25.6.17

O Segundo Anjo - Crônicas de Antuerpéria Parte 3 Chapter 33


Parte 3 Chapter 33  O anjo perdido por não conhecer a si mesmo

      Shou não podia acreditar.
      Aqueles túneis nas ruínas de Ankh pareciam não ter fim.
      Eram terrivelmente silenciosos e frios.
      De modo, que perdeu a noção do quanto andou, por onde andou até seus sentidos ficarem estranhamente entorpecidos.

      Não sabia se era o ambiente ou sua mente que turvava-se, tornava-se enevoado... Perdendo o contorno e a forma linear.
    Quando deu por si, tudo em volta tomava a forma de um lugar conhecido... Claro e sereno, doce e tranquilo, amoroso... Etéreo.
    Sacudiu a cabeça confuso... Era isso.
    O Plano Etéreo, a morada dos anjos.
    Mas, não via nitidamente os anjos, seus antigos companheiros.
    Eram vultos.
    Distantes.
    O vulto de Gabriel e Mikael... Assim como Metraton.
     Outros Anjos que guardavam as sete virtudes... Seis dele.
     Shou seria o sétimo, mas ele tinha sido banido e não protegia mais nada.
    Olhar para tudo isso, tudo que tinha abdicado e perdido, tudo que não veria mais... Fazia despedaçar seu coração, repensar suas escolhas que não tinham mais volta.
      As vidas que tinham sido perdidas por sua culpa.
      O mago Zessiel e o saqueador de corpos sem nome.
      A perda como um todo.
      Sem Etzel, sem Jang.
      Apesar de seu poder e imortalidade, de sua capacidade de infinito aprendizado, tinha falhado da pior forma possível.
     Aquele cenário, o Plano Etéreo, se fechara em meio a névoa e quando deu por si, ainda estava preso nas galerias e túneis tomado pela desolação.
    Contudo, estava a beira de um canal cercado de água, seguindo como um vasto rio que passava por dentro da montanha.
    Havia três colunas esculpidas em pedra e parte delas estava encoberta pela água.
    Shou se perguntou o que aconteceria se voasse sobre as águas. Se ele se propusesse a seguir seu curso, aonde terminaria? Com certeza esse rio subterrâneo desaguava em algum lugar e lá encontraria certamente uma saída.
     Abriu suas asas e antes que tirasse seus pés do solo, vislumbrou vago seu próprio reflexo na leve ondulação da água.
    Seus olhos se arregalaram de horror e perplexidade quando em se viu refletido.
    Suas asas convertidas num cinza denso, havia nervuras negras pulsando em sua pele.
    Deu um passo para trás, tomado pelo espanto e confusão, olhando compulsivo os próprios braços. Seu calçanhar bateu contra uma elevação no chão e Shou quase caiu. Segurou-se firmando os dedos nas fissuras das paredes de pedra e olhando mais uma vez, não encontrou nenhuma nervura real em sua pele invicta, puxou afoito uma pequena pena de sua asa e encarou o cálamo, o raque e as penugens não convertidas naquele cinza nebuloso.
     Mas, branco tal como deveria ser.
     Um pálido, opaco e tristonho branco.
     Essa visão refletida no rio era seu verdadeiro eu?
     Era o que poderia se tornar?
     Tudo que Shou conseguia fazer era se lamentar, censurar a si mesmo por ter errado.
      Não devia ter deixado Etzel sozinho no Castelo de Holden, nem deixar que Jang voasse para longe.
      Não... Não eram eles que precisavam de Shou.
      Shou é que sentia que não era nada sem eles.
      Sozinho como um menino preso no corpo de um rapaz.
      Na ausência de luz, quando as piores trevas eram as que tinha em seu íntimo.
      Shou ergueu seu rosto aturdido, pensou estar fora-de-si quando viu na penumbra uma pequena embarcação se aproximar, vindo pelo extenso rio.
    Em sua direção.
    Não conseguiu perceber quem conduzia a embarcação no primeiro instante, mas a voz era familiar quando o barco à remo parou rente à margem.
__Venha... Sei como sair desse lugar.
    Reconheceu em meio a sua própria confusão que era o viajante que o alertara sobre a captura de Etzel em frente aos portões do Castelo de Holden, assim como naquele instante também tinha o rosto oculto pelo capuz.
     Shou deu um passo indeciso em direção ao barco, olhou para trás e viu uma densa escuridão. Estava tão cansado do escuro, do silêncio, do frio entranhado na pele.
     O viajante levantou-se um pouco, estendeu-lhe a mão e Shou agarrou a palma dele no impulso, nem soube bem como subiu na pequena embarcação, ouviu o rio se agitar em torno do barco e respirava rápido como se aquela agitação também estivesse entranhada em sua pele.
     A mão do viajante estava quente em vista da sua, o calor era como um pequeno choque atravessando seu braço.
     Depois disso, ouviu apenas o som dos remos num ritmo constante e cada remada ecoava pelos túneis, sonolentas.
__ O que faz aqui?__ Shou indagou tendo a voz baixa.
__Isso não importa agora... Apenas descanse.
    A sugestão era tentadora, mas Shou engoliu tendo a boca seca e questionou quem era o ser por trás de cada remada, como era o rosto oculto pelo capuz... Ainda que estivesse perto, era difícil enxergar contornos, o delineado da face.
    Abriu devagarinho os lábios.
    Emudecidos.
 

       [Fim da parte 3]

   

4 comentários:

  1. Shou caindo nas garras de Saejin? Oh, tadinho do meu bichinho... :-\
    Já se perdeu nesse mundão por conta dele e agora é carregado pra sabe-se lá onde... Eu espero que Shou se saia bem dessa...

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    Respostas
    1. Caiu mesmo... E no que depender do Saejin, o Shou não sai de seus domínios tão cedo!
      Para sair só um milagre, ou um acordo... Como Finis Tempore não é domínio de Deus, então já sabe... Só um acordo com o demônio para conseguir "escapar".

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  2. Esse viajante parece tão caido do ceu como o Saejin
    Se for ele... bem que o Shou está tramado...

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    Respostas
    1. Pois é, Rima... Vamos combinar que todo mundo percebeu que era o Saejin, só o Shou mesmo para não desconfiar. :P

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