22.5.17

Linden Twins ♫ ♬ Capítulo 39 por Mel Kiryu


Capítulo 39

         Onze anos depois, Jiang tinha mais uma vez o rosto franzido e limpou o vestígio de lágrimas esfregando o pulso nos olhos embaciados.
    Renegando a vontade de chorar.
    Quando sua vista tornou-se mais nítida, encarou o quarto vazio e em seguida a mesinha de cabeceira ode Huang guardava as partituras.
    Não havia nada que impedisse Jiang de ir em frente e abrir a gaveta e foi o que fez, surpreendido pela pasta preta estar no mesmo lugar. Retirou-a da gaveta e deparou-se com o livro de Sylvia Plath.
   O livro que queria ter folheado quando tinha quinze anos.

   Deixou a pasta sobre a mesinha e sentou-se na cama com o livro nas mãos.
   As marcações com pedacinhos de papel não existiam mais, mas ao folhear as páginas, algumas passagens estavam destacadas com marca texto azul.
      Jiang tentou se concentrar apenas nas partes grifadas por Huang.

    " Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)"

     Era assim que Huang se sentia?
     Calmo e vazio como o olho de tornado?
     Não conseguia achar sentido nisso.
     Jiang sim às vezes, muitas vezes na vida se sentia assim.
     Mas, Huang... Ele era a parte destrutiva e inquieta do tornado, que devastava e carregava tudo por onde passava.

       Jiang procurou por outra passagem grifada por Huang:

     "Quando eles perguntavam a qualquer velho filósofo romano como ele queria morrer, dizia que rasgaria as veias, num banho quente. Achei que seria fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão florir dos meus pulsos, jorro após jorro penetrando na água limpa, até que eu me afundasse no sono sob a superfície rubra como papoulas. Mas quando cheguei às vias de fato, a pele do meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui nada." 

    Assim que acabou de ler, ajeitando nervosamente uma mecha de cabelo caindo perto de seu olho, Jiang lembrou-se do que Syaoran contou, sobre Huang ameaçar cortar os pulsos na sua frente.
    Teve que engolir a seco, sentindo um frio inquietante.
     Prosseguindo com a leitura.

      "Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado."

