que eu devia me limpar apontando uma bacia com água, sabão e um pano limpo. Feito isso, fui deixado a sós.
Estirei o corpo na cama sujo como estava sem cerimônia e sem qualquer ânimo visível. Se eu quisesse, poderia ter facilmente roubado a espada de um deles e tê-los matado. Agora entendia por que o Kyle matava com tanta naturalidade, a vida se esvaia de forma rápida, era tão frágil e simples de tirar que assustava. Era como se eu me afogasse no inferno e ao emergir tudo não passasse de pura ilusão.
       Sempre me perguntava por que o Kyle era tão fissurado com sua vingança, mas agora me indagava como ele conseguia se controlar sabendo que poderia tirar tanto de uma pessoa e causar tamanho caos em questão de minutos ou até segundos. O rei anterior faleceu por minha causa e eu não soube como reagir, já o Kyle perdeu o Cameron e acabou com todos que de imediato trouxeram tanto infortúnio sobre ele, mas… E quanto à mim?… Talvez não conseguisse continuar em frente se perdesse Thomas ou minha mãe, mas creio que seria igualmente consumido pela vingança, afinal, como não querer provocar igual ou pior sofrimento a quem me afligisse?
        Tantos pensamentos me rondavam desde a primeira vida que tirei. Tantos pesadelos. Vivia assombrado por meu próprio eu diariamente que ficar a sós por tanto tempo me deu certa calma para refletir e ainda que não quisesse admitir de todo, passara a compreender um pouco mais das condutas de Kyle. Não que ele fosse a pessoa mais cruel e devassa da face da Terra, mas por ter tantos pensamentos, tanta culpa e a sede de vingança a molesta-lo desde a morte do Cameron, para ele cada dia era uma batalha a ser travada.
           A bondade que havia nele equivalia à maldade, mas ele abafava qualquer sinal daquela. Era por ter muita alma, por ter muito amor e uma ligação tão forte a Cameron que ele se martirizava. Ele não era menos humano do que eu e, contudo, antes eu era tão inocente que não era capaz de tomar seus pesares. Ele estava tão perdido quanto eu e eu o estava forçando a ser alguém diferente, mas não era justamente por ele ser o Kyle grosso, bruto e cruel que o amava cada vez mais?
         Ele era o mentiroso dos mentirosos e eu não conseguia odiá-lo mesmo que meus lábios proferissem injúrias contra ele. Estar com ele era como ter céu e inferno em um embate constante ao meu lado, ambos guardados no mesmo ser. E como poderia odiar a pessoa que me mostrou tanto do mundo fora do palácio, que antes me era desconhecido, em questão de meses?
       O queria a meu lado, bem pertinho de mim e por mais que o desejasse, Kyle não apareceu em nenhum dos dias que se seguiram. Quando dei por mim, semanas haviam transcorrido.
      As olheiras pelas noites mal dormidas amenizavam, meu braço não doía, mas o corte deixara uma cicatriz. Sentia que começava a melhorar, mas não lembrava o que era ter o sol em contato com minha pele cada vez mais pálida e, ainda que passassem a me deixar solto, trancavam a porta do quarto. Contudo, hoje seria diferente.
        Assim, tendo o sol se posto, aguardei algumas horas até que passasse o horário do jantar, peguei alguns grampos que fizera com espinha de peixe e destranquei a porta após muito tentar antes de me esgueirar para fora do quarto. Estava quieto nos corredores e o único barulho vinha do convés quando adentrei a sala de suprimentos e me recostei no batente da janela aberta. Ninguém jamais entraria no cômodo a essa hora.
       “Ao menos no Booty Dark Fleet não havia necessidade em virtude de não ser horário de preparo de refeição”, pensei.
A brisa noturna bagunçava meus cabelos castanhos ao soprar fresca e as luzes do convés faziam desenhos disformes nas ondas das águas noturnas dessa noite sem lua. Não apreciava noites escuras, me remetiam à solidão e quietude do palácio.
        Divagava em pensamentos no que ouvi vozes logo acima, muito próximas à amurada e adentrei para ficar menos visível quando acabei ouvindo a voz de Kyle e me detive a escutar.
- Por que não cobra um resgate e devolve logo o príncipe? A Marinha real de Viers está cada vez mais próxima de encontrar Nab’ha, dificulta cada vez mais nossos saques e as demais tripulações comentam sobre depô-lo. Se não terminar essa história de uma vez por todas, jogará todo o seu esforço ao longo desses anos mar adentro.
