Devalli Demons Capítulo 70 por Golden Moon


Capítulo 70

Eu sempre pensei que, desde que conheci a família de Dylan, grande parte de sua vida e dos seus sentimentos estavam esclarecidos para mim. Sentia que ficava cada vez mais perto do verdadeiro Dylan.

Porém, nunca pensava vê-lo como ele estava quando adentrei em seu quarto. Primeiro, batemos em sua porta e ninguém atendeu. Philippe se dispôs a chamá-lo, avisando que eu estava presente, e assim mesmo ele não nos atendeu.



— Você quer entrar mesmo assim? — disse Philippe, buscando algo sobre o bolso da calça.

— Ele não vai me fazer mal. — disse, confiante de minhas palavras.

Ele encolheu os ombros de novo, girando a chave. A porta se abriu lentamente e, no mesmo ritmo, eu adentrei no quarto. Um corpo quase desnudo estava em posição fetal sobre a cama. Eu não sabia se ele estava dormindo, então chamei seu nome num tom mais baixo que conseguia. Ele não se mexeu.

A porta se fechou atrás de mim, mas não parecia ter sido trancada.

— Dylan? — chamei novamente, um pouco mais alto, mas ele continuou quieto, inerte. Deveria estar dormindo um sono pesado.

Contornei a cama e me agachei bem próximo ao seu rosto.

Para a minha surpresa seus olhos estavam bem abertos. E vermelhos. Sua barba estava por fazer e eu não conseguia entender aquele seu estado tão alheio.

— Fala comigo, amor...— coloquei a mão sobre o seu rosto e o afaguei.

Ele piscou os olhos, um pouco mais lento do que o normal. Os olhos vermelhos de Dylan brilhavam intensamente. Era a fera que eu temia bem à minha frente. Porém, ela estava mansa, quase domesticada.

Assim mesmo meus dedos estremeceram enquanto eu o acariciava.

Eu não entendia a violência dita por Philippe naquele olhar ‘morto’ que me encarava. Quando percebi, lágrimas saíam de seus olhos.

— Dylan? — eu me sentei ao seu lado à beira da cama.

— Eles morreram por mim, Will.— a voz grave quase que não saía de sua boca. — Os Goons... Eles..

Continuei calado, agora compreendendo um pouco do seu sofrimento.

— Eles mataram os seus pais. — completei a frase.

Ele balançou a cabeça, as lágrimas espalhando-se pelo seu rosto. As mãos sobre a cama apertavam o lençol de tal forma que eu achei que fosse rasgá-lo a qualquer momento. A respiração de Dylan estava pesarosa e seu corpo quente… os olhos continuavam a brilhar, como de uma fera pronta para atacar a primeira presa que surgisse à sua frente. Era a face de um prodígio, como eu vi aquelas vezes com Gilbert. Porém, pensei, Dylan já era treinado: segurava-se para não explodir a violência que concentrava em seu corpo.

— Eu quero matá-los, Will. — ele se ajeitou sobre a almofada — mas a criança...

Era um pouco contraditório e essa contradição parecia consumir Dylan.

— A criança é o maior bem que eles poderiam ter, Dylan.

— Eu não vou fazer isso. — ele se levantou bruscamente, sentando-se sobre a cama. Percebi meu corpo recuando aos poucos e isso não passou despercebidos os olhos de Dylan, que recaíram sobre mim, pesarosos.

— Você está com medo de mim, não é? — grudou os dentes sobre o lábio inferior. Ele estava com raiva, era evidente. — o que disseram pra você?

Meneei a cabeça, sem conseguir negar, nem confirmar qualquer coisa. Baixei os olhos, sem mais ter coragem de olhar para Dylan. Continuei calado, recolhido à minha insignificância.

— Desde o principio era para você ter medo de mim, William. — tive de voltar a olhá-lo novamente e percebi escamas negras surgirem em seu rosto e ombros. — Como todos nessa cidade.

Voltei a olhar para os lençóis brancos e as mãos dele continuavam a apertar o tecido. Meu medo apenas crescia. Eu o traía?

— Eu vim aqui porque precisava te ver, Dyl. Achei que você precisava de mim. — disse, quase em um sussurro. Ouvi a respiração dele se tornar mais profunda. De repente, senti algo quente tocar em minha mão e, quando percebi, eram os seus dedos que passeavam levemente por minha pele. Por um momento, meu lábio tremeu e meu medo ficava ainda mais exposto.

Mesmo quando eu o vi em toda sua forma demoníaca, eu nunca tinha sentido tanto medo de Dylan. Os olhos vermelhos me intimidavam. Suas escamas, que apenas cresciam, pareciam querer saltar e cravarem em minha pele.

Porém, eu não queria sair dali.

— Seus pelos... — os dedos passearam para o meu braço e eu continuei inerte, esperando o que viria depois — estão eriçados de medo.

Eu juro que poderia ter tentado me controlar, mas o primeiro soluço veio e, quando notei, as lágrimas já invadiam o meu rosto. Eu queria ser alguém que não tivesse medo dele. Eu não queria traí-lo daquela forma... Mas diante daquela situação, de toda aura que nos rodeava... Eu não mais aguentava segurar tantas pontas soltas. Estava em meio ao fogo cruzado.