     Fechou brusco o livro, um som abafado das páginas batendo se propagou e se extinguiu rapidamente.
     Por que Huang tinha grifado justo estes trechos?
     Desde quando o tema "suicídio" o atraía?
    Que Huang cultivava a ideia de morte em si estava cada vez mais claro.
    Tornou a guardar o livro e a pasta tal como tinha encontrado e decidiu vasculhar o armário.
    A outra lembrança que lhe envolveu, foi ter sido trancado do lado de dentro por Huang quando tinham nove anos.
      Era como se Huang tivesse necessidade de ser mau.
      Sacudiu a cabeça como se pudesse jogar a recordação ruim pelo chão e abriu o armário de madeira clara.
      Havia alguns cabides, mas nenhuma roupa, um tênis de cano alto antigo que Huang adorava usar, uma mochila dobrada e uma caixa de sapatos.
     Ia fechar o armário, quando veio em sua ideia dar uma olhadela que fosse na caixa de sapatos.
     Agachou-se colocando um dos joelhos no chão e levantou a tampa empoeirada.
     Duas pequenas aranhas num alaranjado diáfano saíram andando por cima da tampa.
     Achou que ia encontrar outro calçado velho, mas havia o que parecia ser uma agenda.
     Jiang colocou-se de pé, segurando a agenda de capa dura com ambas as mãos.
     Permanecer naquele quarto, não estava lhe fazendo nada bem.
     Cogitou também em levar o livro de autoria da Sylvia Plath consigo, mas acabou somente colocando a agenda em sua bolsa de alça de transversal.
     Tinha a vívida impressão que Huang brigaria com ele se soubesse que andou folheando seu livro.
     E de repente, Jiang bem que desejava que ele estivesse por perto para poder brigar.
     Será que ele se lembrava dessa agenda esquecida no interior de uma caixa de sapatos onde habitavam duas pequenas aranhas?
     Jiang nunca imaginou que após se passarem três anos distantes, desejasse fervorosamente encontrar Huang.
       E não era apenas por causa de Syaoran.
       Saiu enfim daquele corredor e descendo as escadas para o primeiro pavimento, seu pai lhe sorriu no final da escada.
__E então? Encontrou o que esperava?
__Além de um monte de lembranças? Ainda não sei, pai.
__Jiang, fico realmente feliz que esteja aqui... Mas, não consigo deixar de me preocupar. Você sabe algo sobre o Huang que eu ignoro?
__Como eu poderia saber?__ Jiang perguntou, algo seco.__ Não o vejo há três anos, tal como o senhor... Só acho que Huang já se ausentou tempo demais.
__Eu concordo... Mas, Huang é um homem de vinte e seis anos. Se antes era difícil tê-lo sob controle, não espere que ele volte de bom grado.
__O senhor tentou ligar de novo para ele por estes dias?
__Eu tento todo dia... Acredite... E sempre ouço o mesmo recado na secretária eletrônica.
__Pai... Tem cerca de três semanas que Huang não dá notícias.__ Jiang insistiu, apreensivo.__ Eu estive com Enlai, a banda está separada... Ninguém sabe do Huang.
__Até parece que você não conhece seu irmão.__ Seu pai redarguiu em tom aborrecido.__ Lembra  aquela vez que ficou um mês sem dar notícias? Cheguei a notificar a polícia! E foi uma vergonha... Porque de desaparecido seu irmão não tinha nada.
__É, eu sei...__ Jiang suspirou, inconformado.
__Andou chorando lá em cima, não foi?
__Escuta, pai... É melhor eu voltar para a loja.__Jiang replicou evasivo.
__Se insiste... Dê lembranças ao Luciel, vocês dois deviam aparecer aqui qualquer dia desses. Não deixaram de ser melhores amigos, né?
__Isso nunca... Não sei o que eu faria sem o Luciel.
    Jiang abriu um sorriso meigo e abraçou seu pai, preste a ir-se daquela casa...

             Na volta para o bairro onde ficava a sua loja, Jiang deu uma folheada na agenda antes guardada em sua bolsa. Ocupava um dos bancos no fundo da linha em que os ônibus eram azuis.
     Não demorou a descobrir que Huang escrevia nas páginas todo tipo de coisa, não havia sequer uma folha em branco.
     Todas estavam cobertas por sua caligrafia em estilo cursivo.
     Não apenas escrevia como desenhava escalas pentatônicas, anotava as músicas que iria ensaiar com a banda, lembretes sobre o que tinha aprendido no Conservatório Shen Wang.
    Esse Huang que escrevia em sua agenda e colocava para si tantos compromissos, nada tinha a ver com o Huang que havia marcado os trechos sombrios no livro A redoma a vidro.
    Mas, a verdade é que ambas as facetas existiam em seu irmão.
    E o que Jiang queria descobrir, era que faceta vigorava em seu irmão naqueles dias em que ninguém sabia ao certo aonde ele andava.

Nota da autora: A parte do texto destacada entre aspas pertence ao Livro A Redoma de Vidro, único romance escrito pela Sylvia Plath. Eu li durante minha adolescência e serviu de divina inspiração para compor parte da personalidade do Huang Linden.

2 comentários:

  1. Acho que para sumir assim a face "vazia" dele deve estar se sobrepondo a qualquer outra que ele tenha :p parece até uma bipolaridade.
    amei as passagens do livro ♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, Golden... Eu super recomendo este livro. Leia-o na íntegra se puder. Na época que eu estava postando Ilegítimos no Spirit, fiz um monte de gente ler Demian do Hermann Hesse. ^^"

      Eu não parei para pensar se o Huang chega a ser bipolar, mas é verdade que ele tem alguns momentos de bipolaridade. Os sentimentos dele são de extremos.

      Excluir

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