Red District This Side of the Moon 35 por C.C & Mel Kiryu


Prólogo - Livre mas desconfiado (por C.C)

O ar fresco da manhã chegava-lhe aos pulmões como um choque que se espalhava por todo o corpo dando-lhe força para continuar a correr. Desde que começara a trabalhar no Paradise que decidira praticar exercício para compensar a vida sedentária que levava, se bem que agora com os espetáculos de dança também se exercitava no Host. Mesmo assim correr passara a ser um dos seus hobbies e muitas das vezes ajudava-o a ter uma ideia mais clara dos seus problemas, este era um desses momentos.

Por alguma razão que desconhecia deixara de ser seguido e tendo em conta a sua natureza desconfiada isso só podia significar duas coisas, as pistas falsas que usara fizeram efeito e encontraram interesse noutra pessoa. Para Watari, pelo menos uma dessas era boa noticia já que estava farto de ter de medir todos os seus movimentos para não levantar suspeitas, mas só a hipótese de aquele homem voltar a sua atenção para outra pessoa deixava-o com um mau pressentimento. Especialmente depois de ter descoberto o seu suposto interesse passional num certo michê.
Chegou a pensar meter Kaito a vigiá-lo mas seria demasiado arriscado para a segurança da criança que inclusive voltara a contactá-lo para relatar algumas informações que descobrira entre os outros órfãos que se costumavam fixar perto do bar de Hagane.
Watari parou para beber um gole de água num bebedouro de um parque perto da sua casa. Uma comichão irritante corria-lhe pelas costas devido ao suor mas a voz de Ren ecoou na sua mente:
"Comichão? Será que a tua cobra está a rastejar?"
Ridiculo. Fosse como fosse, ridiculo ou não, a verdade é que sempre que a "cobra rastejava" era sinal de mau presságio.