O corpo robusto e quente de Dylan se aproximou de mim e eu sentia a respiração dele, ainda fervorosa, bem na curvatura do meu pescoço. Os lábios finos dele beijaram a região e um toque intenso segurou o meu pulso. Sua carícia invadiu minha face e eu virei o rosto para ele... Os olhos vermelhos tinham íris verticais. Em nenhum momento eu tentei recuar dele, e uma estranha excitação tentava surgir em meu corpo.

— Nem que seja a última vez que eu vou te tocar... — Dylan sussurrou, deixando aquela frase ao ar.

— Não diz isso, Dylan.

— Ainda tem medo? — ele semicerrou os olhos, como se me desafiasse, e eu não pestanejei antes de lhe confessar,

— Sim. — não consegui mais encarar o seu olhar.

Sua mão livre veio para o meu rosto e o levantou, forçando-me a ficarmos face a face. Meus olhos continuavam inundados de lágrimas e Dylan me beijou, ainda me desafiando. A minha mão livre, ainda trêmula, de um modo quase orquestrado, direcionou-se ao rosto dele. Senti a aspereza de suas escamas, uma onda estranha de pavor inundou o meu corpo. A forma como Dylan me beijava só poderia ser descrita como… lasciva. Ele sempre explorava um pouco os meus lábios em seus beijos, mas não da forma visceral como fazia no momento. Eu notava a força de suas mordidas, do modo como sugava minha pele, como se tentasse arrancar minha alma através daquele beijo.

Meu pulso estava vermelho e quando ele me abandonou não resisti a gemer de dor. Ele o soltou no mesmo instante. Agarrei a mão contra meu próprio peito, observando-o como uma presa acuada.

Eu costumava chamar Dylan de meu predador. Mas a verdade é que eu nunca havia o vivenciado completamente como um predador. Eu o vi em luta corporal com meu tio e percebi uma perversidade esquisita em como ele estrangulava Erin.

Agora Dylan me observava daquela mesma forma. Tanto que eu mal consegui encarar  seus olhos e me encolhi novamente.

Quando olhei para aos lençóis, suas mãos estavam cobertas de escamas. E esta mesma mão se direcionou ao meu rosto novamente. Eu fechei os olhos, mas de vergonha.

Vergonha do meu medo. Vergonha daquele meu ridículo recuo a frente dele.

— Deita aqui, Will.

Meneei a cabeça, de modo quase inconsciente. E então eu me levantei.

Os pés como se tivessem vida própria, correram para fora do quarto, impulsionados pelo sentimento que me invadia.

Quando já estava no corredor, duas mãos fortes me seguraram por trás e eu virei repentinamente, os olhos vidrados, estreitos.

Mas não era aquele quem eu temia no momento.

Os olhos castanhos caramelados de Louis me observavam com o mesmo susto que talvez estivesse estampado em meu rosto. Recuperando-me do impacto do susto, quase senti vergonha ao notar que eu deveria ter o acordado com a correria.

Os cabelos lisos estavam completamente jogados em seus ombros e Louis usava um roupão preto, entreaberto, que deixava parte de seu peitoral à mostra.

— Dylan fez alguma coisa com você?— a voz suave dele não estava sonolenta, minha vergonha passou naquela hora.

Balancei a cabeça para os lados. Mudo, sem conseguir exprimir qualquer palavra. O toque de Louis tornou-se mais frouxo, quase paternal.

Philippe surgiu atrás dele, olhando-me com preocupação.

— Não houve nada, eu só… — suspirei, segurando minhas lágrimas. Mas foi tarde demais. — Tive medo.

Minha voz saiu embargada, e meu rosto manchou-se de lágrimas novamente.

Então,  Louis teve uma atitude que jamais eu imaginaria que viria dele. Aninhou-me em seus braços e como se este fosse minha própria mãe, agarrei seu roupão, chorando como uma criança perdida. Philippe acariciou meus ombros, ajudando seu irmão na abordagem.

Naquele momento, eu notei que os dois sabiam que aquilo aconteceria em algum momento.

5 comentários

  1. Eu tenho que ser a primeira a comentar, porque esse capítulo foi particularmente arrepiante e intenso. Fiquei o tempo todo "Oi?... Uau!"
    Senti o medo e a confusão do Will... E a excitação também.

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    1. Obrigada, Mel <3 foi um capitulo bem complicado de escrever, é um lado do Dylan bem obscuro... Que ainda será um pouco mais revelado nos próximos capítulos.
      Spoiler: fiz algumas partes na visão dele hehe

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    2. Visão do Dylan?... Jura? Own! Ansiosa para ler a perspectiva dele.

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  2. boa noite Golden, o capitulo está maravilhoso. estava ansiosa pra ler, obrigado pela história belíssima

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    1. Oi, Dineia!! Muito obrigada por acompanhar, fico contente por gostar ^_^

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