- Ainda que exija dinheiro pelo resgate, o Rei é irmão do príncipe e jamais deixaria essas por aquelas, iria me caçar até ter o prazer de me enforcar em praça pública. Eles encontrando ou não Nab’ha, a ilha é guarnecida com encostas e com um mar violento cujas correntes traiçoeiras jogam os navios contra as rochas a menos que se saiba navega-las - prosseguiu. - Dane-se o que as demais tripulações comentam, vou silenciar uma a uma. Todos têm armas e espadas, que se defendam eles mesmos. Se estamos lutando contra a coroa, mais do que nunca devemos nos unir, porém tudo o que temos são mariscos amedrontados - rosnou e ouvi o baque forte contra a madeira.
- E quanto ao príncipe? Se o fim comum é a morte na forca, cobre o dinheiro e mate-o diante do Rei, nada mais justo do que dar o troco na mesma moeda que sempre usaram conosco.
- Não! - esbravejou. - Não é o suficiente!
- Soube por meu curandeiro que o príncipe está marcado - proferiu buscando qualquer brecha após o silêncio que se seguiu. - Não é de seu feitio deixar alguém viver por tanto tempo, chegou mesmo  aos meus conhecimentos que o salvaste e encobriste por diversas vezes. Sinceramente, capitão Kyle, não sei o que pretende, mas se amolecer e causar problemas que ameacem a existência da pirataria, não pensarei duas vezes antes de enforcá-lo com minhas próprias mãos.
       Ouvi passos se afastando e sem querer um suspiro escapou de meus lábios e me escondi fora do campo de vista da janela tapando a boca com as mãos até me certificar de que era seguro fazer qualquer barulho para deixar a sala.
Aquela conversa não podia ser verídica… O Kyle jamais deixaria alguém falar assim com ele independente de ser o Capitão de outra tripulação e “Por que se for, como eu fico? Vai me deixar ir tão fácil, Kyle? E o tempo que passamos juntos? E tudo o que sempre me disse sobre lhe pertencer? Não pode terminar assim, não é assim que essa história deve acabar. Deve haver algo que somente eu seja capaz de fazer” pensei.
        Caminhei por impulso até o quarto do Kyle e chegando à porta paralisei. O que eu pretendia? O que diria? E se eu deixasse tudo pior? Mas eu não queria ir embora, não como se fosse um mero objeto de troca e também não deixaria que Kyle e tudo o que lhe restava fosse destruído. Eu queria salvar Kyle da forca da realeza e dos piratas, queria salvá-lo dele próprio.
       Respirei fundo e girei a maçaneta. A porta abriu suave sem qualquer rangido. Estava escuro, mas pude ver que ele estava deitado pela pouca claridade que adentrava pela porta que tratei de fechar. Não havia se passado tempo suficiente para ele estar adormecido… Ou estaria ele tão sobrecarregado?
         Acabei por me aproximar a passos de pena e estendi a mão para toca-lo, talvez fosse melhor esperar por perto até o dia amanhecer.
Quando penso que não, de repente tive minha mão puxada e fui jogado para cima da cama, tendo meu corpo imprensado e algum objeto metálico e frio a pressionar minha testa.
- Kyle, sou eu! Sou eu! - urgi a me identificar ao ouvir o gatilho destravando.
Mas nem assim ele mudou a mira.
- Se esgueirando pelos aposentos alheios como um verdadeiro cão. O que diabos planejava? Por acaso veio para “me matar”, cão sarnento? - proferiu seco, apertando meu pulso.
- Eu… - as palavras me fugiam.
Minhas intenções eram claras, mas o que exatamente queria dizer a ele?
- Tens minhoca na cabeça ou não tens noção de perigo? - inquiriu largando a pistola na cantoneira. - É como se estivesse pedindo para ser atacado - rosnou levantando minha camisa.
        Seu corpo sobre o meu, sua mão que prendia meu pulso com força ao passo que sua outra mão agora livre, áspera e calejada de tanto manejar a espada, subia-me a camisa tocando minha pele, provocando-me calafrios e fazendo meu corpo esmorecer no mesmo instante.
- E se eu quiser ser atacado? O que vai fazer? - segredei tendo o coração quase a sair pela boca.
         E senti meus lábios sendo tomados pelos dele. Não enxergava um palmo à minha frente e me amargurava o quarto estar tão escuro, porquanto ansiava poder olhar que expressão Kyle teria feito ainda há pouco.
      Nossas línguas se emaranhavam em meio à saliva quente com um leve gosto de rum. Minha mão livre percorria suas madeixas ruivas que escorriam soltas por seu ombro até que ele retirou minha mão e nossas bocas se apartaram úmidas.
           Logo, um choque me tomou ao sentir sua boca descer provocando estalos conforme beijava a pele desnuda de meu pescoço, passando pela clavícula e descendo pelo desenho do abdômen deixando a pele úmida com um rastro de saliva. Conforme seus lábios me tocavam e suas mãos desciam por minhas nádegas, removendo quase que imperceptivelmente minhas calças, meu corpo retesava e parecia pegar fogo, ainda assim, aquilo não me incomodava como na primeira vez.
