Devalli Demons Capítulo 71 por Golden Moon


Capítulo 71

Andamos para dentro de um quarto e quando vi a gatinha Isis deitada sobre uma almofada, soube que era o recinto de Louis. O quarto era espaçoso e os tons em preto e cinza combinavam perfeitamente ao seu dono.

Em um sofá, bem a frente de uma janela, sentamos um de frente ao outro. Philippe acomodou-se em uma poltrona. Isis logo apareceu para sentar-se no colo do dono.



— Você o avisou, Philippe? — antes de me dizer qualquer coisa, ele olhou duramente para seu irmão, questionando-o.

— Claro que sim! — exclamou o mais novo.

— Não é culpa dele, eu quem quis entrar. Mas não imaginei que ele estava daquele jeito.

— Dylan está se controlando, William. Você não viu nada. — encarei Louis, um pouco assustado. — Você já viu o seu primo. Como ele é criança, não tem controle de seus impulsos.

— Por que ele ficou assim de repente? — perguntei-lhe, talvez já soubesse a resposta, mas Louis sempre parecia saber se algo mais.

Os irmãos se entreolharam, como se questionasse o porquê da minha perguntas. Mas assim mesmo ele me respondeu.

— Seus pais… foram Goons que os mataram. — Louis agarrou sua gata entre os braços, como se ela fosse um urso de pelúcia.

— Eu sei, ele me contou. Mas há algo mais? —me inclinei para frente, a fim de ficar próximo de Louis.

— Essa situação o lembra de quando seus pais foram assassinados… Também foi em um baile, mas em Geórgia. — continuou Philippe. — Dylan acaba se descontrolando, as lembranças são fortes demais para ele.

— Ele não quer matar a criança. — baixei os olhos, ainda sem saber o que pensar sobre aquele assunto.

— E você também não, já que é seu primo, certo?

Respirei fundo e olhei para Louis, e seu olhar não era ferino como sempre. Ajudava-me a recuperar a confiança.

— Eu não sei, Louis… Eu só quero o que seja melhor para todos nós.

Em uma cumplicidade estranha, os irmãos se entreolharam, como se passassem uma mensagem.

— O melhor para todos nós você já sabe o que é.

Aquiesci ciente do que ele me dizia. Eu já sabia, é claro. E não poderia fazer nada a respeito. Por um momento, olhei para a porta, considerando ir até Dylan e me despedir dele.

— Não vá agora.

Então um baque surgiu ao longe, eu e Philippe fomos tomados por uma onda de susto, enquanto Louis continuou impassível, sabendo do que se tratava. Sua frase anterior soou como uma premonição.

— Ele…

— Gostaria que Elizabeth estivesse aqui agora. — ele suspirou e Isis saiu de seu colo, dirigindo-se a porta.

— Isis! Volte aqui! — a voz dele soou tão áspera, que até eu senti medo. Em uma indiferença própria dos gatos, Isis parou seu caminhar calculado no mesmo instante e deu meia-volta, acomodou-se nas almofadas.

— Acho melhor você ir, Will. Eu te acompanho até em casa. — Philippe se levantou e eu o acompanhei anda no até a porta.

Antes de sair, já na soleira da porta, soltei um mudo “obrigado” a Louis, que me retribuiu, acenando-me com a mão.

Philippe me acompanhou, andamos pelo corredor, ao som de baques ao fundo. Eu sabia que aquilo tudo vinha do quarto do Dylan. Era como uma fera presa dentro de uma jaula.

Antes de descermos a escada, eu olhei para trás, encarando a porta do seu quarto. Philippe me observou e, pelo modo como colocou a mão sobre o meu ombro, já imaginava o que eu pensava.

 — Ele vai voltar ao normal?— perguntei, já pretendendo o choro.

— Sim, vai. Deixa a Lizzy chegar, ela sabe como acalmá-lo.  — olhei para ele de volta, também agradecendo-a pelo apoio— Vamos?

Eu adiantei o passo, seguido por  Philippe. Saímos da casa e eu não olhei mais para trás.

Quando adentrei em casa, a brilho do baile era tamanho que ninguém notou a tristeza evidente em meu rosto. Parti para o quarto onde eu ficaria hospedado, sentando-me sobre a beira da cama.. deixei que as lágrimas silenciosas rolassem pela pele cansada do meu rosto.

Joguei o corpo sobre a cama e aquele forro de madeira escura era a única visão que eu tinha no momento.

Não queria mais sair, não queria ir a baile algum. Comecei a sentir medo do que poderia acontecer. Permanecia ali, naquela cama, inutilmente tentando restaurar energias.

Porém, no finalzinho  tarde, a movimentação ficou tamanha dentro da casa, que eu fui obrigado a levantar e me mexer para estar pronto às sete da noite.

Minha mãe trouxe toda a roupa bem engomada, cheia de bobes em seu cabelo.

— Filhote, vamos mexa-se! — um sorriso enorme se fazia em seu rosto.

Meus movimentos eram quase automáticos. Olhei para o azul cristalino que reluzia sobre os olhos de Jasmim e, então, ela percebeu que eu estava com algum problema. Seu sorriso se fechou no mesmo instante.

— Filho...— começou, e eu já sabia que viriam palavras motivacionais… então tratei de me sentar para ouvi-las.— Eu sei que você tem seus problemas com o tio, mas precisa ficar mais animado. Foi uma grande vitória para ele.

Olhei bem para Jasmim e aquela vontade imensa de dizer-lhe tudo sobreveio novamente. Deveria me controlar, como sempre. Mas não consegui resistir a soltar-lhe pelo menos uma fagulha.

— E se tudo fosse uma mentira, mãe? — disse, enquanto vestia a camisa social, lentamente.

