Sight Of Sea II Capítulo V por Kisu


Nota da Autora: Este e os próximos capítulos são as lembranças do Kyle mostradas ao William na casa da Malick.

Capítulo V - Those Distant Yet Recent Past Memories by Kyle Cole

A notícia de que um dos navios de Corsa Real havia queimado em alto mar não demorou a se espalhar e com ela os cartazes de procurados para quaisquer dos tripulantes que pudessem ter sobrevivido.
Relatos diziam que Viers roubara um tesouro de Scafer e ainda atacara a tripulação do Reino estrangeiro, atos de completo ultraje a que se seguiu a exigência de uma fortuna em compensação que caso viesse a ser paga levaria Viers à falência.
Estávamos diante do que seria uma iminente guerra externa, senão interna se não acatássemos as ordens de Scafer.
Evitando jogar lenha ao fogo cujo resultado residia em uma inevitável guerra, a realeza de Viers colocara um preço pela cabeça de todos os envolvidos do Atlant Imperis V na chacina daquele dia e cujos corpos não haviam sido encontrados como precaução para o caso de alguém ter sobrevivido.



Roy nos deixou logo que chegamos em terra firme. Quanto a John, passamos algum tempo juntos, mas logo cada um seguiu seu rumo e antes de partir para a cidade vizinha, ele me entregou o diário de bordo e algumas cartas, tudo de Cameron, mas me senti ainda pior ao perceber que não compreendia uma palavra das cartas escritas em uma língua desconhecida. Acredito que foi o jeito de John dizer adeus de vez…
Ia para três semanas desde que eu e John nos afastamos após discutirmos. Sabia que ele estava certo e que não deveríamos retornar às nossas casas, pois estariam sob vigília, mesmo assim brigamos e não pude evitar de me sentir envergonhado assim que soube que ele se recusava a voltar mesmo tendo esposa e filha.
Ele conseguia se manter trabalhando como médico clandestino, quanto à mim… Tinha todo o cuidado de esconder minhas madeixas ruivas e usar máscaras ao encenar na rua como atirador de facas e por vezes ao desafiar os passantes em quedas de braço. Contudo, isso não rendia muito e passei a furtar após treinar o suficiente para ter mãos leves.
Por sorte a cidade de Alanour era grande, bem movimentada e com muitos afortunados.
“Hoje não consegui muito e amanhã acabarei tendo de ir para outro lugar mais distante para não levantar suspeitas… Devo cortar alguma refeição para economizar? Ou será mais fácil mudar de cidade?” parei ao passar em frente a uma relojoaria, um rapaz andava feito doido de um lado para outro auxiliando o mestre com os instrumentos que lhe eram pedidos e aquilo me lembrou de casa e de Cameron, da época em que toda a minha atenção e dedicação se voltavam a ele…
Saí de meus pensamentos ao trombarem em mim e antes que pudesse me levantar propriamente já sabia que haviam tomado meus dobrões. Me virei para ver bem quem era o infeliz e o moreno andava despreocupado até olhar por cima do ombro talvez em sinal de deboche ou para confirmar que eu não havia dado falta do saco de moedas.
Ele disparou a correr por dentre a multidão ao reparar que eu o observava furioso, ciente do que ele fizera.
Fui a seu encalço perseguindo a negritude de seus cabelos balançando a cada rua que ele virava, cada tenda e barril por que ele saltava. Ele era tão veloz que estava se distanciando mais e mais. Era um ato arriscado, mas peguei a faca escondida debaixo do colete e arremessei nele ao chegarmos numa rua menos movimentada conseguindo prender a sola traseira de sua bota ao chão de terra. Ele caiu com força, levantando um punhado de poeira, e antes que pudesse fazer algo eu já estava em cima dele mirando a ponta afiada de um estilete que saquei em sua garganta.
- Não me mate. Foi… uma brincadeira? - seus olhos azul-claro brilhavam separados por umas poucas sardas espalhadas sobre seu nariz.
Essa última parte me deixou ainda mais irado, mas se eu o matasse diante de tantas testemunhas, chamaria mais atenção.
- No meu bolso traseiro! - ressaltou dando a entender que se tratava do meu dinheiro.
Tive que me levantar um pouco para que ele se virasse, mas assim que reparei que ele sequer tinha bolsos e que pretendia provavelmente me cegar com terra antes de correr, meti sua cabeça no chão e ele tornou a se desculpar, desta vez deixando cair meu saco que estava bem escondido na manga de seu casaco.
Peguei o que me pertencia e a faca que ainda estava fincada em sua bota e o deixei para trás como se não me importasse apesar da raiva. Ficar por perto apenas atrairia olhares curiosos ou até mesmo guardas em patrulha.
- Ei, espera! - o menino gritou, segurando a manga de minha camisa logo que me alcançou. - Aquilo que você fez foi tãaaaao legal! Jamais ninguém reparou que havia sido furtado ou mesmo me perseguiu… Você ainda conseguiu me alcançar! E como soube que eu ia fugir? Ah, e qual é seu nome? O meu é Elliot! - falava aos montes, seu rosto antes claro agora estava marrom de terra assim como suas roupas e ele não se importava.
Para minha surpresa, notei que apenas sua aparência lembrava vagamente de um moleque, mas ele era tão alto quanto eu.
Tentei ignora-lo, mas ele entrou de uma vez na minha frente e minha reação foi mais forte do que eu: cerrei o punho na gola de sua camisa suja e fechei o cenho.
- Não entendeu ou quer apanhar, moleque? - grunhi e ele estranhamente ficou em silêncio me olhando, mas não durou muito.
- Seus olhos são cinza! Uau! - exclamou com encanto metendo as mãos a segurar-me a face. - E seu cabelo… Ruivo! Como você fez, mestre? - inquiriu removendo meu chapéu.
- Devolva!!! - entrei em pânico inconscientemente e só me acalmei ao ter meus cabelos novamente escondidos.
Soltei a gola do menino, mal o conhecia e já tinha dores de cabeça.
- O que deseja para me deixar em paz? Vou ter que te bater no fim das contas para ter silêncio? - suspirei massageando as têmporas.
- Diga-me seu nome e por favor seja o meu mestre e me ensine como você fez tudo aquilo!
- Cole e não, tenho mais o que fazer, garoto.
- Cole… Cool*?… So coool!!! Acho que você está me enganando, mas gostei ainda mais de você, Cool! Posso te chamar de Cool, certo, Cool? - perguntou agarrando o meu braço. - E quando começamos?
Dei-lhe uma cotovelada forte para que me soltasse e fui embora enquanto ele se levantava dolorido do chão gritando algo como “te espero amanhã, Cool”.
Havia me deparado com um idiota sem igual e que não me dava ouvidos.
“Ah, e pensar que eu estava gostando tanto da cidade por ser fácil de me movimentar. Não deve ser possível que torne a encontrar este moleque louco” pensei.


Cool = “legal” em inglês
So Cool = “tão legal” em inglês

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