                                                       Capitulo 35

Os olhos esbogalhados fitaram-se nele enquanto o tamagoyaki caía em seco no meu estômago, ao passo que ele dizia:
- Pois... Está decidido, Master. Eu somente contarei factos sobre mim depois de cada vez que fizermos sexo... Esse é meu jeito de colocá-lo de castigo.. Assim como faz comigo.
Ameaça...? Eu acabara de ser ameaçado da maneira mais fofa e cruel por aquele rapaz que agora fugia sutilmente sem deixar espaço para que eu contradizesse o seu ultimato. Ainda pensei em ir atrás dele mas por agora queria deixá-lo acreditar que tinha ganho esta jogada.
Arrumei a cozinha e fui até à sala onde me sentei ligando a televisão. Lawrence parecia ter-se escondido em algum canto por isso ficaria ali à espera que ele voltasse. Aproveitei para dar uma vista de olhos no meu telemóvel que havia ignorado desde que deixara a Yuuka-san em casa. Havia duas mensagens de Watari. Numa delas enviava-me um ficheiro com a identidade do outro homem que maltratara Lawrence e os pormenores da sua morte bem como os indicios que levavam a crer que tinha a mão da máfia. Na segunda a informação que mais me incomodou. para além da fotografia de um homem, que ele nomeou como o responsável pela sua perseguição, havia os detalhes de um presumível interesse por Lawrence e como tal, devido às minhas atitudes pouco discretas dos últimos tempos, a possibilidade de se interessar por mim. Olhando a foto com atenção eu tinha quase a certeza que já vira aquele homem uma ou duas vezes à porta da Houkan House. Claro, nunca supus que ele pertencesse à máfia e muito menos que fosse cliente do rapaz.
Uma pontada de ciúmes alcançou-me e por momentos tive ânsias de atirar com o telemóvel contra a parede. Afugentar vermes e parasitas que só estavam interessados na recompensa era uma coisa, agora afastar alguém cujo interesse ultrapassava o dinheiro e beirava o romântico seria um desafio muito mais complicado.
Tateava no ecrã escrevendo uma mensagem a agradecer a informação quando ouço passos a aproximar-se e Lawrence senta-se no chão encostado ao sofá ao lado das minhas pernas. Podia perceber o receio nele e não sabia se o silêncio se devia a não saber o que dizer ou a estar demasiado consciente sobre o que dissera minutos atrás na cozinha.
Guardei o aparelho pousando-o em cima da mesa de centro e recostei-me no sofá. Já sabia bem relaxar um pouco para variar. Isso se um certo garoto emburrado não estivesse ali à espera que eu iniciasse uma conversa.
- Então, o que vamos fazer?
- Tem alguma sugestão de onde podemos ir? Com certeza conhece esse lugar melhor que eu.
- Até à hora de almoço estou por tua conta. Depois quero levar-te a um sitio.
- Ontem... No caminho para a aldeia, ouvi som de água corrente... Tem algum rio ou cachoeira desaguando nessa região?
- Hum... Há uma pequena queda de água no centro do bosque. Podemos passar lá logo à tarde se quiseres.
- Eu gostaria muito... Chega a ser embriagante essa sensação de liberdade, nem parece real... Acho que é porque sei que pode terminar quando eu menos esperar.
A tristeza na sua voz fez-me pegar nele por baixo dos braços e içá-lo para o meu lado no sofá abraçando-o perto do meu peito evitando assim que ele fugisse de mim:
- Olha, está a começar um filme ótimo. Vamos ver e assim descanso um bocado.
***
Quando o filme terminou era quase hora de almoço por isso peguei nele pela mão e levei-o para fora de casa guiando-o pelo caminho que ia até á aldeia. Ignorei os seus protestos e perguntas sobra o sitio para onde iamos e de mãos dadas caminhamos até chegar à pequena vila.
Podia ver o embaraço dele mas não larguei mão, mesmo quando as pessoas passavam por nós dizendo bom dia sorridentes.
Do lado de fora o edificio parecia apenas uma casa comum mas ao entrar revelava-se um pequeno restaurante familiar. Mesas redondas, vasos com flores em cada canto de um balcão que separava a sala da cozinha. Pequeno mas acolhedor. Pedi mesa para dois e o prato do dia. Logo pude ouvir o inicio das fofocas.
- Eu bem te disse que era o filho da Tsubaki-chan.
- E o rapaz que os homens viram afinal está com ele.
Por outro lado o rapaz à minha frente encontrava-se alheio a tudo. Os seus olhos brilhavam e o sorriso estampado no rosto dava-lhe um ar muito mais jovial e inocente.
- Você vinha aqui com seus pais?... Sempre que me leva a um recanto diferente sinto que está mostrando um pouquinho da pessoa que você é.
- Vim algumas vezes mas a razão porque te trouxe aqui foi apenas porque queria ter um encontro contigo.
A expressão perplexa encara-me:
- Isso é um encontro? Ah, não acredito... Que nem me dei conta... Estou me sentindo idiota, não paro de cometer gafes desde a hora em que acordei hoje.
Ele ri desviando o olhar, gesto idêntico ao meu. Se calhar lembramo-nos os dois da mesma coisa.
- Lawrence, eu queria esperar mais um bocado mas acho que agora seria um bom momento. Gostarias de vir trabalhar comigo para o Paradise?
Não era só por querer realizar o desejo dele de ser útil que tivera aquela ideia. Na verdade até foram alguns dos rapazes que sugeriram. Nunca ninguém iria imaginar ou desconfiar que o michê fugitivo estaria escondido e a trabalhar no negócio noturno ao lado. Se conseguíssemos ocultar a sua identidade seria fácil ele passar despercebido. E tendo em conta o facto de eu poder ser alvo de vigia passaria a ser complicado deslocar-me à casa de campo onde ele teria de permanecer sozinho. Ali ao menos haverá sempre alguém para ficar com ele e protegê-lo, pois apesar de não o conhecerem ainda consigo notar que a maioria deles já nutre simpatia por ele.
- Mas...Como? A Houkan House fica bem do outro lado da rua... Eu não quero voltar lá. - O anterior sorriso some-se por causa do terror palpável na sua voz. - O que exatamente você tem em mente, Master?
- Ninguém iria desconfiar Lawrence. Bastaria uma pequena mudança de visual e serias só mais um rapaz do clube. Ficarias no bar ou nem trabalho mais discreto. Quem é que ia pensar que estavas mesmo debaixo do nariz deles? E tu é que disseste que querias ser útil para mim. - Sem me aperceber um sorriso maldoso apareceu nos meus lábios.
- E eu quero, Master... - Lawrence afirma com uma convicção fria. - Mas, não vou negar que tenho medo... Ainda sim, confio em você... O que você quer que eu faça?
Levantei-me indo até ele e afaguei-lhe o cabelo pegando novamente na sua mão afim de voltar a conduzi-lo pela aldeia:
- Por agora era tudo o que eu precisava de ouvir. Vamos, ainda tenho uma tarde às tuas ordens.

Nenhum comentário

Oi! (◍•ᴗ•◍)
Veio comentar?
Cada autor desse blog recebe um imenso incentivo a cada comentário.
(Comentários anônimos também são bem vindos ^^")
Agradecemos sua opinião! ٩(๑•◡•๑)۶
Mas, se for apenas comentar sobre erros de gramática, isso é dispensável.