Os olhos de Jasmim se estreitaram e eu continuei impassível, abotoando a camisa.

— Não diga isso, William! — ela apontou o dedo sobre o meu rosto, nervosa — Não tente desmerecer o seu tio.

Aquiesci, ciente que deveria parar por ali. Ao perceber o meu recuo, ela se endireitou.

— Esteja pronto às sete. — foi a última coisa que disse, antes de me olhar com desconfiança e dar meia-volta para sair do quarto.

Ela pediu, então lhe atendi. Às sete em ponto eu somente dava alguns ajustes em meu cabelo, colocando-o para trás, porém, estava completamente vestido e perfumado.  Minha mãe apareceu no quarto novamente e parecia uma grande dama em um vestido azul celeste, com suas rendas e pérolas. Jasmim às vezes parecia espalhafatosa, mas dessa vez estava até discreta.

Suas mãos foram direto para o meu rosto e agarram-no como se eu fosse seu bebê.

— Vamos, me dê um sorriso.

— Mãe, eu tenho dezessete anos. — continuei com a expressão fechada, mas ela insistiu, então forcei o sorriso mais falso que consegui no momento.

— Com um sorriso desses, ninguém vai querer dançar com você.

— Não estou nem um pouco interessado nisso, mãe. — fugi de seu olhar, sabendo que receberia reprimendas.

— As mocinhas mais bonitas da cidade estarão lá, meu amor. — eu achei que ela já tinha superado isso, mas acho que me enganei.

Saí do quarto e ela seguiu atrás de mim. Antes de sair do corredor, dei de cara a Stefan, também bastante arrumado, vestindo fraque, assim como eu.

— Aposto que conquista todas as garotas dessa cidade. — ele semicerrou os olhos, encarando-me diretamente. Sabia de algo além da minha parceria com os Devalli,  com certeza. Erin despejou tudo que sabia.

Não quis respondê-lo, então Jasmim fez isso por mim.

 — É verdade, Stefan. Mas ele não está interessado nisso agora.

O riso irônico de Stefan doeu em meus nervos. Éramos os dois quase do mesmo tamanho, apesar dele ser mais velho que eu, mas ele era um pouco mais robusto. Quis socá-lo, mas acho que sairia arranhado.

Logo as outras damas surgiram e, então, eu vi Gilbert sentado ao sofá, completamente arrumado. Meu irmão não iria, ficaria sob os cuidados de uma das  empregadas da casa. Comecei me perguntar… o que uma criança faria em um baile? Isso poderia ser até vantajoso aos Devalli.

Tive receios de externar a minha  pergunta, então apenas passei por ele, sendo observado de cima a baixo por aquela criança de olhos questionadores.

Passamos a varanda e as carruagens já estavam a frente da casa. Especialmente decoradas para aquela ocasião...

Que grande bobagem.... pensava, enquanto caminhava, à frente de todo mundo, para os portões da casa.

Tudo aquilo era uma grande bobagem.



Dylan Devalli

Eu não sabia exatamente o que acontecia comigo quando o meu ‘sangue demoníaco’ me dominava completamente. Chamavam aquilo da face de um prodígio.  Temiam-me, mas me aclamavam por eu ter aquele poder. Poucos sabiam o quanto aquilo doía em mim. Era somente tocar em algo que me abalasse e aquele estupor tomava conta do meu corpo de modo impressionante. Nada ficava parado à minha frente. O sangue quente parecia ir e voltar e, quando o ataque terminava,eu olhava para o quarto, vendo tudo destruído... pelas minhas próprias mãos. Depois que William saiu do quarto, minha visão tornou-se turva e destruí, destruí, até que caísse cansado aos pés da cama.

Mesmo sabendo que aquilo aconteceria um dia, eu não aceitava muito bem o medo dele. Eu vi, nos olhos de William, o quanto ele me temia naquele momento... Estavam vidrados, assustados, como eu nunca vi aquele azul cristalino antes. Enquanto a fúria se espalhava pelo meu corpo, as lágrimas rompiam-se nos olhos. Era doloroso ser rejeitado, era doloroso ter que agüentar aquele poder durante toda uma vida. Se eu pudesse nascer novamente, provavelmente não queria ter nascido um prodígio... Talvez nem alguém com sangue demoníaco. Eu amo minha família... Amo-os, todos eles. Mas nada vai trazer de volta os meus pais que perdi por conta disto... Nada... Nada... Fará as pessoas me olharem como alguém digno de confiança. 

— Dylan, acorde. — ouvi a voz quase sussurrante de Elizabeth me chamar. Custei a abrir os olhos. A escuridão do olhar dela me encarava e havia tamanha firmeza naquela expressão que me fez levantar o rosto completamente para encará-la.

Notei que Elizabeth estava agachada ao meu lado.

— Nós precisamos estar bem para o dia de hoje, compreende?

Aquiesci, respirando fundo. Eu sentia aquelas escamas subindo e descendo no meu rosto, como se aquele poder ainda resistisse a me abandonar. Era estranho sentir aquilo formigar em minha pele.

 — Hoje é o dia em que pode finalmente vingar a morte de seus pais. — a mão delicada de Lizzy alcançou o meu rosto e eu via tanto carinho em seu olhar. — Vamos deixar nossas diferenças de lado e lutar juntos, me ouve?

“Deixar as diferenças de lado...” eu não sabia como. Porém, de uma coisa eu tinha consciência: precisava lutar também. Não somente pelos meus pais que morreram, mas pela minha família e por William.

Eu não suportava aquele poder. Porém, já que ele fazia parte de mim, precisava usá-lo de forma que pudesse proteger quem eu mais amava. 

2 comentários

  1. Gostei desse finalzinho
    Dylan tem que continuar com esse pensamento!

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  2. Ele vai continuar, sim, pode ter certeza!

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