20.7.17

Ghost Memory Capítulo 6 por C.C


Capitulo 6

Como tinha imaginado a vida de solteiro realmente fazia mais o seu estilo. Há muito tempo que não se sentia tão leve e relaxado pelo facto de sair do trabalho e voltar diretamente para casa onde podia chegar às horas que quisesse sem precisar de justificações nem de conversas monótonas e repetidas como se ouvisse uma gravação sempre que passava daquela porta.
E isto podia até ser o paraíso não fosse...

- Bem-vindo!
A voz chegou aos seus ouvidos mal largou a pasta em cima do sofá.
Não sabia a partir de que momento é que o facto de aceitar que estava a ser assombrado ter passado a ser uma autorização para que o suposto fantasma começasse a viver com ele. A verdade é que desde aquele dia sempre que chegava a casa ele se encontrava lá à sua espera.
- Quantas vezes é que já te disse para saíres daqui?
- Não precisas ser tão frio comigo. Pensa em mim como o guarda-costas da tua casa.
- Não quero nada disso.
- Ah, a tua esposa ligou. Disse que ia ficar lá na terrinha mais uns dias. Queres ouvir?
Um véu de alivio cobriu-lhe a face deixando escapar um pouco dos seus verdadeiros sentimentos, pormenor que não passou despercebido ao rapaz.

Com o tempo a presença de ambos naquela casa tornou-se algo comum e o que era para ser uma semana sem a esposa, coincidência ou destino, tornou-se num mês. Não fazia ideia do que estava a prender a mulher em casa dos pais e as conversas que trocavam ao telefono não eram mais do que conversas cordiais quase como se não passassem de dois estranhos. Conseguia ouvir os colegas a brincar ao dizerem que tinha sido trocado mas essa brincadeira começava a fazer algum sentido. E mesmo assim isso não o incomodava como era suposto.
- Tu ao menos gostas dela? - Pergunta o fantasma rebolando no sofá entediado.
- O que queres dizer com isso?
- Bom, a maioria dos homens se a mulher deixasse de vir a casa e só desse desculpas esfarrapadas já tinha arrancado e ido à procura dela. Agora tu estás aí nas calmas sem te importares de teres meio mundo a chamar-te corno.
É claro que a palavra ofensiva o incomodava mas era verdade que não estava preocupado com a ausência da esposa e também não se importava que ela tivesse arranjado outro homem. Para ele era menos uma dor de cabeça.
A falta de resposta só serviu para enervar o rapaz que por sinal adiava ser ignorado.
- Mas é normal. Vindo de alguém que mata pessoas é previsivel que nem saiba o que é amar.
Quando se deu conta do que dissera já era tarde demais. O olhar frio e desprovido de emoções mirou-se nele como uma lança.
- O-Oi Steve...
- Fora. Sai da minha casa agora.
Não gritou e o seu tom de voz nem por isso soara alto. Era apenas um fio de som gélido e cortante sem qualquer sentimento envolto. Um espelho de alguém que já vivera num mundo pior que a morte.
***
Se o mundo pudesse se classificado por uma cor para ele seria preto. E como numa tentativa fútil de mudar isso usava a faca para o tingir de vermelho.
Mas desde o incidente em que quase fora exposto e ferido a escolha das vitimas tornara-se irrelevante. Já não passava tempo a analisar o caráter e a vida das pessoas, era notar, seguir e matar.
O sangue preenchia o chão por baixo do corpo caído aos seus pés. Os olhos opacos do assassino observavam o fruto do seu trabalho como se tudo aquilo pertencesse a outra realidade, como que a assistir através de uma televisão.
Um barulho capta a sua atenção. Ao lado do cadáver um telemóvel tocava. O assassino aproximou-se e olhou para o ecrã. Uma onde de choque cobre o seu rosto como se acordasse de um pesadelo. Na tela do aparelho aparecia uma fotografia de uma mulher a segurar um bébé no que parecia ser um quarto de hospital e por baixo a frase "A tua filha nasceu e está a chorar pelo pai. Volta depressa amor."
Não, não, não. Não estava certo, não podia ser, era mentira! Ajoelhou-se no chão tentando reanimar o homem mesmo sabendo que já não havia nada a fazer, ele nunca falhava uma morte.
Sentia como se a cabeça lhe fosse explodir e memórias distantes mas vividas taparam-lhe a visão como uma pelicula de filme a passar repetidamente.
Matara aquele homem que nada fizera de mal, estava apenas no sitio errado à hora errada, e agora ia deixar uma familia despedaçada no que deveria ser a altura mais feliz deles. Ia fazer uma criança passar pelo mesmo que ele passara, tornara-se no assassino que ele mais odiava.
Um grito ecoou por todo o espaço. Um grito que suplicava pela morte. E nisto, a faca que usara para ceifar tantas outras vidas iria por fim ceifar a sua.

Um comentário:

  1. Que louco o.O esse fantasma não sai mais do pé dele!

    É como um peso pelo passado..

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