5.8.17

Ghost Memory Capítulo 9 por C.C


Capitulo 9

Naquela noite dormira mais uma vez sem interrupções e finalmente descobrira a verdadeira razão. No chão aos pés da cama o rapaz contorcia-se no que parecia um sono perturbado. Já lhe passara pela cabeça que fosse por causa dele que os pesadelos haviam abrandado mas não imaginava que ele os poderia estar a ver.
Lágrimas começam a cair pela face do fantasma. Queria acordá-lo mas não sabia o poderia acontecer caso o fizesse.
- Steve...

                                                                 ***
Não conseguia continuar a assistir. Os seus olhos enchiam-se de lágrimas enquanto via Steve a entrar em choque com o que fizera. Pela primeira vez estava a perceber o que o fizera mudar. Normalmente pessoas como ele não perdiam a vontade de matar assim de repente, muito pelo contrário. A diferença entre eles e Steve é que ele perdera por completo a vontade de viver. Matar aquele homem que acabara de ser pai fora um choque maior para ele do que se fosse preso. Abrira feridas antigas que mesmo após todas as mortes não conseguira sarar. Fizera o mesmo que lhe haviam feito a ele e que consequentemente o tornara no que era. Na sua cabeça perturbada acabara de criar um ciclo sem fim que se repeteria para sempre.
E com aquele grito que mais parecia pertencer a uma alma penada ele ergueu a faca segurando-a com ambas as mãos como que para se impedir de desistir e...
O rapaz sabia o que ia acontecer a seguir, Steve ia cravar aquela lâmina e pôr fim à sua vida, e mesmo sabendo que não devia interceder nos sonhos não conseguiu ficar apenas a assistir e agarrou as mãos do assassino.
Um pouco de sangue escorria pelo fio da lâmina que fora parada com a ponta já a tocar a carne.
Por momentos nada aconteceu, como se o tempo tivesse congelado. Mas bastou o pingo tocar o chão e uma luz ofuscante invadiu o lugar deixando tudo à sua volta de um branco imaculado.
Encontrava-se sozinho naquele mundo sem cenário onde o horizonte não parecia ter fim. Não sabia o que acontecera mas sabia que fora causado pelo que fizera. Em criança chegara a ouvir a avó dizer que os sonhos eram o reflexo da realidade mas nunca levara a citação a sério. Para ele era apenas mais uma das histórias de embalar que ela gostava de contar. E se afinal houvesse um fundo de verdade nisso? Não significava então que ao impedir a morte de Steve no sonho poderia de alguma maneira ter afetado a realidade? Mas não. Steve estava vivo. E se aquele sonho era como um filme do passado dele queria dizer que fosse lá o que tivesse acontecido a seguir ele tinha sobrevivido. Sendo assim porque é que tudo se tornara branco?
- Relaxa, não afetaste nada fora daqui, quase nada. - Uma voz desconhecida ecoa pelo espaço monocromático.
O rapaz olha em volta. Não era possivel um fantasma ser assombrado, certo?
- Quem está aí? - "Que dejá-vu."
- Não é quem, é o quê. - Um menino, na verdade um Steve pequenino, aparece atrás dele. - Pode-se dizer que sou a segunda personalidade do Steve, algo antes da morte dos pais dele. E só para saberes eu fui a causa dele não ter morrido. Consegui "domá-lo" antes de espetar a faca demasiado fundo e arrastá-lo para casa.
- És um Steve muito conversador. Estou um pouco chocado.
- Dizem-me muito isso. A questão é, mexeste em algo que não devias o que significa que neste instante o Steve está a sofrer o que eu chamaria de uma crise existencial.
- O que queres dizer com "crise existencial"?
- Resumindo, como és uma identidade abstrata entraste em conflito com a mente racional dele ao tocares no sonho. Logo a mente dele quebrou, daí a razão do fundo branco.
- E agora? - Uma lágrima ameaça cair pela face do rapaz. Afinal sempre cometera um erro imperdoável.
- A solução mais óbvia seria repor a mente dele ao que era antes de voltar a ter estes sonhos.
- Como?
- Eliminando o que causou o problema. Ou seja, tu.
- Vais exorcizar-me?!
- Não burro, vou apagar as memórias que ele tem de ti. Talvez apagar não seja a melhor definição, digamos trancar.
- Mas eu...
Agora era o rapaz que parecia perdido naquele mundo cercado de branco perante o olhar de um pequeno Steve demasiado sério para ser considerado uma criança. Sabia que a culpa daquilo estar a acontecer era sua e como tal teria de se responsabilizar mas também sabia que ser esquecido iria significar desaparecer. Voltar para aquele cemitério vendo o sofrimento na cara da familia sempre que iam levar flores que só serviam para lhe relembrar que estava morto.
Se era isso que a morte significava porque é que os sentimentos não desapareciam com o resto? Já nem um corpo tinha porquê ganhar sentimentos que nunca poderiam passar de simples ilusões? A solidão já não era suficiente para o atormentar? Se era assim que tinha de ser preferia que o mundo se destruísse...
- Podes parar fantasma. - A voz do menino volta a ouvir-se impregnada do respeito que o fazia dono daquele lugar. - Se continuares a ter esses pensamentos vais transformar-te num espirito vingativo. Então aí é que virá alguém para te exorcizar.
- Mas o que é que eu faço com este turbilhão de emoções? Os mortos não deviam sentir nada!
- Esquece. Esconde. Tranca.
- Mas eu gosto dele...

Um comentário:

  1. Realmente tudo está um turbilhão.... esse amor certamente dá um ar de impossivel, mas fazer tudo pela pessoa amada já é muito bom, nem que seja sacrificios

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