“Ahh… sou mesmo um tolo apaixonado…” pensei me culpando por não desprezar o Kyle apesar dele sempre brincar com meus sentimentos.
       Ele levantou minha perna e mudou os beijos para minha coxa, alternando com leves mordidas que deixavam impossível que eu não gemesse. O modo como ele me segurava, tão forte como se não houvesse meio de fuga, era enlouquecedor.
         Dessa vez, meu corpo curvou-se e cobri a boca com a mão enquanto levava a outra por impulso a agarrar os cabelos de Kyle ao sentir seu língua em meu pênis.
- Pára! O que está faze… - um gemido escapuliu e mordi o lábio inferior na tentativa de conter outros enquanto inutilmente pedir que ele parasse, mas minhas falas saíam apenas dentro de minha cabeça.
Sua língua dançava em meu membro brincalhona e faltei perder a razão ao sentir sua boca cobrir toda a extensão de meu pênis aliada à sua mão que descia e subia em carícias pela região. Meu corpo estava fraco, rendido ao deleite e à mercê do Kyle. Meus dedos mal conseguiam se prender às madeixas ruivas e joguei a cabeça para trás no que gozei em meio aos gemidos de prazer.
        Já conseguia ver sua silhueta ainda que fracamente: o modo como sua mão passava pela testa antes de jogar os cabelos para trás, seu corpo a se insinuar sobre o meu…
      Tornei a ser beijado, o gosto era estranho e não pude evitar de franzir o cenho, mesmo assim, sua língua abria caminho por meus lábios.
        Subi as mãos por seu corpo e só então reparei que ele estava sem camisa. Sua pele era calorosa e convidativa.
         Prossegui subindo as mãos e o puxei pela nuca, aprofundando o beijo antes de abaixar a mão para sua face, sentindo suas bochechas em meio a alguns fios que lhe caíam pelo rosto.
Ele segurou minha mão e cerrei os dentes ao sentir seus dentes me marcando a carne macia da palma antes que sua língua percorresse a pequena marca numa carícia sensual que me deixava deveras envergonhado.
- Me desconcerta quando é gentil… Não combina com você - por algum motivo, meus olhos se tornavam marejados ainda que ele estivesse tão próximo de mim e não consegui evitar um soluço.
Ele me estapeou a face com força a ponto de eu sentir a pele latejar.
- Que se passa contigo? Entraste em meus aposentos na calada da noite enquanto deveria estar preso e mais, não estava me ameaçando há algumas semanas sobre como iria me matar? Por acaso está ficando doido depois de todos esses meses?
- E a culpa é de quem, seu lagostim ambulante?! EU TE A…
- Cale a boca! - brigou tampando minha boca com a mão.
       Então senti a dor lancinante no traseiro tendo meu grito de dor abafado por sua mão enquanto a outra levantava minha perna. A dor era terrível por não transarmos há tanto tempo, mas de certa forma me acalmava por querer pensar que ele jamais mudaria.
Ele começou a se mexer com dificuldade, estava apertado, doía, era difícil relaxar ainda que eu quisesse e era sufocante com sua mão me impedia de respirar corretamente.
Minha cabeça começava a girar quando ele tirou a mão e me beijou ainda sem parar os movimentos de vai e vem que agora começavam a dar lugar ao prazer.
- Te amo, eu te amo tanto, seu capitão idiota - enfim consegui proferir num meio sorriso de canto de boca.
- Te mandei fechar o bico - resmungou com a voz falha após um breve silêncio que não compreendi de todo, imediatamente partindo a dar estocadas mais fortes que me fizeram enfiar as unhas em suas costas em meio às longas madeixas ruivas.
          Queria que ele puxasse meus cabelos, me violasse com mais força, me mordesse mais. Queria que ele me marcasse completamente me deixando ainda mais perdido em meio ao prazer enquanto meu nome era proferido por aqueles lábios.
       Cruzei as pernas em torno de sua cintura, prendendo nossos corpos unidos em meio às estocadas e ao barulhinho alucinante de pele contra pele. Estava quente, minha cabeça não funcionava direito e queria mais, mais e mais daquele homem.
Antes que desse por mim, cravei os dentes em seu ombro, perfurando a carne macia e no que senti gosto de sangue, por algum motivo aquilo me excitou de tal forma que gozei.
        “Não vou perder para Cameron. Não agora que achei algo que enfim desejo. Alguém com que poderei ver muito mais deste vasto mundo”, ri.
Ele rosnou e senti sua ira quando me virou de quatro, forçando minha cabeça de encontro aos lençóis enquanto tornava a me penetrar e não tardou aos gemidos voltarem a preencher o quarto.




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